“Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim. Contudo, não quereis vir a mim para terdes vida” (João 5.39,40). Esta declaração do Senhor Jesus foi direcionada a religiosos, a homens que se autointitulavam detentores do conhecimento e porteiros da eternidade. Examinar é um termo grego que tem aqui um sentido muito maior do que ter uma visão superficial ou descuidada de algo. Esse termo foi empregado pelo Senhor Jesus para nos deixar uma lição importante.
Naquela ocasião, o Novo Testamento, como nós o conhecemos, ainda
não estava organizado, constituÃdo. Então, o Senhor Jesus estava se referindo
ao Pentateuco, ou seja, aos escritos sagrados que Deus havia confiado a Moisés.
Ele se referia também aos textos dos profetas maiores e dos profetas menores, escritos
por calÃgrafos judaicos, verdadeiros artesões. Sábios, escribas, rabinos e
estudiosos empregavam anos, debruçados sobre aqueles rolos enormes de
documentos, buscando entender a curva de cada letra, o porquê de seu desenho e
o seu significado. Aqueles homens estavam tão focados em seus estudos que foram
incapazes de enxergar que todas aquelas coisas, todos aqueles escritos, diziam
respeito à Pessoa que falava com eles. Tudo o que haviam buscado durante anos
estava ali, totalmente disponÃvel.
A fábula de Aladim e a lâmpada maravilhosa serve para
ilustrar essa conversa entre o Senhor Jesus e aqueles estudiosos. Na fábula,
enquanto a lâmpada não era esfregada, era uma simples lâmpada. Ao ser
esfregada, o gênio saÃa da lâmpada e atendia desejos. Os escritos sobre os
quais aqueles homens passavam anos estudando era apenas um pedaço de couro, era
apenas a “lâmpada maravilhosa”. Mas Jesus, não como um gênio que sai da
lâmpada, mas como Deus entre nós, salta das Escrituras e Se apresenta a todos,
em qualquer tempo ou lugar, quando examinamos as Escrituras atentamente.
Havia entre aqueles estudiosos um senso comum de que
examinar tais documentos lhes daria a vida eterna, da mesma forma que há hoje, o
senso comum de que a BÃblia é o Livro que fala sobre Deus. A maioria das
pessoas, mundo afora, está convencida disso. Além do mais, também temos hoje
várias versões da BÃblia Sagrada. Na verdade, o que todas contêm é o Deus que
se personifica diante de nós. Contudo, muitos, de maneira completamente incoerente,
continuam como bem disse o Senhor Jesus: “Contudo, não quereis vir a mim para
terdes vida” (v. 40).
O que nos toca, e é sobre isso que devemos refletir, é que
Ele não estava falando essas coisas para pessoas que ignoravam a existência de
Deus. AÃ, você pode pensar: “Ah, eles eram fariseus, nós, que vivemos sob a
Graça, não”. Será mesmo que não? Vejamos: “Naquele mesmo dia, dois deles
estavam de caminho para uma aldeia chamada Emaús, distante de Jerusalém
sessenta estádios. E iam conversando a respeito de todas as coisas sucedidas.
Aconteceu que, enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e
ia com eles. Os seus olhos, porém, estavam como que impedidos de o reconhecer.
Então, lhes perguntou Jesus: Que é isso que vos preocupa e de que ides tratando
à medida que caminhais? E eles pararam entristecidos. Um, porém, chamado Cleopas,
respondeu, dizendo: És o único, porventura, que, tendo estado em Jerusalém,
ignoras as ocorrências destes últimos dias?” (Lucas 24.13-18).
Esta passagem de Lucas começa nos dizendo que aqueles dois
homens haviam sido discÃpulos de Jesus, ou seja, eram pessoas que haviam
convivido com Ele durante três anos e que, portanto, estavam familiarizadas,
pelo menos, com o Seu timbre de voz. Neste ponto, eu preciso perguntar uma
coisa: se você estiver com os olhos fechados, consegue identificar a voz do seu
cônjuge ou a voz da sua mãe? Bem, três anos de convÃvio dava condições
suficientes àqueles dois para que reconhecessem que aquEle que falava com eles
era Jesus. O texto conta para nós que a caminhada era de sessenta estádios, o que
corresponde a 12 quilômetros. Isso nos leva a acreditar que aquela era uma
caminhada lenta, calma. Afinal, ninguém percorre 12 quilômetros a passos largos
e ligeiros. Além disso, aquela deveria ser uma estrada sem muito tráfego. Como,
então, aquela terceira pessoa surgiu entre os dois sem causar, ao menos, surpresa?
Nenhum daqueles dois homens foi capaz de perceber as semelhanças entre aquEle
que surgiu entre eles e o Mestre? Ora, Jesus não ressuscitou com outro rosto, outra
estatura ou outro timbre de voz. Ele também não ressuscitou mais gordo ou mais
magro!
No inÃcio deste artigo, eu falei sobre a lição que o Senhor
Jesus queria deixar para nós ao usar o termo “examinar”. A palavra “julgar”, que
Ele também usou, é outra que carrega significado importante para nós neste
contexto. A mulher que tinha um fluxo de sangue julgou, ou seja, ela decidiu,
ela estabeleceu como verdadeiro, que não precisava de uma “oração forte”, de um
copo com água ou de uma unção com azeite para ficar curada. Ela decidiu que
apenas um toque no vestido dEle seria suficiente para ela. A boa notÃcia é que
o mesmo Cristo que ela tocou está entre nós. Então, diga agora mesmo: “Senhor, eu
sei que tu estás aqui”.
Não sejamos parecidos nem com os fariseus, nem com os
discÃpulos de Emaús, mas sejamos, sim, parecidos com a mulher do fluxo de sangue,
que creu tanto em Jesus que foi abençoada sem que fosse preciso qualquer outra
coisa além da certeza de que Ele era mesmo o Senhor. Jesus é o Alfa e o Ômega, Ele
é tudo.
por Jaime Soares
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