A formação do Cânon no Novo Testamento

A formação do Cânon no Novo Testamento


O conceito de cânon e o critério usado pela Igreja para reconhecer o Cânon do Novo Testamento

Nós possuímos o Livro Sagrado denominado Bíblia, composto de dois compartimentos: o Velho e o Novo Testamentos. Denominamos ambos Testamentos de Escrituras Canônicas, isto é, foram soprados, inspirados por Deus, tendo, portanto, autoridade plena. Há duas definições precisas para a palavra “cânon”. A primeira segue a sua trivialidade com a originalidade grega, significando “vara de medir”, que era um instrumento tanto do pedreiro como também do alfaiate.

Sobre esse primeiro significado, encontramos no livro do profeta Ezequiel a expressão “cana de medir”, no hebraico em seu uso cotidiano qeneh hamiddah. Porém, fazendo uso de algumas passagens escriturísticas das epístolas paulinas, a palavra “cânon” irá ter uma acepção religiosa na qual não será vista como um instrumento de medir, mas apontará para uma norma, uma regra (Gálatas 6.16; 2Co 10.13,15). Note que em Gálatas 6.16 faz-se o uso da palavra “regra”, que no grego é o substantivo masculino kanon, que vem de kane, uma cana reta, isto é, uma vara.

Na definição do grego, três sentidos podem ser dados a essa palavra: 1) Vara ou pedaço de madeira roliça reta a qual algo era amarrado para mantê-lo reto, usado para vários propósitos; vara de medição, régua, linha de carpinteiro ou fita de medir, medida de um pulo, como nos jogos olímpicos. 2) Espaço fixo ou limitado que define e delimita a esfera de influência de alguém, a província designada a alguém, a esfera de atividade de alguém. 3) Metaforicamente fala de qualquer regra ou padrão, princípio ou lei de investigação, julgamento, vida, ação.

No geral, para nós cristãos que cremos na Bíblia como Palavra de Deus, ela é considerada nossa regra ou norma de fé e prática. Daí o uso do termo “cânon” para designar seus livros. É necessário que se faça uso da expressão “livros canônicos” para não os confundir com os livros apócrifos, os quais não foram inspirados. O louvor ao uso da expressão “canônico” aplicado aos livros das Sagradas Escrituras se deve a Orígenes (185-254 d.C.).

O leitor, ao deparar-se com as páginas seletivas do Novo Testamento, deve conscientizar-se que o esteio do seu conteúdo é a inspiração divina (2 Timóteo 3.16). Alinha-se a isso a veracidade de que, assim como os homens do Antigo Testamento foram inspirados por Deus para escrevê-lo, semelhantemente os do Novo também, o que conclusivamente é ratificado pelo apóstolo Pedro, ao dizer que homens santos falaram da parte de Deus movidos pelo Espírito Santo (2 Pedro 1.21).

A primeira coisa a ser feita quanto à questão do Cânon do Novo Testamento é a distinção entre a formação e a canonização. A primeira envolve a questão do tempo, que foi apenas 100 anos para sua formação; porém, quanto à segunda, em se tratando do reconhecimento de que somente tais livros eram de fato inspirados, calcula-se um período de aproximadamente 400 anos.

No ano 100, poucas décadas após a morte e a ressureição de nosso Senhor Jesus Cristo, todos os livros do Novo Testamento estavam concluídos, escritos. Há diversos questionamentos em relação ao tempo em que se demorou para que os tais fossem canonizados, reconhecidos como únicos inspirados. Compreendemos que essa demora não foi por descuido, desleixo, mas que envolvia uma análise precisa, meticulosa, criteriosa, escrupulosa, por parte da Igreja, no afã de que não pairasse qualquer dúvida quanto à inspiração de tais livros, mas que os mesmos eram dignos de confiança, visto que um trabalho com provas cabais foi bem feito.

Há que se destacar ainda que a razão da demora do reconhecimento ou da canonização dos livros do Novo Testamento como constam em nossas Bíblias, se deu pelo fato do surgimento de escritos heréticos, assimétricos, os quais surgiram paralelamente aos escritos neotestamentários; são os livros apócrifos, cujo conteúdo era heterogêneo. Esses livros espúrios arrogavam para si autoridade apostólica, o que de fato não tinham.

