Os antecedentes do pentecostalismo moderno

Os antecedentes do pentecostalismo moderno


O Movimento Holiness foi o principal berço do pentecostalismo moderno

Charles Fox Parham, com quem o pentecostalismo moderno se iniciou em 1901;
William Joseph Seymour, líder do Avivamento da Rua Azusa depois de 1906; e William Howard Durham, líder do movimento pentecostal de Chicago em 1910, são os fundadores do maior movimento espiritual dos tempos modernos. Como veremos, todos eles tiveram uma origem histórica e teológica no Movimento Holiness, conhecido também como Movimento de Santidade, e exerceram forte influência na doutrina pentecostal.

A trajetória do batismo no Espírito Santo e a glossolalia

Quando o movimento de Montano foi desfeito pela liderança eclesiástica por volta do ano 200, o cessacionismo se acentuou e se expandiu. João Crisóstomo (354-407), patriarca de Constantinopla, no seu comentário sobre 1 Coríntios 12.1,2, escreveu que os dons espirituais como a glossolalia se tornaram tão raros com o tempo “que as igrejas acabaram esquecendo a função deles na comunidade cristã”. No entanto, o batismo no Espírito Santo e a manifestação das línguas nunca se extinguiram totalmente da igreja. Isso é visto nos registros dos testemunhos antigos, que mostram também a presença de cura divina.

Muitos estudos já foram publicados sobre o batismo no Espírito Santo e a glossolalia, as profecias e as curas divinas ao longo dos séculos. Eddie Hyatt, em seu livro 2000 anos de Cristianismo Carismático, apresenta uma lista de testemunhos dessas manifestações do Espírito desde a patrística, como em Irineu de Lião, Tertuliano, Orígenes, Novaciano, Cipriano, Ambrósio e Agostinho de Hipona; e na Idade Média, como em Bernardo de Claraval e Francisco de Assis, dentre outros. A de­finição, o signi­ficado e a função de tais experiências foram aos poucos se perdendo com o tempo pelo pouco uso depois do período apostólico, como disse Burgess ao mostrar precedentes históricos do vínculo do batismo no Espírito Santo com o falar em línguas, tal qual ensina o pentecostalismo moderno: “Reconhecidamente, a ênfase nas línguas é um tanto rara, mas as línguas de fato existiram antes em vários contextos cristãos”. O tema do batismo no Espírito Santo e a glossolalia não evoluiu em Lutero e Calvino. James Smith, em seu livro, Pensando em línguas, diz que os reformadores do século 16 foram seduzidos pelo cessacionismo da Idade Média.

O Movimento Holiness

O Movimento Holiness ou de Santidade foi uma tentativa de retomar o fervor espiritual do século anterior e recuperar a segunda obra da graça na vida cristã. O movimento se iniciou na Igreja Metodista e logo se espalhou em quase todas as denominações nos Estados Unidos. A segunda obra da graça recebeu diferentes signifi­cados e diferentes nomes. Foi na tradição wesleyana que surgiu o Movimento de Santidade, termo usado para identi­ficar crentes, denominações e outras instituições religiosas que enfatizam a distinção da segunda bênção, ou seja, a experiência da santi­ficação subsequente à regeneração por meio da qual o cristão se torna cheio do Espírito Santo e que surgiu na década de 1830, nas igrejas metodistas e calvinistas. Para compreender como isso aconteceu, é necessário começar com João Wesley (1703-1791), pastor anglicano e fundador do movimento metodista, cujo avivamento se espalhou pela Inglaterra e Estados Unidos.

Um dos pontos distintivos da teologia de Wesley era a doutrina da “perfeição cristã”, uma referência à santidade, à santi­ficação como uma experiência subsequente à regeneração por meio da qual o cristão se torna cheio do Espírito Santo, também chamada “segunda bênção” como segunda obra da graça. O Movimento de Santidade surgiu em 1830 dentro do metodismo e a ideia era a busca de uma vida cristã mais profunda que exerceu influência em quase todas as denominações dos Estados Unidos. Phoebe Palmer (1807-1874) e Charles Finney (1792-1875) foram os primeiros líderes do movimento, que serviu posteriormente como catalisador do Movimento Pentecostal.

Phoebe Palmer era uma metodista leiga sem ordenação eclesiástica, casada com um médico e começou com as mulheres a se reunir em sua casa para oração em 1835, em encontros semanais, nas terças-feiras, para promover a santidade. Essas reuniões foram se multiplicando nos lares por diversas regiões dos Estados Unidos. A princípio, eram voltadas para mulheres, mas os homens tiveram participação a partir de 1839. Segundo Donald Dayton, esses encontros se tornaram “um centro de renovação da doutrina wesleyana da Perfeição Cristã, chegando a envolver até mesmo bispos e líderes da Igreja Metodista Episcopal, e estendendo influência muito além dos limites denominacionais”. Ela conduziu esses trabalhos durante sessenta anos e se tornou “numa expressiva liderança do Avivamento de Santidade”. Seus ensinos foram veiculados durante 10 anos na revista The Guide to Holiness (“O Guia para a Santidade”), entre 1864-1874, o mais influente periódico do Movimento de Santidade daquela época.

