A queda de Lúcifer e a origem e atuação dos demônios conforme o testemunho bíblico
Com a ajuda de Deus, queremos abordar neste artigo um tema não muito fácil, e que não está sistematizado nas Sagradas Escrituras. Porém, o Espírito Santo, em Sua generosidade, não nos deixou sem luz neste assunto. Há vários vislumbres na Bíblia sobre o tema em apreço e, nesta curta caminhada, desfrutaremos das revelações de Deus, as quais Ele nos proporcionou em Sua Palavra.
Por que a possibilidade de os anjos caírem?
Por que a possibilidade de os anjos caírem? Esta é uma pergunta
que nos deixa perplexos, porém a Palavra divina e aqueles a quem Ele deu o dom
de mestre nos ajudam a compreender. Em Jó 4.18, está escrito: “Eis que nos seus
servos não confia e nos seus anjos encontra loucura”. A NAA diz: “imperfeições.”
Quem nos ajuda a elucidar este assunto é Tomás de Aquino em sua Suma Teológica,
quando nos diz que “só a Deus é natural a beatitude perfeita, porque nEle se
identifica a essência da beatitude, porém a qualquer criatura (seja terrena ou
celestial) a beatitude não é natural, mas é o fim último (após um período
probatório)”. Diz-nos também que “o anjo, como qualquer criatura racional, pode
pecar; e só por dom da graça, não pela condição da natureza, é que pode convir
a uma criatura a impecabilidade”. Ainda: “Os anjos não foram confirmados no bem
imediatamente, desde que foram criados, e isso o prova a queda de alguns”.
Assim sendo, só existe a impossibilidade de não pecar na pessoa
do Deus uno e trino, que é perfeito em sua essência.
Como ocorreu a queda de Lúcifer?
Há dois textos bíblicos que, de forma indireta, porém
lúcida, nos revelam os eventos que culminaram com a queda do querubim rebelde. Alguns
teólogos modernistas, que não creem na existência pessoal do Inimigo, negam que
os aludidos textos se refiram a Satanás, dizendo se referir apenas aos reis da
Babilônia e Tiro. Entretanto, não se pode produzir teologia divorciado da clareza
das Escrituras e desconsiderando os Pais da Igreja, que são os herdeiros
legítimos da tradição apostólica. Embora a última palavra seja a Escritura,
todos eles – Orígenes, João Cassiano, Salviano, Cirilo de Jerusalém, Gregório
Mag no, Jerôn imo, Tertuliano, Ambrósio, Agostinho, Efrém, o Sírio etc. – confirmaram
que essas passagens bíblicas, além de se referirem aos respectivos reis,
referem-se à queda de Lúcifer. Somente os teólogos seguidores dos famigerados iluminismo
e modernismo teológico não creem nessa verdade.
Falar de duas pessoas ou fatos num mesmo texto faz parte da
figura retórica própria da literatura hebraica e da duplicidade profética. Isso
chama-se também “profecia bifurcada”. Olhando por este prisma, inevitavelmente chegamos
à conclusão de que os textos falam dos reis terrenos, fazendo uma alusão ao que
ocorrera ao antigo príncipe espiritual. Como afirmar que os reis terrestres
eram mais sábios que Daniel? Criados e não gerados? Perfeitos em seus caminhos?
Estavam no Éden? Eram querubins ungidos? Andavam no monte santo de Deus?
Certamente Deus estava nos revelando alguém além de meros seres humanos.
Lembremo-nos que em outro paralelismo as Escrituras chamam Judá e Jerusalém de
Sodoma e Gomorra (Isaías 1.1,10) e as profecias de Daniel sobre o Anticristo
passam por Antíoco Epifânio primeiro para, por fim, chegarem à pessoa do Anticristo
(Daniel 9.27; 12.11; Mateus 24.15; 2 Tessalonicenses 2.3,4).
Até aos anos 80, a maioria esmagadora dos pentecostais
formados sob a batuta de mestres como Eurico Bergsten, autor de Teologia
Sistemática, e Lawrence Olson, de O Plano Divino Através dos Séculos (ambos títulos
da CPAD), foi ensinada nos seminários teológicos e Escolas Bí blicas de Obreiros
Brasil afora que, antes de Adão, nosso planeta, em suas origens, foi habitado por
seres celestiais liderados por Lúcifer, que até então serviam a Deus e
dominavam o planeta com a criação existente.
