A Bíblia afirma os benefícios espirituais; apesar disso, estima-se que apenas um terço dos pentecostais no mundo orem em línguas todas as semanas
Escrevendo aos cristãos em Corinto, o apóstolo Paulo enfatiza os benefícios do falar em línguas para a edificação espiritual pessoal e recomenda a todos os crentes que falem em línguas: “O que fala em língua estranha edifica-se a si mesmo” (1 Coríntios 14.4a); “E eu quero que todos vós faleis línguas estranhas” (1 Coríntios 14.5a); “Não proibais falar línguas” (1 Coríntios 14.39b). Inclusive, ele mesmo asseverava falar em línguas constantemente: “Dou graças ao meu Deus porque falo mais línguas do que vós todos” (1 Coríntios 14.19). É verdade que falar em línguas não é a única forma de ser edificado espiritualmente de forma pessoal, mas se é um recurso maravilhoso nesse sentido e está à nossa disposição, tendo sido nos concedido pelo Senhor trazendo esse benefício, por que não o utilizar com frequência, diariamente, em nossos devocionais diários? Ainda mais que a Palavra de Deus afirma que “se eu orar em língua estranha, o meu espírito ora bem” (1 Coríntios 14.14). Logo, como orienta o apóstolo Paulo, para minha edificação pessoal, “orarei com o espírito” e “cantarei com o espírito” (1 Coríntios 14.15).
Agora, como se não bastasse a recomendação bíblica, nos últimos
anos, estudos recentes nas áreas de neurociência e psicologia cognitiva têm
evidenciado os enormes benefícios para a saúde mental decorrentes da prática de
falar em línguas, o que é chamado tecnicamente de “glossolalia”.
Cientistas: falar em línguas não é imitação ou farsa, e
beneficia a mente
Um estudo neurocientífico, publicado na edição de dezembro
de 2020 da revista IBRO Reports, da International Brain Research Organization
(Organização Internacional de Pesquisa do Cérebro) e também na plataforma da
PubMed Central (Central de Publicação Médica) da National Library of Medicine,
a Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, a principal agência de
pesquisa médica do governo norte-americano, analisou a estrutura cerebral de
“um grupo de 30 indivíduos de uma comunidade homogênea de cristãos de igrejas
pentecostais com extensa prática de glossolalia”, chegando à conclusão de que o
falar em línguas não é uma prática que envolve imitação ou simulação, e que
traz benefícios à mente. O estudo foi feito pelos cientistas Yoshija Walter, da
Unidade de Neurologia da Faculdade de Ciências e Medicina da Universidade de
Friburgo, na Suíça; Sebastian Dieguez, pesquisador do Laboratório de Ciências Cognitivas
e Neurológicas da mesma universidade; Michaël Mouthon, especialista em
neuroimagem da mesma instituição; e Lucas Spierer, neurocientista clínico e
professor da referida universidade.
Esse estudo revelou que o uso extensivo da glossolalia pelos
cristãos gera uma remodelação estrutural no cérebro, especificamente um aumento
de massa cinzenta no polo frontal esquerdo e no giro frontal médio direito, o
que significa, segundo os autores do estudo, que o falar em línguas ativa áreas
de controle executivo geral do cérebro, provando que o fenômeno envolve uma
especialização neurocognitiva real, não se tratando, portanto, de uma prática
de imitação ou farsa.
Segundo o estudo, o polo frontal esquerdo atua em funções
executivas complexas e no gerenciamento de múltiplas tarefas simultâneas. De acordo
com os autores, ao produzir uma sequência contínua de sons sem significado
semântico – os fonemas da glossolalia –, o cérebro bloqueia ativamente o
vocabulário e as palavras reais do idioma nativo da pessoa, e o benefício dessa
remodelação é o aprimoramento dessa capacidade de suprimir interferências e
focar em uma tarefa contínua. Os autores concluíram ainda que, no falar em
línguas, o cérebro opera em multitarefa: ele precisa gerar padrões rítmicos de fala
inéditos – geração esta que se dá, como sabemos, pelo impulso do Espírito Santo
(“...e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que
falassem”, Atos 2.4) – ao mesmo tempo em que gerencia a forte carga emocional e
o contexto ritual do ambiente. Logo, essa remodelação que ocorre durante o
falar em línguas expande a eficiência dessa região do cérebro para processar
cenários de alta demanda cognitiva e multitarefa.
Os autores do estudo também concluíram que a ideia popular de
que a glossolalia é um transe não é verdadeiro. O estudo indica que o ato flui
espontaneamente e que o aumento da massa cinzenta indica que a pessoa não está
fora de controle. A conclusão do estudo é que vivenciar com frequência o fenômeno
glossolálico atua como um treino intenso para as áreas de foco, controle de
impulsos e flexibilidade cognitiva.
