Igrejas vencem o preconceito e investem na valorização e integração de surdos
Desde que em 1857, quando com o apoio de Dom Pedro II, o francês Hernest Huet fundou uma escola para surdos, a crença na incapacidade intelectual deste segmento tem mudado. Instituições como o Ines (Instituto Nacional de Educação de Surdos) e a Feneis (Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos) ampliam o mercado de trabalho e a consciência das potencialidades. Mas nas igrejas poucos conhecem a problemática do deficiente auditivo. Desconhecem suas carências e acabam por confiná-lo a uma vida de exclusão, iniciada muitas vezes na ignorância de sua própria famÃlia. Se por um lado algumas igrejas excluem o surdo do “ide” de Jesus, outras lembram que ele também é criatura, logo inserida no contexto da Grande Comissão. Ensinador Cristão ouviu experiências bem sucedidas de professores abnegados que, ensinando a Palavra, foram além e promoveram a integração social negada ao surdo na vida secular.
É comum confundir surdo com doente mental. Em alguns
recenseamentos eles sequer foram contados, ocultados pela famÃlia descrente em
sua capacidade, por acharem que o surdo já nasce incapaz de desenvolver
raciocÃnio, ou por não terem recursos para matriculá-lo em escola especial. O
fato é que muitos pais negligenciam a educação de seus filhos deficientes
auditivos. Assim, só mais tarde começam a estudar e, como aconteceria com
qualquer ouvinte, o desenvolvimento torna-se lento, uma vez que passou grande
parte de sua vida sem poder comunicar-se satisfatoriamente.
Sinais padronizados
Geralmente, o surdo desenvolve uma linguagem conhecida
apenas no âmbito familiar, o que lhe impede de ler jornais e “falar”
com os demais surdos. É uma linguagem aleatória e sem padronização. Mas nem
tudo está perdido. A Libras (LÃngua Brasileira de Sinais) permite que surdos de
todo o paÃs se entendam, a despeito dos regionalismos. Nas poucas igrejas em
que há atividades com surdos, essa lÃngua é ensinada tanto para eles como para
os demais membros, os chamados ouvintes. Na Escola Dominical, o método ganha
mais importância quando, aliado a outras formas de ensino, integra o surdo.
Adriana Romão, lÃder do Ministério Missão Mãos que Falam, da
Assembleia de Deus em Lençóis Paulista (SP), destaca o trabalho e seu papel de
integração. “Procuramos aprender os sinais usados em cada famÃlia.
Depois reunimos todos e ensinamos o alfabeto de Libras, que passa a limitar o
uso da lÃngua inventada. Além disso, há um projeto que visa ensinar a linguagem
padrão também para as famÃlias”.
A igreja dispõe de três classes de Escola Dominical para
adultos, crianças e terceira idade, com 15 professores. No ensino são
utilizadas as revistas de Lições BÃblicas, BÃblia, histórias para recortar,
flanelógrafo e vÃdeo onde são exibidas mensagens bÃblicas interpretadas por um
tradutor. Os professores fazem exercÃcios no caderno para os alunos responderem
e adiantam a leitura da lição da semana seguinte traduzindo os textos para a
linguagem de sinais. Mas o trabalho é ainda mais arrojado. “Além de
espiritual, atuamos também na área social. Procuramos emprego para eles, os
encaminhamos a médicos e dentistas e doamos cestas básicas”, conta
Adriana.
Feliz com Jesus
A lÃngua do surdo é peculiar. Por isso, Adriana sustenta que
o ideal seria uma BÃblia não só em linguagem simples, mas da compreensão do
surdo. Mesmo sem se expressar como um ouvinte, o surdo tem sido multiplicador
das lições da Escola Dominical e um evangelista ardoroso.
Pastor Esequias Soares, da Assembleia de Deus em JundiaÃ
(SP), atesta. “É difÃcil um batismo em que não haja um candidato surdo”.
Os números falam por si. A classe, com faixa etária de 14 a 73 anos, pulou de
quatro surdos, em 1992, para os atuais 20.
Vera Sales, professora de surdos na Escola Dominical em
JundiaÃ, recebeu a chamada para o trabalho numa ação evangelÃstica com
crianças. Fez cursos especializados para atuar com o segmento e iniciou o
trabalho na igreja. Ela fala da diferença que Jesus faz na vida do surdo e das
dificuldades enfrentadas. “O resultado prático é o número cada vez maior
de surdos na igreja. Mas essa é uma terra árida. Hoje, você planta a semente.
No outro dia vem um surdo para arrancá-la”. Vera observa que os
deficientes auditivos não crentes tentam denegrir a imagem do pastor e chamam a
igreja de herética por mostrar alegria. “Quando o surdo se converte,
fica muito alegre e isso põe fim ao seu nervosismo. Eles sofrem uma mudança
radical. Os surdos não crentes acham isso um absurdo”, relata a
professora.
“Os surdos ouvirão”
Irmã Juraci interpretou para nós as impressões de seu filho
Jonas da Silva, também de JundiaÃ, sobre a Escola Dominical. Mas não sem antes
mostrar-se indignada pela rejeição sofrida pelo surdo. “Quando se fala
que é deficiente, os patrões já acham que vão ter problemas. Os empregadores
têm preconceito”, atesta.