Deste modo, é no nosso mundo que surge a rebelião angelical
que invade o cosmos e que chega aos céus de Deus. Isso é a chamada “Teoria da
Lacuna”, linha teológica está praticamente abandonada pela maioria dos teólogos
atuais do meio pentecostal. Entretanto, G. M. Pember, teólogo britânico, ia mais
longe, pois afirmava até que, além de anjos, e dos reinos vegetal, animal e
mineral, o mundo pré-adâmico possuía também uma raça humana. Segundo Pember,
com a queda de Lúcifer, a morte veio ao mundo, donde se explica, inclusive, os fósseis
de milhões de anos, com sinais de doenças e morte, inclusive os dinossauros que
foram extintos muito antes da criação de Adão. A posição de Pember quanto ao fato
de haver seres humanos na terra antes de Adão, entretanto, nunca foi aceita
pela maioria dos teólogos pentecostais.
O que ocorreu com o então anjo Lúcifer?
A expressão “Lúcifer”, atualmente nas Bíblias em português,
só está na Almeida Corrigida Fiel da Sociedade Bíblica Trinitariana bem como na
King James 1611 em Isaías 14.12, pois estas versões seguem a Versão Latina de São
Jerônimo. Essa expressão no latim significa “portador da luz”, a “estrela da
alva”, o objeto mais brilhante no céu excetuando-se o sol e a lua. Ezequiel
28.15 nos diz que ele era “perfeito em seus caminhos até que se achou
iniquidade nele”. Como afirmado anteriormente, ele estava em estado probatório,
sua perfeição não era absoluta, então a iniquidade surgiu nele e, achando pouco
o que Deus lhe outorgara, quis subir ao céu e acima das estrelas de Deus
exaltar o seu trono e ser semelhante ao Altíssimo (Isaías 14.13,14).
Como a “soberba precede a ruína” (Provérbios 16.18), seu plano
deu errado e, em vez de subir, foi precipitado no inferno e no mais profundo do
abismo (Isaías 14.15), pois houve conflito no céu, e Miguel – cujo nome provavelmente
tem a ver com o ocorrido, pois significa “Quem é semelhante a Deus?” – o fez
precipitar-se como um raio (Apocalipse 12.7-9), o que foi testificado por Cristo
(Lucas 10.18). Somente a partir daí o inferno foi criado para o juízo dele e
dos que o seguiram e seguirem, sejam anjos ou homens (Mateus 25.41).
Os anjos caídos
O Senhor Jesus, em seu sermão escatológico, referindo-se ao
juízo das nações, foi enfático, quando disse: “Apartai-vos de mim malditos,
para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos” (Mateus 25.41). Há pouco
falamos sobre a queda de Lúcifer, a estrela da alva mencionada em Isaías 14.12.
Para compreendermos a origem dos anjos caídos, necessitamos ir ao Apocalipse,
onde nos é revelado o futuro escatológico e que ao mesmo tempo faz referência ao
que ocorreu no passado remoto quando o então anjo de luz caiu. Em Apocalipse 12
está escrito que foi visto um grande sinal no céu e, entre outras coisas, foi
visto um dragão que levou após si a terça parte das estrelas do céu (Apocalipse
12.4).
O aludido texto nos revela também que “houve uma batalha no céu:
Miguel e seus anjos batalharam contra o dragão; e batalharam o dragão e seus
anjos, mas não prevaleceram; nem mais o seu lugar se achou nos céus” (Apocalipse
12.7,8). Aqui nos é revelado que o “querubim ungido”, então transformado em
dragão, não caiu só, mas arrastou uma terça parte dos anjos com a cauda. No
pensamento interpretativo hebraico, cauda fala de força. Isso equivale a dizer
que o antigo Lúcifer era mais forte do que os demais anjos.