Mais segurança emocional e capacidade de conexão social, e
redução de estresse
Além dessa pesquisa, outras duas reforçam os benefícios da glossolalia
para a saúde física e mental. Um estudo internacional sobre saúde mental e
hipermentalização publicado em 2020 na revista Frontiers in Psychology comparou
pessoas que falam em línguas com indivíduos saudáveis e pacientes com
esquizofrenia. A pesquisa descobriu não somente que os praticantes de línguas
não apresentavam nenhum traço de psicopatologia, como, pelo contrário, eles
pontuaram muito mais alto em testes de empatia e reconhecimento de estados
mentais nos outros – o que é chamado de empatia cognitiva – do que os
indivíduos saudáveis. A conclusão do estudo é que a prática da glossolalia em ambientes
religiosos está associada a uma maior segurança emocional e capacidade de
conexão social.
Por fim, um estudo sobre biomarcadores de redução de
estresse cujas análises foram publicadas na ResearchGate neste ano investigaram
os níveis de cortisol (hormônio do estresse) na saliva de pentecostais para
descobrir o impacto biológico da prática. O resultado foi que embora haja um
pico de atividade física-emocional durante o momento em que os crentes
pentecostais falam em línguas, após a prática glossolálica, eles apresentam
níveis significativamente reduzidos de estresse no restante do dia e da semana,
com o estudo concluindo que a prática da glossolalia funciona como
biologicamente como um mecanismo de regulação de trauma e ansiedade.
Apenas um terço dos pentecostais falam em línguas toda
semana
Apesar dos enormes benefícios espirituais, físicos e mentais
do falar em línguas, estima-se que, infelizmente, apenas um terço dos pentecostais
praticam a glossolalia toda semana.
A primeira pesquisa a revelar isso se deu há 20 anos. Em
2006, o Pew Forum on Religion & Public Life, com o apoio da Fundação
Templeton, realizou pesquisas em 10 países com populações consideráveis de
pentecostais, na qual, dentre outros temas, o hábito de falar em línguas foi
pesquisado. Os países onde foram feitas as pesquisas foram Estados Unidos;
Brasil, Chile e Guatemala na América Latina; Quênia, Nigéria e África do Sul na
África; e Índia, Filipinas e Coreia do Sul na Ásia. Tanto crentes de igrejas pentecostais
clássicas, como a Assembleia de Deus, quanto crentes de igrejas neopentecostais
participaram das pesquisas. O resultado da pesquisa saiu no final de 2006, mas
ela foi plenamente divulgada em 2007. Em tempo: nela, o termo pentecostal é
usado para se referir aos pentecostais clássicos, que são aqueles que creem que
as línguas são evidência indispensável do recebimento do batismo no Espírito; e
carismático é utilizado no sentido de evangélicos que creem na
contemporaneidade de todos os dons espirituais, mas que não creem que as
línguas são evidência indispensável do recebimento do batismo no Espírito.
No que tange ao hábito de falar em línguas, o levantamento
apontou que, nos Estados Unidos, aproximadamente 33% dos pentecostais e 50% dos
carismáticos afirmam falar em línguas semanalmente ou com mais frequência, com
38% dos pentecostais nos EUA afirmando fazê-lo pelo menos uma vez por mês. Nos
demais países, o número dos pentecostais que afirmavam falar em línguas toda
semana ou com mais frequência variou de 29% a 53% dos pentecostais, e o número dos
pentecostais que afirmavam falar em línguas pelo menos uma vez por mês variou
entre 35% a 38%. No Brasil, 29% dos pentecostais afirmaram em 2007 falar em
línguas toda semana ou quase diariamente, enquanto apenas 8% dos carismáticos brasileiros
diziam fazer o mesmo. Na Guatemala, tanto pentecostais quanto carismáticos que
falavam em línguas frequentemente chegaram a 53%.
Um outro dado importante desse estudo é que, em 6 dos 10 países
pesquisados, mais de 40% dos pentecostais e carismáticos admitiram que nunca
haviam falado em línguas na vida. No Brasil, esse número chegou, naquele ano, a
exatos 50% dos pentecostais. Outro dado interessante é que, nos Estados Unidos,
cerca de metade dos pentecostais e neopentecostais (51%) dizia que os cultos
que frequentavam incluíam, com frequência, pessoas falando em línguas,
profetizando ou manifestando outros dons do Espírito. Enquanto isso, segundo revela
a pesquisa, os cultos com manifestação de dons espirituais eram muito mais
comuns na América Latina e na África, com a esmagadora maioria dos pentecostais
desses países relatando que seus cultos incluíam essas atividades sempre
(Brasil, Guatemala, África do Sul) ou frequentemente (Chile, Quênia e Nigéria).
