Janeiro de 2026 marcou o término do processo de devolução de reféns, vivos ou mortos, a Israel, após os ataques de 7 de outubro de 2023. O último corpo a ser repatriado foi o de Ran Gvili, assassinado aos 24 anos, quando defendia o kibutz de Alumin. Mesmo estando de folga e em licença médica, o jovem soldado apresentou--se para somar forças contra o ataque terrorista que desolou a nação. Para o governo israelense, a devolução dos restos mortais, devidamente confirmados por peritos israelenses, confirma o compromisso do Estado de Israel em fornecer à s famÃlias enlutadas um pouco de conforto. Por parte das lideranças do Hamas, o ato assinala a expectativa do inÃcio da segunda fase do processo de paz, ainda que isso envolva a desmilitarização de Gaza, algo que não parece estimular as lideranças terroristas. Considerando a hipótese da desmilitarização, terÃamos o inÃcio de uma gestão administrativa da área, por parte de tecnocratas árabes, preferivelmente não ligados ao Hamas. O acordo segue seu curso, passo a passo, lembrando que, entre os ataques citados e a devolução do último refém transcorreram cerca de dois anos e meio.
As vidas ceifadas não poderão retornar e a dor deixada pelos
muitos corpos mutilados, violados, queimados, não será, senão por Deus, apagada
das memórias dos amigos, parentes e sobreviventes. A crueldade do ocorrido
assemelha-se a uma colheita, devastadora, sobre um campo fértil de sonhos,
futuros e possibilidades. Muitos eram jovens e crianças, e a menção do término
de sua existência deve evitar a contabilidade fria dos números, num
reconhecimento de que apenas uma vida perdida já seria causa e motivo para o luto
nacional.
O que pretendemos destacar, nessa modesta meditação, é que o
ocorrido teve seu desenrolar no Conselho Regional de Eshkol, região
administrativa de Israel, situada no Neguev, na região sudoeste em relação a
Jerusalém, tendo a Faixa de Gaza a oeste. A região inclui aldeias, kibutzim e outras
comunidades, além de vales com variadas plantações, devido à fertilidade de seu
solo. Há anos, agricultores locais sofrem com a presença de balões
incendiários, bombas, e vários outros projéteis que fogem, por vezes, Ã
vigilância do Domo de Ferro e atingem as plantações, num processo conhecido por
agroterrorismo. Os vales e os cursos de água ali presentes não podem, contudo,
ser desprezados pela economia israelense, que dali ainda retira suas uvas, seus
figos e suas romãs.
O termo ‘ainda’ não está aqui por acaso. O estudante da
BÃblia não ignora a riqueza dessas terras ancestrais. Leiamos Números 13.23-30
e teremos o relato da experiência dos espias enviados por Moisés, e a sua
surpresa diante da fartura da terra e da abundância de seus frutos. “Depois,
vieram até ao vale de Escol e dali cortaram um ramo de vide com um cacho de
uvas, o qual trouxeram dois homens sobre uma verga, como também romãs e figos.
Chamaram àquele lugar o vale de Escol, por causa do cacho que dali cortaram os filhos
de Israel. Depois, voltaram de espiar a terra, ao fim de quarenta dias. E
caminharam, e vieram a Moisés, e a Arão, e a toda a congregação dos filhos de Israel
no deserto de Parã, a Cades, e, tornando, deram-lhes conta a eles e a toda a
congregação; e mostraram-lhes o fruto da terra. E contaram-lhe e disseram: Fomos
à terra a que nos enviaste; e, verdadeiramente, mana leite e mel, e este é o
fruto. O povo, porém, que habita nessa terra é poderoso, e as cidades, fortes e
mui grandes; e também ali vimos os filhos de Anaque. Os amalequitas habitam na
terra do Sul; e os heteus, e os jebuseus, e os amorreus habitam na montanha; e
os cananeus habitam ao pé do mar e pela ribeira do Jordão. Então, Calebe fez
calar o povo perante Moisés e disse: Subamos animosamente e possuamo-la em
herança; porque, certamente, prevaleceremos contra ela”.
Foi necessária a força de dois guerreiros para que um cacho
de uvas fosse carregado. Aliás, a imagem de dois homens carregando o fruto da
vide está presente na vida da sociedade israelense, sendo o logotipo do
Ministério do Turismo de Israel. A imagem revela a razão do nome da localidade.
Eshkol significa ‘cacho de uva’, razão pela qual alguns prefiram a menção ao
Vale do Eshkol, em lugar de Vale de Eshkol. Fora o detalhe, o lugar sinalizou e
sinaliza, até o dia de hoje, a riqueza das promessas de Deus, na forma de vida e
fertilidade. Israel tem feito, ali, abundantes colheitas. Cremos que ainda
fará.
Uvas têm, na cultura hebraica, esse forte simbolismo ligado
à vida, à alegria e à comunhão. Num casamento, os noivos sorvem juntos a taça
da vide, na esperança de partilharem o dom da vida, bem como o conjunto dos bagos
de uvas esmagados remete à comunhão entre irmãos; de outra forma, também o ato
de pisar o lagar das uvas pode remeter à vitória contra os adversários, e a
presença rubra de seu sangue sobre a terra, fazendo as uvas espremidas ganharem
o sentido oposto, o sentido da morte.
Sem forçar coincidências, é impossÃvel ignorar a afronta de um
ataque como o daquele dia de outubro ter ocorrido ali, na região de Eshkol.
Provavelmente, os espias citados no texto de Números exploraram a região de
Hebron, notaram a presença dos filhos de Anaque, retornaram pelo Sul, e
colheram, para testemunho, o enorme cacho de uvas de difÃcil transporte. Assim, no lugar simbólico da promessa de vida
na terra concedida por Deus, vidas foram colhidas, sangue foi derramado, um
lagar foi, indevidamente, pisado. Filhos de Israel caÃram de súbito, independentemente
de suas crenças ou comportamentos, pois a causa de suas mortes foi o fato de
serem judeus, descendentes de Abraão, filhos da promessa.
Findo, portanto, o processo de devolução dos corpos, fechada
uma das importantes etapas da negociação, ficará em Israel o testemunho das
uvas pisadas, do pranto derramado no solo de Eshkol. “Consolai, consolai o meu
povo” é a ordem que temos do Senhor. Há uma urgente necessidade de consolo em
Sião, para que a dor possa ser sanada e a caminhada para reconciliação entre
árabes e judeus possa ocorrer. Aqueles que fomentam a divisão entre esses povos
irmãos não representam o coração dos filhos de Israel ou dos filhos de Ismael,
igualmente filhos de Abraão. Infelizmente, o terror infiltra-se e veste-se de
famÃlia de ambos, tentando negociar o inegociável, fomentando disputas e
armando braços ainda infantis, para ataques covardes.
Cuidemos, entretanto, de, ao espiar a Terra, evitar palavras
negativas quanto à promessa. Existem inimigos, não devemos subestimá-los, mas a
Palavra de Deus se cumprirá em Sua integralidade. Aos intercessores, basta
lembrar de que a nossa luta não é contra carne ou sangue, mas contra
principados e potestades. Com a mensagem da Br’it Hadashah, da Nova Aliança, feita
pelo sangue do Cordeiro, distribuamos conforto a todos. Deixemos a Ele a tarefa
de pisar, sozinho e em definitivo, o lagar de Seus inimigos.
por Sara Alice Cavalcanti
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