Em Ezequiel 28.16 está escrito que o velho querubim “multiplicou
o seu comércio”. Verdade é que o reino de Tiro era baseado no comércio, todavia,
como explicamos há pouco, a profecia é bifurcada e aponta para um príncipe
terreno e um ser espiritual. O vocábulo “comércio” em hebraico é “rekullah”
e muitos entendem que implica em comercializar pela publicidade. Assim, o
comércio de Lúcifer foi propagar suas ideias caluniosas contra Deus diante dos
anjos que estavam sob seu comando, como até hoje faz todo rebelde com seu líder
que pretende dividir uma igreja. Deste modo, a forte “cauda” do antigo querubim
conseguiu arrastar a terça parte dos anjos.
Não é à toa que ele é chamado “diabo” que significa
caluniador. Lembremo-nos que ele caluniou Deus diante de Eva, dando a entender que
o Senhor não era tão bom quanto parecia, pois, sendo egoísta, encobria o conhecimento
do primeiro casal. Cremos piamente que esse foi o mesmo “modus operandi” que ele
usou com os anjos, tentando macular a justiça, amor e bondade do Criador diante
deles.
O hagiógrafo Judas – em sua pequena, porém importante
epístola – nos diz o que aconteceu: “Os anjos que não guardaram o seu principado,
mas deixaram a sua própria habitação...” (Judas v. 6). Referindo-se a esses
mesmos seres espirituais, o apóstolo Pedro disse: “Deus não perdoou os anjos
que pecaram” (2 Pedro 2.4). Deixando seu primitivo domicílio e seguindo Lúcifer,
pecaram, tiveram seus sentidos corrompidos sem a possibilidade de redenção (Ver
2 Coríntios 11.3). Assim sendo, o que ele fez com Eva, já o fizera anteriormente
com os seres espirituais. O sacrifício expiatório de Cristo não os alcança, pois,
quando o Redentor veio ao mundo, “na verdade ele não tomou os anjos, mas tomou
a descendência de Abraão” (Hebreus 2.16); “visto como os filhos participam da
carne e do sangue, também ele participa das mesmas coisas, para que, pela
morte, aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo” (Hebreus 2.14).
Ou seja, o sacrifício vicário de Cristo redime os seres humanos e aniquila o
Diabo e seus anjos.
Tomás de Aquino nos esclarece, em sua “magna opus”, a Suma
Teológica, o porquê de não haver redenção para os anjos. Os anjos caídos não
aceitaram a salvação, e isto é parte da explicação de por que Cristo assumiu a natureza
humana e não a angelical. Na visão de Aquino, os anjos, como seres puramente
espirituais, têm um entendimento imediato da verdade. Sendo assim, um anjo tem
uma clareza de entendimento que quando ele faz uma escolha, ela é imutável.
Esses anjos caídos atualmente estão sob a égide de Satanás e
são seus agentes mundo afora. Mediante eles, a ação satânica opera no mundo
inteiro, o que faz com que ele pareça onipresente. Assim como existe hierarquia
entre os anjos bons também há um paralelismo no reino satânico. Por isso Paulo
nos diz em Efésios 6.14 que “não temos que lutar contra carne e sangue, mas sim
contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as
hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais”. Não os temamos, pois,
depois de ressuscitado, Cristo assentou-se à direita do Pai nos céus “acima de
todo principado, e poder e potestade, e domínio, e de todo nome que se nomeia,
não só neste século, mas também no vindouro” (Efésios 1.20,21). Em Cristo somos
mais que vencedores (Romanos 8.32); e o Senhor nos prometeu que ninguém nos arrebatará
de Suas mãos (João 10.28).
A origem e a atuação dos demônios
No Antigo Testamento, há poucas referências diretas e
indiretas aos demônios. São elas: “...nunca mais sacrificarão os seus
sacrifícios aos demônios” (Levíticos 17.7); “Sacrifícios ofereceram aos diabos e
não a Deus...” (Deuteronômio 33.17); “Demais disto, sacrificaram seus filhos e
suas filhas aos demônios” (Salmos 106.37); e “E ele constituiu sacerdotes para os
altos, e para os demônios” (2 Crônicas 11.15). Isaías 34.14 fala de “sátiros”,
um outro vocábulo para os que eram conhecidos como demônios.