Ao se falar da formação do Cânon do Novo Testamento, o que se quer dizer é o seguinte: o conjunto de 27 livros do Novo Testamento que a igreja cristã reconhece como genuínos e inspirados. O cânon do Novo Testamento é igual para evangélicos e católicos. No princípio, alguns livros foram aceitos com certa reserva, mas, no final do quarto século, o cânon atual já era aceito em quase toda parte. Os livros que foram aceitos posteriormente são denominados de “antilegômena”, pois eles só foram inclusos e aceitos por todas (já eram antes pela maioria) as igrejas cristãs como fazendo parte do cânon no final do quinto século. São eles Hebreus, Tiago, 2 Pedro, Judas, 2 João, 3 João e Apocalipse.

Com relação ao Novo Testamento, como temos atualmente o aspecto cronológico, que vem do uso que se fez da Vulgata Latina, sabe-se que os primeiros escritos do Novo Testamento foram as cartas do apóstolo Paulo, que são em total de 13, que vão desde Romanos a Filemon. A data que se sugere varia entre 52 e 67 d. C. Caso se seguisse a ordem cronológica normal, o primeiro livro escrito seria a primeira carta de Paulo aos Tessalonicenses (52 d.C.), depois segue-se 2 Timóteo (67 d.C.), pouco antes do apóstolo Paulo sofrer seu martírio em Roma.

Importante ressaltar que esses livros são considerados como os primeiros a receberem a canonização, lembrando que o próprio apóstolo Pedro já considerava os escritos de Paulo como Escrituras, termo que era aplicado exclusivamente para a Palavra inspirada (2 Pedro 3.15,16).

É relevante atentar para as Cartas Paulinas (corpus paulinum), pois no processo do desenvolvimento canônico do Novo Testamento, como foi dito anteriormente, elas figuraram como os primeiros textos aceitos no nível de Escritura. No demais, elas eram lidas e aceitas pelas Igrejas no Mediterrâneo sem qualquer rejeição. O que caracterizava o culto público da Igreja Cristã do primeiro século era a leitura de textos paulinos em voz alta com suas explicações conforme se vê em 1 Timóteo 4.13. Por meio da passagem de 2 Pedro 3.15,16, vemos que as Cartas do apóstolo Paulo tinham circulação livre nas comunidades cristãs. A tudo isso denominamos evidências internas.

Em prosseguimento, vem o livro de Atos, o qual foi escrito pelo doutor Lucas (63.d.C.). Isso aconteceu já no final dos dois anos da primeira vez que Paulo foi preso em Roma (Atos 28.30). No tocante aos Evangelhos, a mensagem dos mesmos espalhou-se oralmente pelos rincões das terras da Palestina. Essa mensagem continuava viva na mente e no coração de cada seguidor de Cristo Jesus, de Suas testemunhas. Quando foi escrita, sem sobra de dúvida teve o supervisionamento e direção do Espírito Santo (João 14.26). Os primeiros foram os evangelhos sinóticos: Mateus, Marcos e Lucas. A data em que foram escritos está entre 60 e 65 d.C. A data em que foi escrito o Evangelho de João é provavelmente o ano 85. Importante levar em consideração que o apóstolo Paulo faz citação de Mateus 10.10 em sua primeira carta que ele escreveu a Timóteo (1 Timóteo 5.18). O intervalo que se tem entre os Evangelhos de Lucas e João é o tempo em que são escritas praticamente todas as Epístolas. No texto mencionado acima, de 1 Timóteo 5.18, o apóstolo Paulo denomina os Evangelhos de Mateus e Lucas de Escrituras, e faz isto firmado em Mateus 10.10 e Lucas 10.7.

Quanto a Hebreus e às demais Epístolas que vão até Judas, a data em que foram escritas é entre 68 e 90 d.C. O Apocalipse, escrito pelo apóstolo João, tem sua data apontada para 96 d.C. Anteriormente mencionamos que certos livros demoraram para serem aceitos como canônicos, tendo havido muitos debates em relação aos mesmos. Foi o que aconteceu com as Epístolas de 2 Pedro, 2 e 3 João, Judas e Apocalipse. Asseveramos que tudo isso evidenciava o cuidado e a responsabilidade que a Igreja tinha para que não fosse canonizado qualquer livro.

