O avanço da perseguição religiosa no país asiático segue nova escalada
“Qualquer igreja cristã que não queira se submeter ao poder do estado [...], o Partido Comunista Chinês sente que precisa silenciar e até destruir”. A declaração é de Bob Fu, pastor chinês radicado nos Estados Unidos e presidente da ChinaAid, entidade que monitora casos de perseguição religiosa na China. Ela foi feita diante da demolição, em maio deste ano, da Igreja Yazhong, localizada em Wenzhou, província de Zhejiang, após meses de prisões, vigilância e pressão governamental.
O que durante anos pareceu exagero ou “teoria da
conspiração” para parte do Ocidente hoje é denunciado por todas as missões
internacionais, organizações de direitos humanos e líderes cristãos: a China de
Xi Jinping intensificou o controle sobre a fé, ampliando perseguições,
demolindo igrejas e promovendo a chamada “sinização” do cristianismo.
Sinização
Instaurado a partir de 2017, o termo promovido oficialmente
pelo governo de Xi Jinping refere-se ao processo de assimilação das religiões à
cultura chinesa, principalmente o idioma, os costumes, as normas e a identidade
nacional imbuída de valores políticos e ideológicos defendidos pelo estado e
pelo Partido Comunista Chinês (PCC), que governa o país. Essas medidas ultrapassam
simples aspectos culturais, avançando para um rígido sistema de controle
ideológico da fé. Normas administrativas do partido, que se sobrepõem às leis
estatais e à Constituição, obrigam as igrejas locais a se dissolverem em grupos
menores, reunidos discretamente, ou a se submeterem à supervisão do Comitê do
Movimento Patriótico Cristão das Três Autonomias.
As igrejas registradas passam a ser pressionadas a exibir
símbolos patrióticos, divulgar mensagens alinhadas ao governo e incorporar
discursos pró-socialismo aos ensinos religiosos, como publicado em edições
anteriores do jornal Mensageiro da Paz. Já as comunidades cristãs que optam pela
independência e descrição se tornam alvos das autoridades chinesas. Reuniões
consideradas irregulares, estudos bíblicos realizados fora das estruturas
autorizadas e até encontros infantis de ensino cristão expõem líderes a perseguições,
detenções, multas e fechamento de templos.
Para organizações de direitos humanos e missões
internacionais, essas normas do governo chinês ultrapassam a proposta de assimilação
cultural, se caracterizando como uma espécie de “domesticação política” que
visa garantir a submissão ao PCC por parte das cinco principais religiões que o
partido-estado permitiu operar legalmente na era das reformas desde 1979, que
são o budismo, o taoísmo, o islamismo, o catolicismo e o cristianismo
protestante.
“Nova interpretação” da Bíblia
Um dos aspectos mais controversos, abordado comumente nessa política
de sinização, é a acusação de releituras de textos bíblicos pelo regime chinês
com o objetivo de alinhá-los aos valores socialistas defendidos pelo PCC. Uma
dessas denúncias partiu de Todd Nettleton, um representante da Voz dos Mártires
(VOM), órgão internacional de vigilância da perseguição a cristãos, em
entrevista ao Faithwire. “Este é um projeto que o Partido Comunista Chinês
anunciou em 2019. Na época, eles disseram que seria um processo de cerca de 10 anos
[...] para liberar uma nova tradução da Bíblia”, afirmou Nettleton, observando
que essa “nova Bíblia” incluiria princípios confucionistas e budistas, entre
outros. “Esta nova tradução [...] realmente apoiaria o Partido Comunista”,
afirmou.
Em um episódio de grande repercussão mundial, um livro paradidático
atribuído ao sistema educacional chinês retratou Jesus de forma falsa e
antibíblica na passagem da mulher adúltera, descrita no capítulo 8 do Evangelho
de João, encerrando-a de maneira alinhada ao conceito de obediência à lei
estatal. Nesta nova versão, observada, conforme relato, em um livro publicado
em setembro de 2020, a multidão se dispersa, mas o texto afirma: “Quando todos saíram,
Jesus apedrejou a própria mulher e disse: ‘eu também sou um pecador’”. Além de
ir contra a verdade das Escrituras, a releitura confronta diretamente a
divindade de Jesus. “Em certo sentido, é tão arrogante pensar ‘Vou reescrever a
história de Jesus’ [...], mas então você pensa em negar a divindade de Cristo.