Na mesma época, surgiu outra liderança importante, Charles Finney, conhecido como “pai do reavivalismo moderno”. Ele se converteu ao Senhor Jesus em 1821, quando também recebeu o batismo no Espírito Santo. Finney foi ordenado na igreja presbiteriana em Nova Iorque em 1823, mas em 1935 se transferiu para o estado de Ohio, onde assumiu a cadeira de professor de Teologia Sistemática na recém-criada Faculdade de Teologia em Oberlin, na Oberlin College. Finney, juntamente com o presidente (reitor) da instituição, Asa Mahan, deu origem à chamada Teologia de Oberlin, segundo a qual a segunda bênção é o batismo no Espírito Santo, que serviu como concessão de poder do alto para o serviço cristão mais efi­caz que a purifi­cação. Era o prenúncio dos futuros movimentos pentecostais. Finney foi presidente do Oberlin College entre 1851 e 1866.

Os conferencistas de Keswick eram os mestres do Movimento de Santidade. O Movimento de Keswick é chamado também de Movimento de Vida Superior, pois eles entendiam que o batismo no Espírito Santo resultava numa vida de vitória contínua, que eles chamavam de “vida superior”, ou seja, mais profunda ou mais sublime, caracterizada pela plenitude do Espírito. Essas conferências começaram em 1874 em Keswick, Inglaterra. Adoniran J. Gordon, Dwight L. Moody, Reuben A. Torrey e Albert B. Simpson se destacaram nesse movimento e os primeiros pentecostais se abeberaram na teologia deles.

Os precursores do pentecostalismo moderno

A expressão batizar ou ser batizado no Espírito Santo e fraseologia similar aparecem sete vezes no Novo Testamento, nos quatro evangelhos no primeiro pronunciamento de João Batista, também em Atos 1.4 e 11.16, e em 1 Coríntios 12.13. Ela é de uso comum na linguagem de teólogos e leigos, pentecostais e não pentecostais desde a antiguidade. Mas, que essa expressão signifi­ca? A compreensão que os pentecostais têm hoje foi construída durante a segunda metade do século 19 até o Avivamento da Rua Azusa. John Fletcher, conselheiro de confi­ança de Wesley, foi o primeiro a chamar essa segunda obra da graça
de “batismo no Espírito Santo”, referindo-se a ela como uma experiência de purificação, segundo Synan. Phoebe Palmer seguia nessa mesma linha e com ela muita gente, como E. P. Ellyson, da Igreja do Nazareno, e Russell R. Byrun, da Igreja de Deus, de Anderson. Para Phoebe, “pureza e poder” eram idênticos.

A. J. Gordon (1836-1895), pastor da Igreja Batista em Boston, no estado de Massachussets, e fundador do Gordon College, ensinava o dom do batismo no Espírito Santo como uma “subsequente operação; é uma bênção adicional e separada”. A­rma em seu livro The Ministry of the Spirit (“O Ministério do Espírito”), publicado em 1894, que o propósito desse batismo é a “nossa quali­ficação para o mais alto e efetivo serviço na Igreja de Cristo”. Dwight L. Moody (1837-1899) pregou para mais de um milhão de pessoas, fundou uma igreja em Chicago e inaugurou três escolas. O batismo no Espírito Santo, segundo Moody, era uma experiência posterior à regeneração, o mesmo pensamento de A. J. Gordon.

Reuben A. Torrey (1856-1928) é outro nome importante para o pentecostalismo moderno, companheiro e herdeiro espiritual de Dwight L. Moody, nomeado por ele diretor do seu Instituto Bíblico. Reuben popularizou, por meio do Instituto Bíblico, o ensino da segunda bênção distinta da salvação. Ele publicou em seu livro, O batismo com o Espírito Santo: o que é, o que faz e como obtê-lo, que foi publicado no Brasil em 1975, que o batismo no Espírito Santo “é uma operação do Espírito Santo, separada e distinta de Sua obra regeneradora. Ser regenerado pelo Espírito Santo é uma coisa, e ser batizado com o Espírito Santo é algo totalmente diferente, é uma outra coisa”. Essas obras exerceram grande influência na formação do pentecostalismo moderno.

O que havia em comum entre Gordon, Moody e Reuben era que todos eles ensinaram ser o batismo no Espírito Santo uma experiência distinta da salvação e a sua função, a concessão de poder para o serviço cristão. Se bem que Gordon nunca perdeu de vista a função santi­ficadora do Movimento de Santidade. Nenhum deles defendeu a glossolalia, antes Reuben criticou abertamente o movimento da Rua Azusa.

