A Independência e a liberdade aos protestantes

A Independência e a liberdade aos protestantes


A Independência do Brasil é o evento histórico mais relacionado com a abertura da liberdade aos protestantes em terras brasileiras. Depois de mais de três séculos de hegemonia católica – o que incluiu violentas expulsões dos protestantes em 1567, 1625 e 1654 –, o rompimento definitivo com Portugal pôs fim à ameaça de retrocesso às condições de perseguição religiosa vividas antes de 1808, quando os ingleses anglicanos chegaram ao Brasil escoltando a família real portuguesa.

Mas, como foi esse processo?

As guerras napoleônicas

No início do século XIX, o orgulho português cantado por Luís de Camões em Os Lusíadas foi atingido pela iminente invasão de Lisboa pelas tropas de Napoleão Bonaparte (1769-1821). Alçado ao cargo de imperador da França em 1804, o conquistador francês aspirava comandar toda a Europa, incluindo Portugal. Mas havia um oponente que o impedia: a Inglaterra. Sem condições de vencê-la militarmente, buscou asfixiá-la economicamente, proibindo as demais nações europeias de fazer negócios com os britânicos. Como Portugal dependia da relação comercial com os ingleses, manteve a aliança luso-britânica, irritando Napoleão. Na véspera da invasão da capital portuguesa, a família real lusitana foge para sua colônia latino-americana, a Terra de Santa Cruz, deixando os franceses “a ver navios”. Era 29 de novembro de 1807.

Ao Brasil sob escolta inglesa

Portugal dependia da Inglaterra não apenas para fins comerciais, mas também militares. Na viagem ao Brasil, a corte portuguesa e seus acompanhantes – cerca de 15 mil pessoas – singraram os mares escoltados por navios de guerra britânicos. Aportados na colônia portuguesa em 1808, os ingleses não trouxeram somente seu comércio, mas também sua religião, o anglicanismo, um dos ramos originários da Reforma Protestante. Isso foi determinante para o início do processo de abertura da liberdade ao protestantismo no Brasil.

A nova realidade política, econômica e religiosa estabelecida em solo brasileiro foi materializada pelo Tratado de Comércio e Navegação, firmado entre Portugal e o Reino Unido em 1810. Além de prever recíproca liberdade de comércio e navegação e tratar de questões tributárias e alfandegárias, o documento previa o direito de livre trânsito e residência (art. II), inviolabilidade de domicílio (art. VII) e liberdade religiosa (art. XII).

O tratado estabeleceu que portugueses e ingleses, reciprocamente, não seriam “perturbados, inquietados, perseguidos ou molestados por causa da sua religião, mas antes [teriam] perfeita liberdade de consciência e licença para assistirem e celebrarem o serviço divino em honra do Todo Poderoso Deus, quer seja dentro de suas casas particulares, quer nas suas particulares igrejas e capelas”. Mas o texto fazia algumas ressalvas. Uma delas era que as igrejas e capelas deveriam ser construídas “de tal modo que externamente se [assemelhassem] a casas de habitação”. Outra dizia que os súditos ingleses não poderiam pregar ou se declarar publicamente contra a religião católica, assim como não poderiam tentar converter católicos ao protestantismo. Se o fizessem, seriam expulsos dos territórios de domínio português, incluindo o Brasil.

O tratado também previu multa e prisão domiciliar para quem desrespeitasse ritos e cerimônias católicos, ou expulsão se as ofensas fossem graves e perturbassem a tranquilidade pública ou colocassem em perigo a segurança das instituições da igreja católica e do estado. Foi ainda naquela ocasião que, pela primeira vez, se permitiu o sepultamento de protestantes em cemitérios específicos nos territórios de domínio português, assegurada a proteção de funerais, sepulturas e corpos dos mortos.