Se Jesus é um pecador, então ele não é Deus”, acrescentou Nettleton. Desta
forma, a intervenção estatal transcende simples alterações textuais, alcançando
também o controle da formação teológica e da interpretação religiosa dentro do
país.
Prisões, demolições e restrições ao culto
Em meio às discussões de controle ideológico da fé na China,
igrejas domésticas e grupos independentes têm sofrido retaliações das autoridades
chinesas. Em maio, seis cristãos foram detidos pela polícia local sob a falsa
acusação de “organizar menores para se envolverem em atividades que minam a
ordem pública” e de cometerem “fraude”, porque promoviam uma Escola Bíblica
Dominical para crianças de uma igreja doméstica na cidade de Kaili, na
província de Guizhou. Foram presos cinco homens, Cheng Yongbing, He Jinbao,
Long Jian, Quan Xiaolong e Wei Yongqiang, e uma mulher, Zhou Guixia.
Outro episódio, que citamos na abertura desta reportagem, culminou
na demolição da igreja Yazhong, ou Yayang, um templo de vários andares na
cidade de Wenzhou, na província de Zhejiang. A congregação enfrentava perseguição
governamental desde junho de 2025 por não se submeter às regulamentações
estatais. Em dezembro, segundo a ChinaAid, mais de 100 membros foram detidos no
decorrer de uma operação para tomar o controle do prédio da igreja. Meses
depois, o templo foi fechado e cercado por postos de controle alocados nas
proximidades para impedir acessos não autorizados. Em seguida, veículos pesados
e equipes de operários foram designados para destruir o santuário “de cima para
baixo, reduzindo-o a escombros”.
De acordo com a organização, a exigência feita por oficiais
para a exibição da bandeira nacional no interior do templo e a instalação de um
mastro no terreno da igreja foram interpretadas pelos fiéis como um ataque à
santidade da sua fé. A rejeição em acatar o pedido agravou os conflitos e o tom
das represálias. Durante a demolição, outros quatro membros foram detidos.
“Pessoas que tentavam tirar fotografias ou gravar vídeos com celulares eram
imediatamente abordadas, expulsas ou detidas”, relatou a ChinaAid. Apelidada de
“Jerusalém da China”, a cidade de Wenzhou, onde a igreja estava situada, possui
um elevado número de cristãos. “Meus irmãos e irmãs na fé se mantiveram firmes
por tanto tempo. Mais do que a perda de um prédio de igreja, lamento como o PCC
reprimiu esta área conhecida por seus cristãos fiéis e os oprimiu cada vez mais
dia após dia”, disse Bob Fu.
Além das ações presenciais, denúncias apontam que o governo chinês
também ampliou mecanismos de vigilância digital sobre comunidades religiosas,
utilizando reconhecimento facial, monitoramento eletrônico e fiscalização de conteúdos
compartilhados online por líderes cristãos e membros de igrejas domésticas.
Para organizações de direitos humanos, o conjunto dessas medidas evidencia a
atuação da política de sinização, para além do campo cultural ou administrativo,
integrando um modelo mais amplo de controle social e ideológico promovido pelo
PCC.
Pressão internacional e resistência da igreja
O endurecimento das políticas religiosas chinesas tem
provocado reações internacionais. Durante visita a Pequim, em maio, o presiente
estadunidense, Donald Trump, defendeu prisioneiros religiosos e voltou a cobrar
maior liberdade de crença no país asiático. Paralelamente, casos de perseguição
seguem sendo denunciados por entidades cristãs e organizações de ajuda
humanitária.
Apesar da crescente repressão, relatórios internacionais
indicam o avanço do cristianismo na China, especialmente por meio das igrejas domésticas.
Mesmo diante de vigilância, prisões e restrições impostas pelo estado, milhares
de cristãos seguem se reunindo clandestinamente em diferentes regiões do país,
transformando a resistência de fé em um dos maiores desafios ao controle
ideológico promovido pelo governo de Xi Jinping.
Compartilhe este artigo. Obrigado.

Postar um comentário
Seu comentário é muito importante