A formação do Cânon do Antigo Testamento

A formação do Cânon do Antigo Testamento


O tratamento dado ao Antigo Testamento por Jesus e pelos apóstolos e o problema dos livros apócrifos

O Antigo Testamento era a Bíblia usada tanto por Jesus como pelos apóstolos e já era considerada como Escritura pela Igreja Primitiva. Nota-se que até aquele momento nenhum livro do Novo Testamento ainda tinha sido escrito, assim a Igreja Primitiva dependia do Antigo Testamento para regulamentar suas liturgias e fundamentar suas pregações. É possível perceber como o Cristianismo situado entre Atos 1 e 10 tinha na sua liturgia elementos do judaísmo. Sempre que Jesus e os demais escritores do Novo Testamento faziam menção às Escrituras, eles estavam se referindo ao Antigo Testamento.

 Nós encontramos no Novo Testamento aproximadamente 294 citações diretas do Antigo Testamento. Quando falamos em citação direta, referimo-nos àquelas citações precedidas pelas fórmulas semelhantes à expressão “conforme foi escrito”. Isso implica dizer que a cada 20 versículos temos uma citação do Antigo Testamento no Novo Testamento. Além dessas citações diretas, temos diversas alusões a textos do Antigo Testamento. Essas citações e alusões confirmam o quanto o Cristianismo do primeiro século estava fundamentado e enraizado no Antigo Testamento. Paulo fez uso de aproximadamente 100 citações do Antigo Testamento, na grande maioria das vezes usando o texto da Septuaginta (LXX).

Durante a tentação sofrida no deserto, Jesus usou três vezes o livro de Deuteronômio. Isso mostra-nos como Jesus usava o Antigo Testamento. Esse quadro de Mateus 4.1-11 nos revela também como a Palavra de Deus é eficaz durante períodos de tentações/provações. Há muitos estudiosos que discorrem sobre a formação e estrutura do Cânon do Antigo Testamento, mas fato é que o modelo estrutural do Cânon veterotestamentário vem do próprio Senhor Jesus. Jesus disse aos Seus discípulos após ressuscitado: “São essas as palavras que vos disse estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas, e nos Salmos" (Lucas 24.44). Além de Jesus reafirmar o quanto as Escrituras apontam para o Messias, Ele apresenta como era constituída a divisão do Cânon do Antigo Testamento naquele período. Esse texto sugere uma visão tripartida do Antigo Testamento: Lei de Moisés, Profetas e Salmos. Isso será melhor especificado abaixo.

De acordo com F. F. Bruce, a Bíblia Hebraica possui tradicionalmente 24 livros, distribuídos na seguinte ordem: a primeira divisão é a Torah (Lei) e essa seção compreende os cinco livros de Moisés (Genesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio); a segunda divisão é denominada Nebiim (Profetas) e é importante destacar que a estrutura dessa seção é diferente daquela nas nossas Bíblias - ela é subdivida nos quatro profetas anteriores (Josué, Juízes, Samuel e Reis) e nos quatro profetas (ou grupos de profetas) posteriores (Isaías, Jeremias, Ezequiel e os doze profetas) -; e a terceira divisão é denominada ketubim (Escritos) e essa seção cobre 11 livros: Salmos, Provérbios, Jó, Cânticos dos Cânticos, Rute, Lamentações, Eclesiastes e Ester. Por fim aparece Daniel, Esdras-Neemias (um só livro) e Crônicas.

Note o leitor que a forma como o Antigo Testamento foi apresentado acima difere da forma como os mesmos livros estão distribuídos na nossa Bíblia. Observe que nesse modelo apresentado por Jesus são contabilizados 24 livros, com, por exemplo, todos os 12 livros dos profetas menores sendo agrupados como um só livro ao invés de distribuídos separadamente. Todavia, esses 24 livros cobrem exatamente todo o conteúdo dos 39 livros do Antigo Testamento das nossas Bíblias. Deve-se levar em consideração que naquele período ainda não havia divisões em capítulos e versículos. O que muda é apenas a estrutura em que os livros são apresentados. Por exemplo: na Bíblia em português, o livro de Rute aparece entre Juízes e 1 Samuel. É correto afirmar que isso é compatível com a cronologia, uma vez que o período de Rute se adequa melhor entre Juízes e 1 Samuel. Todavia, na “Bíblia Hebraica Stuttgartensia”, o livro de Rute segue o livro de Provérbios. A razão para explicar essa mudança de posição é que o livro de Provérbios encerra contando uma história em forma poética da “mulher virtuosa” e suas diversas características (Provérbios 31.10). O livro de Rute inicia após Provérbios narrando um exemplo de uma mulher virtuosa chamada Rute (Rute 3.11). As duas únicas vezes que a expressão “mulher virtuosa” aparece nas Escrituras encontra-se em Provérbios 31.10 e Rute 3.11. Olhando por esse ângulo, faz todo sentido. Rute é a personificação - ou melhor, o exemplo - da mulher virtuosa de Provérbios 31, e por essa razão o livro que conta sua história está localizado após Provérbios.

