Quem é o personagem citado pelo evangelista nessa passagem e quais são os ensinos que extraímos desse registro bíblico?
Marcos é o único evangelista que descreve o inusitado caso do jovem que seguia Jesus envolto em um lençol e que, surpreendido, fugiu nu (Marcos 14.51,52). O texto não menciona seu nome; portanto, não é possível conhecer sua identidade. Mas há especulações. A principal delas é que esse personagem misterioso seria o próprio autor do registro, João Marcos, filho de Maria, uma das seguidoras de Jesus (Atos 12.12), em cuja casa teria sido celebrada a Páscoa por Jesus e Seus discípulos na semana da crucificação. Entre os que assim pensam está A. T. Robertson (2017, p. 519), mas não há nenhuma evidência disso.
Dando margem a essa especulação, podemos considerar também
que o fato de Marcos ter sido o autor exclusivo do registro pode ser resultado
exatamente da ocorrência imediatamente anterior, que foi o abandono de Jesus
por todos os Seus discípulos. A dinâmica dos acontecimentos é a seguinte: (1)
Jesus é preso e todos os discípulos fogem (Marcos 14.50); (2) conduzido pelos emissários
dos sacerdotes, Jesus é seguido por um jovem envolto em um lençol sobre o corpo
nu; (3) percebido, o moço é atacado pelos que levam o Mestre, deixa o lençol e
foge nu.
O fato de nenhum discípulo ter presenciado essa ocorrência pode
justificar a ausência do registro nos demais Evangelhos, visto que a própria
identidade do jovem certamente não foi conhecida nem mesmo pelos que tentaram prendê-lo.
Assim, se de fato era o próprio João Marcos, não identificado nas
circunstâncias atípicas daquela sombria noite, somente ele poderia, agora, ser
autor do registro, mantendo o anonimato.
Matthew Henry discorda da opinião que coloca João Marcos na
cena da prisão de Jesus no Getsêmani. Para ele, é mais razoável tratar-se de
algum jovem que vivia próximo ao jardim e que, ouvindo o barulho causado pelo
tumulto ocorrido no momento da prisão, levantou-se às pressas de sua cama para
ver o que acontecia, não tendo tido o cuidado de vestir-se (2008, p. 491).
Assim, após o entrevero com os discípulos (principalmente com Pedro) e o
abandono deles, esse jovem permaneceu seguindo Jesus, ocasião em que foi notado
e atacado.
A respeito da relevância desse tão curto registro, é preciso
considerar que nossa dificuldade em o compreender não compromete sua
importância. Sua inserção pelo autor bíblico não foi aleatória. Não há parte
alguma da Escritura que não tenha um propósito definido pelo Espírito (2 Timóteo
3.16,17; 2 Pedro 1.21). O contexto indica a circunstância de pleno abandono de
Cristo por Seus seguidores, incluindo este jovem que, com a opção de permanecer
ao lado do Mestre, preferiu a vergonha da nudez, tão abominada pelo povo judeu
em geral (Keener, 2017, p. 194).
Outrossim, o registro estampa, mais uma vez, a hostilidade dos
judeus em relação a todos os que ousaram, de qualquer forma, expressar algum
apoio a Cristo. Isso é observado inclusive em relação aos que receberam
milagres e decidiram testemunhá-los, como o cego de nascença mencionado pelo evangelista
João (João 9.1-41). A fúria dos religiosos de Israel era tão patente que os
pais do jovem tiveram medo de confirmar como se dera a cura do filho: “Perguntem
a ele [...]” (João 9.21, NAA). Quanto ao cego curado, foi expulso pelos
furiosos judeus diante da absoluta impossibilidade de negarem o milagre
realizado por Cristo (João 9.34).
Foi assim em todo o tempo do ministério de Jesus. E foi
assim também com esse jovem que, ainda que de modo inusitado, ousou seguir
Jesus na noite de sua prisão no Getsêmani.
Referências
ROBERTSON, A. T. Comentário Mateus & Marcos. 4ª
impr. Rio de Janeiro, CPAD, 2017.
HENRY, Matthew. Comentário Bíblico Novo Testamento.
Mateus a João. 1. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2008.
KEENER, Craig. S. Comentário Histórico-Cultural da Bíblia.
Novo Testamento. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 2017.
por Silas Rosalino de Queiroz
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