Reino Unido e Revolução Liberal

Enquanto por aqui os ventos da liberdade sopravam, em Portugal um processo de retrocesso estava em andamento. Lisboa não estava satisfeita com as mudanças na colônia, que, aliás, em 1815 foi elevada à condição de sede do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Um sentimento de rebaixamento frente à ex-colônia, somado à influência das ideias iluministas que produziram a Revolução Francesa fez eclodir, em 1820, a famosa Revolução Liberal do Porto. No ano seguinte (1821), os revolucionários exigiram o retorno de Dom João VI a Lisboa. Os poderes da Coroa já não eram os mesmos. A revolução criou as Cortes Gerais e estabeleceu uma Monarquia Constitucional, aprovando a primeira Constituição em 1822. O absolutismo monárquico tinha acabado também em Portugal.

Essa nova realidade política pôs em risco a liberdade alcançada pelo protestantismo no Brasil. A Revolução do Porto e os movimentos que a sucederam produziram muitas tensões entre Portugal e Inglaterra, a começar pela expulsão de oficiais ingleses que integravam o comando militar português. A crise econômica vivida em Lisboa e outras cidades lusitanas era atribuída ao Tratado de Comércio e Navegação firmado no Brasil em 1810, que havia tirado a exclusividade comercial portuguesa na então colônia. Não raro, o dinheiro está por atrás dos grandes conflitos.

O estopim para a Independência

Além de exigirem a revogação do tratado comercial firmado com a Inglaterra (o que comprometeria a liberdade religiosa), as Cortes de Lisboa queriam recolonizar o Brasil, pondo fim ao chamado Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Para isso, era imperativo que Dom Pedro, deixado por seu pai Dom João no comando da colônia, também retornasse a Portugal. Mas, a essas alturas, o Brasil já tinha uma elite política e econômica muito influente, que não queria perder o poder conquistado e voltar à vassalagem frente a Lisboa. Assim, como o retorno de Dom Pedro significava a mudança do status político e econômico do Brasil, a saída encontrada era sua permanência e a proclamação de independência em relação a Portugal. Deu-se início, então, a um definitivo processo de ruptura com as Cortes portuguesas. O primeiro ato concreto foi a decisão do príncipe regente em permanecer no país – o Dia do Fico: 9 de janeiro de 1822.

Diversos outros movimentos políticos fizeram parte desse processo, como o decreto de Dom Pedro estabelecendo a necessidade do “Cumpra-se” – sua prévia aprovação às decisões portuguesas para que valessem em solo brasileiro. Mas o ponto alto se deu mesmo em 7 de setembro daquele ano (1822), com o grito da independência às margens do riacho do Ipiranga, símbolo épico da ruptura com Portugal. Em 1º de dezembro seguinte, o príncipe regente foi coroado como imperador do Brasil, recebendo o título de Dom Pedro I, o que marcou definitivamente o rompimento com Lisboa.

Efeitos práticos da Independência

A consolidação da Independência pôs fim ao risco de retrocesso nas relações com a Inglaterra. A abertura ao protestantismo foi mantida e chancelada na primeira Constituição do Império, proclamada em 1824, que dizia em seu artigo 5º: “A Religião Católica Apostólica Romana continuará a ser a religião do Império. Todas as outras religiões serão permitidas com seu culto doméstico, ou particular em casas para isso destinadas, sem forma algum exterior do Templo”. A mesma permissão do Tratado de Comércio e Navegação, lavrado 1810.

Era o caminho para uma abertura mais ampla ao protestantismo, que veio com a Proclamação da República e a promulgação da primeira Constituição em 1891, quando o Brasil deixou de ser um país oficialmente católico, estabelecendo-se a separação entre Igreja e Estado, a laicidade que hoje conhecemos. Tudo isso demonstra como eventos históricos de natureza religiosa acontecem sob a influência de múltiplos fatores (principalmente políticos, sociais e econômicos), ao mesmo tempo que produzem significativa influência em todos os contextos da vida humana.

por Silas Rosalino de Queiroz

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