Essa perspectiva tripartida do Antigo Testamento pode trazer confusão para alguns, mas, conforme a citação de Jesus mencionada acima, era a forma de divisão do Cânon Hebraico.

A palavra “Cânon” é um termo grego que significa uma vara, especialmente uma vara reta, usada como régua. O termo também pode significar padrão. Como explica Bruce, quando falamos em "Cânon das Escrituras", estamos querendo dizer os livros dignos de serem incluídos entre os livros sagrados. No contexto cristão, podemos dizer que são os livros reconhecidos pela igreja como inspirados. A grande questão que tem sido motivo para discussões é: "Por que alguns livros são tidos como inspirados e outros não? Qual o critério de aceitação desses livros pela Igreja?".

Uma questão que precisamos levar em consideração antes de responder a essas indagações é definir qual a “hermenêutica” que vamos adotar na interpretação do Cânon das Escrituras. A hermenêutica é a mãe da exegese, da teologia bíblica e da teologia sistemática. A nossa hermenêutica afeta e regulamenta a compreensão das Escrituras. Uma hermenêutica que flerta com o método histórico-crítico vai influenciar diretamente o estudante das Escrituras a negar a genuinidade da datação e da autoria. Alguns críticos dessa escola interpretativa afirmam que o Pentateuco foi escrito por quatro autores num período de 1000 anos após Moisés. Essa cronologia se distancia completamente da interpretação histórica que afirma ser Moisés o autor do Pentateuco e que esses livros foram escritos durante a peregrinação no deserto, por volta de 1445 a 1405 a.C. Segundo Tenny, em tempos mais antigos, a maioria dos estudiosos da Bíblia acreditava na veracidade dos livros e aceitava seus ensinamentos sobrenaturais. Desde o surgimento do racionalismo e da introdução do mesmo nos seminários, tornou-se comum negar a fé e a Bíblia começou a ser questionada. Segundo Baker e Arnold, por volta do século XVIII, vemos a Bíblia e o Cristianismo sujeitos a “um exame e crítica vigorosos e sem precedentes” nas mãos dos deístas. Embora os deístas não fossem uniformes em sua abordagem da Bíblia, eles, via de regra, tentavam refinar as tradições bíblicas, filtrar o sobrenatural, o milagroso e o implausível, e deixar para trás a essência pura de uma fé racional. Assim, o estudo do Cânon das Escrituras, que deveria fortalecer a nossa fé e nos edificar, começou a ser atacado por teólogos liberais com o objetivo de tecer críticas na área de autoria, trazendo muita confusão e divisões entre cristãos.

 Para alguns adeptos da Alta Crítica, o objetivo em estudar o Cânon do Antigo Testamento é somente buscar lapsos históricos e geográficos. Para alguns desses grupos, pode haver uma revelação na Bíblia no que tange ao assunto da salvação, mas quando a Bíblia cita narrativas, datas, geografia e profecias, ela poderia conter deficiências. Os propagadores do método histórico-crítico dificilmente aceitam a história do Antigo Testamento como história, porque para eles essa história contém elementos demais que não são históricos. O grande perigo é que essa escola hermenêutica está mais próxima de nossas igrejas do que nós podemos imaginar. Em alguns casos, já estão nos púlpitos de muitas igrejas ou nas salas da Escola Dominical. Alguns professores de Escola Bíblica que infelizmente fizeram teologia em seminários não confessionais foram submetidos a esse doutrinamento pervertido e trazem para suas aulas debates conturbados e polêmicos. Esses professores provocam discussões e debates infundados em salas de EBD e os alunos saem mais confusos do que edificados. O pastor local precisa estar atento, principalmente quanto às escolas teológicas en que seus liderados ou obreiros estão estudando e quais têm sido os teólogos que os mesmos têm citado como referência.

Por outro lado, o estudioso conservador, que é aquele que caminha numa esteira oposta à hermenêutica crítica, sempre vai afirmar que o Antigo Testamento é aquilo que diz ser. O Pentateuco foi realmente escrito por Moisés durante a peregrinação no deserto; o relato de Adão e Eva são narrativas históricas e nunca devem ser interpretadas como alegoria/parábola. O livro de Jonas é histórico e nunca deve ser lido como uma alegoria. Os livros dos profetas foram todos escritos por aqueles nomes que os intitulam. Salmos foram escritos por Davi e outros salmistas dentro dos acontecimentos históricos em um tempo rigorosamente contemporâneo aos acontecimentos neles relatados. Assim sendo, todos os livros do Antigo Testamento já estavam concluídos por volta de 400 a.C.

O problema dos livros apócrifos

Diretamente relacionado ao Cânon do Antigo Testamento, estão os livros apócrifos. Esses livros não fazem parte dos livros oficiais da Bíblia que a Igreja Evangélica adota. Entretanto a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa reconhecem esses livros como sendo inspirados. Uma das perguntas com a qual sempre temos nos deparado quando damos aula na Escola Bíblica Dominical é quanto ao porquê da nossa Bíblia omitir alguns livros adotados pela Igreja Católica. Para entender melhor isso, precisamos conhecer uma pouco da história da Septuaginta.