A contribuição de A. B. Simpson (1843-1919) foi mais completa e a sua teologia teve mais destaque no Avivamento da Rua Azusa. Ele foi ordenado pela Igreja Presbiteriana em Toronto, Canadá, em 1865, mas se transferiu para os Estados Unidos e assumiu o pastorado da Igreja em Louisville, Kentucky, entre 1874 e 1879, quando recebeu o batismo no Espírito Santo logo no primeiro ano do seu pastorado. Além de defender a experiência subsequente à salvação, não foi cessacionista no que diz respeito à glossolalia, como bem escreveu Stanley Burgess, explicando que todos eles, com exceção de A. B. Simpson, “ensinaram que as línguas haviam cessado”. Segundo Simpson, as línguas poderiam ser ininteligíveis ou reais, ou seja, conhecidas ou desconhecidas, mas não tinham a função de evangelizar as nações pagãs. Simpson considerava a glossolalia um dom entre os demais e, segundo ele, a atitude a ser adotada pelos pastores deveria ser “não busquem, não proíbam”.

O pentecostalismo moderno

Segundo historiadores e pesquisadores do Movimento Pentecostal e carismático, o pentecostalismo moderno se iniciou em 1”. de janeiro de 1901 na Escola Bíblica Bethel de Topeka, em Kansas, sob a liderança de Charles Fox Parham, um metodista itinerante convertido ao Movimento de Santidade e pregador de curas pela fé. Foi na vigília de ano novo que Agnes N. Ozman, uma aluna de Parham, foi batizada no Espírito Santo e falou línguas por três dias. Depois, outros alunos receberam a mesma experiência e em seguida o próprio Parham.

Um discípulo de Parham, William J. Seymour, foi quem liderou o movimento da Rua Azusa. Synan o descreve como “um negro baixinho e robusto, cego de um olho e agraciado com um espírito manso e humilde”. Depois de sua conversão, ele se juntou ao Movimento de Santidade, e em 1905 se transferiu para Houston, no Texas, quando se juntou a uma pequena igreja formada por negros do Movimento de Santidade.

Parham, porém, não foi bem-sucedido nos quatro anos que se seguiram à experiência de 1” de janeiro de 1901. Em 1905, ele transferiu seu ministério para Houston, Texas, onde começou a dar aulas de treinamento bíblico. A escola contava com 34 alunos e Seymour era um deles. Nessa ocasião, Seymour recebeu um convite para pastorear um grupo holiness. O convite veio por meio de uma irmã que ele conhecera em Houston. Seymour partiu com a bênção e o apoio financeiro de Parham, disposto a espalhar a doutrina pentecostal, embora ele mesmo ainda não fosse batizado com o Espírito Santo. Foi assim que ele chegou em Los Angeles e, por causa de um derramamento do Espírito Santo num culto em 12 de abril de 1906, o próprio Seymour foi batizado e falou línguas. O local não mais comportava a multidão, por essa razão logo se transferiram para a Rua Azusa, e aí se iniciou a Missão de Fé Apostólica sob a liderança de Seymour, conhecido como o Avivamento da Rua Azusa. Os historiadores do movimento da Rua Azusa são unânimes em mencionar esse avivamento como o centro irradiador, do qual o avivamento se espalhou para outras cidades, estados e nações.

Durham esteve na Rua Azusa em 1907, quando foi batizado no Espírito Santo e falou línguas. Nessa ocasião, “Seymour profetizou que, onde quer que Durham
pregasse, o Espírito Santo seria derramado sobre as pessoas”. Não demorou para que a igreja liderada por Durham, em Chicago, se tornasse um centro de liderança do Movimento Pentecostal internacional. A doutrina da “obra consumada do Calvário”, ou seja, a teologia da “segunda bênção” que ele começou a ensinar em 1910, rompia com a teologia do Movimento de Santidade defendida por Parham e Seymour, a doutrina das três bênçãos: salvação, santifi­cação e batismo no Espírito Santo. Durham, no entanto, considerou salvação e santifi­cação como uma só bênção e o batismo no Espírito Santo a segunda bênção. Da escola de Chicago vieram ao Brasil Luigi Francescon, fundador da Congregação Cristã no Brasil; e Gunnar Vingren e Daniel Berg, fundadores da Assembleia de Deus no Brasil. Dessa mesma escola surgiu Aimée Semple McPherson, fundadora da Igreja do Evangelho Quadrangular nos Estados Unidos, dentre outros missionários.

É consenso entre pesquisadores e historiadores que “o pentecostalismo surgiu do Movimento da Santidade”. Synan registrou: “Não é exagero, portanto, dizer que o pentecostalismo do século XX, pelo menos nos Estados Unidos, nasceu em berço holiness”. Os principais líderes do pentecostalismo moderno vieram desse movimento ou tiveram alguma ligação com ele.

por Esequias Soares

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