Jonas, que está desempregado e deseja estudar informática,
exalta o proveito nos estudos na Escola Dominical. “Sábado durmo
preocupado em levantar cedo para ir à Escola. Tudo que aprendo é proveitoso,
mas quero também ensinar a outros surdos. Gosto das figuras e histórias. Leio a
BÃblia, mas não entendo tudo. Por isso, separo as palavras difÃceis para tirar
as dúvidas com a professora”. Para a surda Vera Alves, que pertence a
mesma igreja, a Escola Dominical “é um presente de Deus”. “Na
Escola, meus conhecimentos aumentaram e aos poucos vou conhecendo mais a
Palavra. Mas o melhor é poder transmiti-la a outros surdos”. Vera se
alegra ao contar que já ganhou 14 deles para Cristo, além de um ouvinte, que
estava receoso em tomar uma decisão pública. “Eu disse: Vai, Jesus é
bom. Ele foi e está firme na igreja”.
A mãe dela, irmã Neusa, que nos serviu de intérprete, conta
que Vera tem um caderno onde faz colagens de figuras bÃblicas junto a textos da
Palavra que pesquisa. “Com este caderno ela evangeliza os surdos”.
Mundo de emoções
Como o nÃvel de aprendizado entre os surdos varia muito de
um para outro, os professores, após ensinar, utilizam recursos, como encenações
improvisadas, para que o aluno lhes conte o que entendeu. Esse é um dos métodos
que mais atrai o surdo Rogério Martins, da Assembleia de Deus em Lençóis
Paulista. “Gosto muito dos ensaios bÃblicos e de participar do coral.
Não perco nenhuma aula.”
A mãe de Rogério, dona Gilda, lembra que ele era muito
nervoso e doente antes de se converter. Depois que conheceu Jesus, foi
completamente transformado e curado.
Sandra Borba, professora e psicóloga na Assembleia de Deus
em JundiaÃ, revela o mundo de emoções que envolve o surdo. “Eles são
muito carentes. Temos que dar atenção a todos, sem privilegiar ninguém, pois
sentem ciúmes entre si. Um abraço que se dê em um pode criar no outro a
convicção de que foi rejeitado”. De acordo com ela, os surdos também não
se consideram inteligentes. “Às vezes sabem a resposta a uma pergunta,
mas mandam outro responder. No entanto, são tão capazes quanto os ouvintes”,
analisa.
Os maiores problemas enfrentados pelos surdos são a rejeição
e a baixa estima. Por isso, a psicóloga trabalha a valorização deles. “Um
surdo dizia que não sabia fazer nada, mas mostramos a ele o dom que tem para
desenhar. A partir daÃ, passou a dedicar-se mais. Hoje faz o desenho da
camiseta do Louvor em Silêncio”. Para Sandra, mesmo aquele que não
estudou desde criança não é um caso perdido. Ela crê que a deficiência aguça
outras potencialidades.
Preconceito ou descaso?
Não há quem não se comova ao ver um coral de surdos louvando
com as mãos. Mesmo quando surgem cursos de Libras nas igrejas, a adesão é
maciça. Mas passada a euforia e a emoção, o que resta é uma indiferença quanto
a atividade com surdos. Essa é a opinião de Antônio Clemente, esposo de Milva
Mendes dos Santos, que iniciou um trabalho com surdos na Assembleia de Deus em
Goiânia (GO), mesmo morando a duas horas daquela igreja.
Hoje, congregando em São LuÃs de Montes Belos, no mesmo
Estado, Antônio diz de sua amizade e admiração para com os surdos: “Meus
melhores amigos são surdos. Queremos integrá-los à sociedade. Conheço um surdo
que, apesar de analfabeto, prega muito bem. Mas as igrejas muitas vezes deixam
de convidar um surdo para chamar um cantor. Não veem a importância da
simplicidade. Se existe o culto das senhoras, da mocidade, de missões, por que
não pode haver dos surdos? Gostaria que eles fossem vistos como pessoas normais”,
afirma convicto, ressaltando que “os surdos não são maltratados, mas as
pessoas preferem investir em trabalhos já estruturados”.
Quem concorda com Antônio é Rebeca Nemer, intérprete de um
programa evangélico de televisão e membro da Assembleia de Deus em MarÃlia
(SP). Ela desenvolve um trabalho de educação com crianças de 7 a 13 anos.
Preocupada com as necessidades gerais do surdo, o trabalho
concilia o espiritual e o social, com distribuição de cestas básicas, campanhas
de doação de roupas e de emprego. “Há profissões que o surdo não pode
exercer, como de telefonista e balconista. Mas eles são ótimos em informática,
nas indústrias e executando tarefas manuais. Não conseguem emprego por
preconceito. Os empresários evangélicos deveriam dar essa chance ao surdo”,
aconselha Rebeca, que ainda produz vÃdeo com clipes para surdos e ministra palestras
e cursos de Libras e evangelização com surdo.
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