O “jovem que fugiu nu” e a relevância de Marcos 14.51,52

O “jovem que fugiu nu” e a relevância de Marcos 14.51,52


Quem é o personagem citado pelo evangelista nessa passagem e quais são os ensinos que extraímos desse registro bíblico?

Marcos é o único evangelista que descreve o inusitado caso do jovem que seguia Jesus envolto em um lençol e que, surpreendido, fugiu nu (Marcos 14.51,52). O texto não menciona seu nome; portanto, não é possível conhecer sua identidade. Mas há especulações. A principal delas é que esse personagem misterioso seria o próprio autor do registro, João Marcos, filho de Maria, uma das seguidoras de Jesus (Atos 12.12), em cuja casa teria sido celebrada a Páscoa por Jesus e Seus discípulos na semana da crucificação. Entre os que assim pensam está A. T. Robertson (2017, p. 519), mas não há nenhuma evidência disso.

Dando margem a essa especulação, podemos considerar também que o fato de Marcos ter sido o autor exclusivo do registro pode ser resultado exatamente da ocorrência imediatamente anterior, que foi o abandono de Jesus por todos os Seus discípulos. A dinâmica dos acontecimentos é a seguinte: (1) Jesus é preso e todos os discípulos fogem (Marcos 14.50); (2) conduzido pelos emissários dos sacerdotes, Jesus é seguido por um jovem envolto em um lençol sobre o corpo nu; (3) percebido, o moço é atacado pelos que levam o Mestre, deixa o lençol e foge nu.

O fato de nenhum discípulo ter presenciado essa ocorrência pode justificar a ausência do registro nos demais Evangelhos, visto que a própria identidade do jovem certamente não foi conhecida nem mesmo pelos que tentaram prendê-lo. Assim, se de fato era o próprio João Marcos, não identificado nas circunstâncias atípicas daquela sombria noite, somente ele poderia, agora, ser autor do registro, mantendo o anonimato.

Matthew Henry discorda da opinião que coloca João Marcos na cena da prisão de Jesus no Getsêmani. Para ele, é mais razoável tratar-se de algum jovem que vivia próximo ao jardim e que, ouvindo o barulho causado pelo tumulto ocorrido no momento da prisão, levantou-se às pressas de sua cama para ver o que acontecia, não tendo tido o cuidado de vestir-se (2008, p. 491). Assim, após o entrevero com os discípulos (principalmente com Pedro) e o abandono deles, esse jovem permaneceu seguindo Jesus, ocasião em que foi notado e atacado.

A respeito da relevância desse tão curto registro, é preciso considerar que nossa dificuldade em o compreender não compromete sua importância. Sua inserção pelo autor bíblico não foi aleatória. Não há parte alguma da Escritura que não tenha um propósito definido pelo Espírito (2 Timóteo 3.16,17; 2 Pedro 1.21). O contexto indica a circunstância de pleno abandono de Cristo por Seus seguidores, incluindo este jovem que, com a opção de permanecer ao lado do Mestre, preferiu a vergonha da nudez, tão abominada pelo povo judeu em geral (Keener, 2017, p. 194).

Outrossim, o registro estampa, mais uma vez, a hostilidade dos judeus em relação a todos os que ousaram, de qualquer forma, expressar algum apoio a Cristo. Isso é observado inclusive em relação aos que receberam milagres e decidiram testemunhá-los, como o cego de nascença mencionado pelo evangelista João (João 9.1-41). A fúria dos religiosos de Israel era tão patente que os pais do jovem tiveram medo de confirmar como se dera a cura do filho: “Perguntem a ele [...]” (João 9.21, NAA). Quanto ao cego curado, foi expulso pelos furiosos judeus diante da absoluta impossibilidade de negarem o milagre realizado por Cristo (João 9.34).

Foi assim em todo o tempo do ministério de Jesus. E foi assim também com esse jovem que, ainda que de modo inusitado, ousou seguir Jesus na noite de sua prisão no Getsêmani.

Referências

ROBERTSON, A. T. Comentário Mateus & Marcos. 4ª impr. Rio de Janeiro, CPAD, 2017.

HENRY, Matthew. Comentário Bíblico Novo Testamento. Mateus a João. 1. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2008.

KEENER, Craig. S. Comentário Histórico-Cultural da Bíblia. Novo Testamento. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 2017.

por Silas Rosalino de Queiroz

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