Mas, há dados mais atuais, já que essa pesquisa foi de 20
anos atrás?
Em novembro de 2014, foi divulgada outra pesquisa do tipo feita
pelo Pew Research Center, mas só abrangendo a América Latina e abarcando não
apenas pentecostais e neopentecostais, mas todos os evangélicos. O resultado
foi que, na América Latina, o número dos evangélicos de forma geral que não
praticavam o falar em línguas ativamente em suas rotinas de oração variava, de
país para país, de 61% a 76%. No Brasil, 35% dos evangélicos brasileiros
afirmavam falar em línguas ativamente em suas rotinas de oração; no Panamá, 39%
(o maior índice da região); na Costa Rica, 27%; na Argentina, 26%; na Colômbia
e Honduras, 25%; e na Guatemala e Nicarágua, 24%.
Um último levantamento, feito pelo Scripture Analysis e
divulgado em seu site em 2025, diz ter chegado a duas conclusões sobre a questão
das línguas no pentecostalismo hoje: a primeira é que 62% dos pentecostais são
pentecostais clássicos, concordando que o falar em línguas é o indicador
primário e indispensável do recebimento do batismo no Espírito Santo, com os demais
38% sendo pentecostais não-clássicos (isto é, carismáticos, que creem que podem
ser batizados no Espírito sem necessariamente manifestar a glossolalia); e a
segunda é que 85% dos pentecostais e carismáticos afirmam ter recebido o
batismo no Espírito Santo.
Não temos mais pesquisas sobre o assunto, mas, de forma
geral, estima-se que 50% a 60% dos pentecostais e carismáticos no mundo falem
em línguas, mas com apenas um terço deles falando em línguas semanalmente ou
mais frequentemente ainda.
Cristãos que desprezam ou não valorizam o falar em línguas
estão, biblicamente, perdendo um recurso espiritual maravilhoso. Falar em línguas
não é um ato vazio ou meramente “místico”. É uma ferramenta espiritual ativa e
multifuncional, concedida por Deus para edificar e capacitar o cristão. Como
dissemos na introdução desse texto, a Bíblia afirma que as línguas são um rico recurso
para a edificação espiritual pessoal (1 Coríntios 14.4). Na oração, ela é um
canal de comunicação direta do nosso espírito com Deus e que processa uma
mensagem de oração perfeita, pois quem fala em línguas “não fala aos homens,
senão a Deus; porque ninguém o entende, e em espírito fala mistérios” (1 Coríntios
14.2); e porque quando o fiel está exaurido e confuso, sem saber como pedir algo
a Deus, as línguas entram em ação e “o mesmo Espírito intercede por nós com
gemidos inexprimíveis” (Romanos 8.26). O Espírito Santo assume a condução da
oração, impulsionando o nosso espírito em uma oração em que pedimos exatamente
o que está alinhado à vontade perfeita de Deus.
Há as línguas como evidência inicial do batismo no Espírito Santo
(Atos 10.45,46). O benefício prático desse batismo não é o falar em línguas em
si, mas o poder que vem logo em seguida para testemunhar, pregar o evangelho e
realizar a obra missionária com ousadia (Atos 1.8). Além disso, no ecossistema espiritual,
o falar em línguas abre a percepção espiritual do crente. Uma vez que o fiel
desenvolve o hábito de falar em línguas, ele se torna mais sensível para operar
em outros dons espirituais descritos na Bíblia (1 Coríntios 14.12,13).
Há também o dom de variedade de línguas, que serve à
comunidade, quando Deus usa alguém com uma mensagem profética em uma língua que
o falante desconhece, mas que é conhecida na Terra e se dirige à necessidade de
alguém na audiência que conhece aquela língua, um fenômeno chamado tecnicamente
de xenolalia. Há também o dom de interpretação de línguas, cuja interpretação
equivale à profecia (1 Coríntios 14.5), com a igreja recebendo uma mensagem
direta de consolo, exortação e edificação.
Além disso, quando os membros de uma igreja, em um momento
de oração coletiva, impulsionados pelo Espírito, oram juntos em línguas, este é
um sinal de que a igreja está viva, unida na mesma fé e sob a mesma atmosfera
espiritual que os apóstolos experimentaram no Dia de Pentecostes (Atos 2.1-4).
Portanto, que a dádiva das línguas seja, pela ação do Espírito que a concede e a
busca frequente do que usufrui dela, uma realidade na nossa vida de oração
diária e na nossa vida cristã em comunidade.
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