Em se tratando das evidências externas, pelas palavras de Justino Mártir (100-165), as reuniões semanais dos cristãos eram realizadas aos domingos. Reuniam-se os cristãos das cidades e dos campos. Durante o tempo em que estavam juntos, se fazia a leitura das memórias dos apóstolos ou dos escritos proféticos. No término da leitura, havia, da parte daquele que dirigia a reunião, um apelo para se imitar os belos exemplos dos santos. No tocante à expressão “memórias dos apóstolos”, ela se refere especificamente aos Evangelhos, mas durante esse culto se fazia também a leitura dos Profetas, em uma referência ao Antigo Testamento.

No que tange à questão da autoria dos Evangelhos, afirma-se que uns foram escritos pelos apóstolos, assim Mateus e João foram escritos pelos apóstolos de Cristo, ao passo que Marcos e Lucas foram escritos pelos sucessores de Pedro e Paulo. Papias (70-163) os nominará. É claro que seus escritos originais não chegaram ao nosso tempo, mas na sua obra Exposição dos Ditos do Senhor (130-140) observa-se que ele diz que foi intérprete de Pedro e que escreveu cuidadosamente as palavras do Senhor.

Uma compreensão ainda bem detalhada em relação aos Evangelhos pode ser vista nos escritos de Irineu de Lião, na obra Contra as Heresias, que foi citado por Eusébio de Cesaréia, quando o mesmo faz menção aos Evangelhos com seus autores. Ele afirma que Mateus publicou entre os hebreus em sua própria língua um Evangelho escrito, depois da morte de Pedro e Paulo; e Marcos, o qual era discípulo e intérprete de Pedro, transmitiu por escrito o que Pedro pregava e ensinava. Lucas, companheiro de Paulo, deixou num livro o Evangelho pregado por este último; e João, o discípulo que reclinou sobre o peito do Senhor (João 13.25), publicou também ele um Evangelho, enquanto residia em Éfeso, na Ásia.

Ainda que se queira criar debates sobre algumas informações de Justino, Papias e Irineu em relação aos Evangelhos, o que se pode dizer é que os Evangelhos eram lidos, aceitos, copiados e transmitidos pelas comunidades cristãs da época para o mundo inteiro, desde o século I da Era Cristã. Assim, podemos dizer que, pelas evidencias internas e externas, já no século II os Evangelhos e algumas Cartas do apóstolo Paulo tinham o mesmo status que as Escrituras judaicas gozavam nas comunidades cristãs, sendo lidos e explicados para o deleite de cada um. Isso é maravilhoso porque nos remete à compreensão de que o primeiro estágio para a formação do Cânon do Novo Testamento aconteceu pela aceitação dos textos vindos de dentro da própria comunidade, quando se fazia uso dos textos em seus aspectos didáticos e litúrgicos.

Historicamente, sabe-se que, antes do ano 400 d.C., praticamente todos os livros do Novo Testamento já eram aceitos. A partir do ano 367, Atanásio, patriarca de Alexandria, faz a publicação dos 27 livros canônicos do Novo Testamento conforme aparecem hoje em nossas Bíblias. Em 393, o Concílio de Hipona ratifica a lista apresentada. Um detalhe muito interessante é que no Novo Testamento se faz menção de certos livros que estão desaparecidos, mas que foram escritos. As ditas passagens bíblicas que aludem a isso são 1 Coríntios 5.9, Colossenses 4.16 e Atos 20.35.

É no III Concílio de Cartago (397 d.C.) que será reconhecido por definitivo como canônicos os 27 livros do Novo Testamento. Esse acontecimento foi por demais relevante, pois o conteúdo da Nova Aliança precisava sair de sua oralidade para a forma escrita, como seu deu com a Antiga Aliança. Destarte, a Nova Aliança comprovava o que dizia a Antiga.

Tanto nosso Senhor Jesus Cristo como os Seus apóstolos pregaram a mensagem divina. A base para isso foi o Antigo Testamento, o qual apontava para nosso divino Mestre, mas até então não havia nada escrito do que eles pregavam. Assim, o grupo de apóstolos estava reduzindo, o Evangelho já espalhado por diversas cidades e regiões, de maneira que se notou que era imprescindível que se tivesse em escrito essa maravilhosa mensagem para que as novas gerações pudessem ser abençoadas com tais palavras.