A Septuaginta é a tradução do Antigo Testamento do hebraico para o idioma grego, pois essa era a língua usual naquele período. A origem da Septuaginta nos remete aproximadamente ao ano 250 a.C. Muitos judeus de fala grega imigraram naquele período para Alexandria, uma cidade localizada no Egito. Alexandria, foi uma cidade fundada por Alexandre, o Grande, e que se tornou, depois de Atenas, o berço da cultura e da filosofia. Muitos desses judeus (helenistas), adotaram não só o idioma, mas a cultura grega. Segundo Bruce, os judeus que residiam em Alexandria desistiram de usar a língua que seus ancestrais haviam falado na Palestina e passaram a falar somente o grego. Para eles, isso significaria serem privados do uso da Bíblia em hebraico e das tradicionais orações, caso o Antigo Testamento não fosse traduzido para o grego. Segundo alguns estudiosos, foram enviados para Alexandria 70 a 72 anciãos para traduzir o Antigo Testamento do hebraico para o grego. Eles traduziram o Pentateuco em aproximadamente 72 dias. Outros tradutores posteriormente completaram a tradução de todo o Antigo Testamento.

A grande questão é que os cristãos do mundo helênico, ao adotarem a tradução do Antigo Testamento do hebraico para o grego, incluíram nessa versão grega outros escritos que segundo eles teriam um status escriturístico. Esses livros adotados foram escritos naquele período que por nós é conhecido como “Período Interbíblico”. Por outro lado, o Cânon Palestino limitava-se aos 24 livros do Antigo Testamento que correspondem aos nossos 39: os livros da Lei e dos Profetas, e os Escritos. Podemos perceber que as referências que citam Jesus usando as Escrituras na sinagoga (Lucas 4.17-19) referem-se não à Septuaginta, mas ao Cânon Palestino, que é a Bíblia Hebraica. Já Paulo quando faz citações do Antigo Testamento no Novo, geralmente usa a Septuaginta.

Alguém pode ainda questionar o porquê de Paulo usar a Septuaginta, se ali tinha acréscimo de livros. Embora seja verdade que Paulo usava diversas vezes a Septuaginta, nota-se que ele somente usava os livros que estavam no Cânon Palestino. Não há uma menção sequer de Paulo usando algum livro ou parte de um texto além dos da Bíblia hebraica. Todavia, o fato dos apóstolos, especialmente Paulo, usarem a Septuaginta serviu de base para a Igreja Católica Romana dizer que o Novo Testamento deveria seguir o Cânon Alexandrino e não fazer como os judeus que seguiam o Cânon Palestino. Assim sendo, temos dois cânones do Antigo Testamento: o Cânon Alexandrino, que contém os livros apócrifos; e o Cânon Palestino, que segue à risca a Bíblia Hebraica. A grande maioria dos Pais da Igreja reconhecia como livros inspirados somente os livros da Bíblia Hebraica. Após um período, a língua grega caiu em desuso e foi necessário traduzir as Escrituras para o latim, pois essa era a íngua usual do povo. No final do século IV, Jerônimo fez essa tradução e, por pressão da igreja romana, os livros apócrifos também foram inseridos na versão latina. A Vulgata tornou-se a base para a Bíblia católica romana.

Durante a minha caminhada pastoral e acadêmica, um dos temas que mais aprecio nos meus estudos é a formação do Cânon do Antigo e do Novo Testamentos. Estudar esse assunto nos faz contemplar a grandeza do nosso Deus na preservação dos escritos sagrados ao longo dos séculos. Estudar o Cânon do Antigo Testamento é ver que por detrás de cada palavra está a vontade de Deus para Seu povo. Quando estudamos a formação desse Cânon, nossa fé é aumentada e edificada, pois a única razão de esse texto chegar até nós é por que Deus assim planejou. Somos gratos à fidelidade dos escribas (copistas) do mundo antigo. Esses homens copiaram manualmente o Antigo e o Novo Testamentos com todo cuidado e zelo, pois eles sabiam que estavam copiando a Palavra de Deus. Infelizmente, temos encontrado alguns irmãos que têm estudado a formação do Cânon com diversos pressupostos duvidosos. Posso comparar essas pessoas como os agitadores que Paulo cita em Gálatas 1.7. A intenção dos tais não é promover a glória de Deus e a edificação dos nossos irmãos, mas, sim, transtornar a Palavra de Deus. Nossa oração é que Deus nos dê discernimento para identificar essas pessoas e blindar nossos púlpitos. Precisamos pregar não apenas no Novo Testamento, mas também no Antigo Testamento, e tomar cuidado para não nos assemelharmos ao herege Marcião, que rejeitava o ensino do Antigo Testamento. Marcião viveu no início do século II, criou o cânon marcionita, mas foi excomungado da igreja cristã.

Bibliografia

BAKER, David e ARNOLD, Bill. Faces do Antigo Testamento. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.

BRUCE, F. O Canon das Escrituras. 1 ed. São Paulo: Hagnos, 2011.

TENNY, Merril. Enciclopédia da Bíblia. 1ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2008.

por Cidrac Ferreira Fontes

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