Veremos a seguir que alguns estudiosos acreditam que há uma
diferença entre anjos caídos e demônios por alguns motivos. Somos cientes de
que no Período Interbíblico surgiram vários livros apócrifos e pseudoepigráficos
que trazem novidades doutrinárias que não se encaixam com os registros canônicos.
Também escritores e filósofos como Filo de Alexandria (25 a.C. a 45 d.C.)
seguem o pensamento grego de que tanto anjos como demônios são mensageiros de
Deus e que estes são bons. Mesmo sendo judeu, Filo adotou esse pensamento. Já
Flávio Josefo, em seus escritos, chama os demônios de “espíritos malignos”. Homero
escreveu que um demônio é um tipo de divindade secundária. Vejamos as ideias
que foram amplamente difundidas.
Em primeiro lugar, falemos sobre o pensamento de G. H. Pember.
Este, além de crer na Teoria da Lacuna, em que entre Gênesis 1.1 e 1.2 há um
hiato de tempo e fatos ocorridos que não estão registrados ali, Ele também cria
que, além de anjos terem vivido aqui na terra, havia uma geração de homens
pré-adâmicos que também foram afetados pela queda de Lúcifer, juntamente com os
anjos. Assim, quando houve o desastre que deixou a terra “sem forma e vazia”, esses
seres humanos morreram, de quem são os fósseis de milhões de anos. Segundo Pember,
os espíritos desencarnados desses homens pecadores são os que são conhecidos por
demônios hoje e, por serem criaturas que outrora possuíram corpos, desejam possuir
corpos de homens e de animais. Crendo assim, os demônios não são da classe dos anjos
caídos. Diante do exposto, é bom lembrar que isto é uma teoria e não uma
definição doutrinária plenamente esclarecida nas Escrituras.
Em segundo lugar, temos a ideia de que os demônios são resultado
do relacionamento de anjos que se apaixonaram por mulheres antediluvianas, baseados
na interpretação de que os filhos de Deus de Gênesis 6.1-4 são anjos, pois em
alguns lugares no texto das Escrituras hebraicas – tais como Jó 1.6, 2.1 e 38.7
– eles são chamados “filhos de Deus”. Conforme sabemos, essa ideia é produto dos
apócrifos e pseudoepígrafos, bem como de filósofos à semelhança o judeu Filo de
Alexandria, que se desenvolveram nos dois séculos antes de Cristo e até depois.
Muitos Pais da Igreja defenderam essa ideia. Esse pensamento é mais evidente no
livro pseudoepígrafo de Enoque, o Etíope, citado por Judas no versículo 14 de
sua epístola canônica, o que não é de se estranhar, visto que Paulo, em suas falas
e escritos, citou muitas verdades ditas por pagãos e o Espírito Santo achou-as
apropriadas à fé cristã, todavia o versículo citado por Judas tem a ver com a Parusia
e não sobre demônios. Depois da patrística, essa interpretação caiu em desuso e
poucos hoje a arvoram. A maioria dos teólogos cristãos atuais defende que os
filhos de Deus são a piedosa descendência de Sete; e os filhos dos homens, a ímpia
descendência de Caim.
Portanto, os demônios são, na verdade, também anjos caídos
que se manifestam de forma grosseira.
Concluindo, notificamos que hoje os anjos fiéis a Deus já passaram
seu tempo probatório e chegaram ao que a teologia chama de “beatitude” ou
“estado perfeito, eterno e imutável” na presença de Deus e, uma vez aprovados, são
chamados de “anjos eleitos” (1 Timóteo 5.21). Brevemente seremos nós que, com a
graça de Deus, chegaremos a esse estado feliz.
Tranquilizemo-nos, pois o diabo e seus anjos não fazem o que
querem, mas estão sob o controle de Deus e do Senhor Jesus (Efésios 1.17-23).
Agostinho já dizia que Satanás é o “Canis Dei”, ou seja, “o cachorro de Deus”,
e o cão está sob o controle do seu dono. Daí vem a origem de chamar o Inimigo
de “O Cão”. Ad majorem gloriam Dei.
por José Orisvaldo Nunes de Lima
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