As vidas que eram salvas pelo poder do Evangelho e as igrejas que iam se formando enfrentavam certos problemas, tinham algumas dúvidas, eram desafiadas por falsas doutrinas e problemas internos, conforme se vê obviamente em algumas das cartas de Paulo (1 Coríntios 1.11; 5.1; 7.1). Diante desse cenário, não restou mais dúvidas: era necessário que a revelação divina fosse escrita para responder a tais questões e respaldar ainda mais a fé dos novos conversos em Cristo Jesus. Nesse particular, o Espírito Santo, o mesmo que inspirou e guiou os autores do Velho Testamento (Romanos 3.21), iria inspirar os Seus servos para escrever o Novo Testamento (João 16.12,13).

Pode ser que alguns, por falta de fé e duvidas, queiram questionar a veracidade da canonicidade dos livros do Novo Testamento, mas, além das palavras internas que corroboram sua inspiração divina, existem abundantes testemunhos que fazem alusão a tais escritos como devidamente inspirados. Esses testemunhos vêm de pessoas que estiveram próximas dos apóstolos ou discípulos de Jesus Cristo.

A citação de diversos livros do Novo Testamento foi feita por cristãos primitivos, dentre eles podemos citar alguns. O primeiro foi Clemente de Roma, em sua Carta aos Coríntios (95 d.C.), em que faz menção a vários livros do Novo Testamento. Policarpo, em sua Carta aos Filipenses (110 d. C), mencionou algumas cartas de Paulo; Inácio (110), em seus muitos escritos, fez alusão a diversos livros do Novo Testamento. Justino, o Mártir (140 d.C.), cujo nascimento se deu no ano em que João faleceu, fez menção a muitos livros da Nova Aliança. Irineu (185-254 d.C.) não apenas chamou o Novo Testamento de Escrituras como fez citação da maioria deles. Por fim, o culto, intelectual e piedoso Orígenes (185-254 d. C), o qual era aplicado nos estudos das Sagradas Letras, também citou o Novo Testamento. Em todos esses casos, os 27 livros já estavam completos.

Não podemos duvidar da credibilidade e autoridade dos Livros do Novo Testamento. Há provas internas e externas para se crer. Além disso, havia parâmetros por meio dos quais se determinava a canonicidade de tais livros. O primeiro que podemos citar é a ortodoxia ou regula fidei, isto é, regra de fé. Nesse ponto, era exigido que nenhum escrito neotestamentário poderia apresentar dissonância doutrinária. O segundo ponto exigido era a apostolicidade. Depois de passar no primeiro teste, buscava-se saber se tal documento foi ou não escrito por um apóstolo, ou então por alguém diretamente ligado a ele, como no caso de Marcos e Lucas. Em terceiro lugar, a catolicidade, ou seja, saber se tal documento já era disseminado e lido por todas as igrejas da época. Nesse ponto, se levava em consideração a importância que tal documento tinha para as eclésias.

Diante do exposto, compreendemos que, no que diz respeito à canonização, a Igreja não decidiu qual livro era inspirado ou não, mas, sim, os reconheceu. Esse processo de reconhecimento, conforme supracitado, levou aproximadamente quatro séculos, não envolveu apenas a cúria romana, mas antes partiu das comunidades que já vinham usando esses livros nos seus cultos públicos, tendo-os como inspirados por Deus. Desse modo, a Igreja manifestou posicionamento favorável ao reconhecimento dos 27 livros do Novo Testamento.

Portanto, é compreensível que os dois Testamentos - o primeiro, a Bíblia Hebraica, e o segundo, o Novo Testamento - são constituídos de documentos que as próprias comunidades de judeus e cristãos consideravam respectivamente como autoritativos e faziam uso dos mesmos, e não partiu de um grupo as decisões para sua autoridade e aceitação. Não aceitamos a posição católica. Sabemos que o magistério interpretativo surge depois dos textos e que a comunidade já aceitava esses livros. As palavras de Stephen Dempster são muito oportunas aqui: “A Igreja nasceu com a Bíblia em suas mãos”.

por Osiel Gomes

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