Entre os escritos sapienciais, encontramos um dos registros mais fundamentados em relação à soberba: “A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda” (Provérbios 16.18). Ao folhearmos a história de Saul, notamos o quanto esse trecho sagrado resume sua trajetória. O personagem desponta como um simples homem do campo até à ascendência inaugural da monarquia hebreia. No entanto, à medida que seu reinado se desenvolvia, também crescia sua soberba, a níveis tão descontrolados que Deus chegou a rejeitá-lo (1 Samuel 16.1). Nosso Deus não tem como praxe tolerar soberbos. Tiago diz que Ele “resiste aos soberbos” (Tiago 4.6). Toda vez que intencionamos atrair holofotes como se fôssemos o centro das atenções, inescapavelmente teremos a resistência de Deus.
A unção de Saul não foi algo meramente aleatório. Houve
muito mais confirmações a seu reinado do que a de outros reis que viriam posteriormente.
A primeira foi o encontro com mensageiros de seu pai (1 Samuel 10.2); depois,
os três homens que subiam a Betel (1 Samuel 10.3,4); e, por último, o encontro com
profetas e seu enchimento espiritual (1 Samuel 10.5,6). A confirmação
monárquica foi de tal forma que Deus o deixou irreconhecível por meio do
apoderamento do Espírito (1 Samuel 10.9-11). Nos dizeres de hoje, Saul não
“caiu de paraquedas”. Não bastasse a confirmação pessoal, agora ele seria
também certificado por Deus perante os próprios benjamitas e, por derradeiro,
afirmado perante toda nação (1 Samuel 10.23,24). Tudo estava em conformidade
com a vontade de Deus. Assim, Saul inicia seu reinado sobre as doze tribos.
Seu governo estava bem e assim continuaria, se sua altivez
não o tivesse feito vítima. Por acreditar ser a maior autoridade daquela nação,
supôs que poderia fazer o que bem entendesse, sem que houvesse a menor
consequência. Saul agiu de maneira precipitada ao ver o povo se dispersando e,
impacientemente, decidiu atrever-se a oferecer o sacrifício (1 Samuel 13.9-12).
Porém, o que não previu foi que o atraso de Samuel para a oferta sacrificial seria
a última confirmação de seu chamado monárquico, no qual ele não foi aprovado (1
Samuel 13.13,14). Dessa forma, por ter agido segundo seu próprio coração, Deus
buscaria alguém segundo Seu coração (1 Samuel 13.14). Desde a reprovação de
Saul, as coisas começaram a desandar para o monarca, a ponto de sua desorientação
estar tão ostensiva que cogitou até mesmo matar o próprio filho (1 Samuel
14.39), o que certamente teria feito se o povo não tivesse intervido (1 Samuel
14.44,45). Tudo isso tornava cada vez mais evidente a incapacidade desse rei de
continuar no comando da nação.
Independentemente da posição eclesiástica, um homem sem a direção
divina, tomado pela soberba, é um mero ocupante de cargos. Dificilmente se
voltará para algo que beneficie o Reino. Seu propósito sempre será o ganho pessoal.
A soberba é como um vinho bem alcoólico que facilmente embriaga os que dela
provam. Sua embriaguez causa sentimento de superioridade, narcisismo e uma usura
vertiginosa por aplausos.
Saul recebeu a ordem celestial de destruir os amalequitas. A
ordenança era para não deixar nada; no entanto, mais uma vez, o primeiro rei de
Israel decidiu desobedecer à vontade do Senhor para dar ouvidos a seu próprio achismo.
Ele até tentou costurar uma desculpa, dizendo que os animais que haviam sido
poupados eram para sacrificar ao Senhor. Será? Então, o profeta o silencia, citando
uma das passagens mais emblemáticas da Bíblia: “Tem, porventura, o Senhor tanto
prazer em holocaustos e sacrifícios como em que se obedeça à palavra do Senhor?
Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar” (1 Samuel 15.22).
Após a repreensão feita por Samuel, o benjamita entra em desespero
(1 Samuel 15.24,25) e implora para que o profeta suba com ele. Ao resistir-lhe,
Saul lhe rasga a capa (1 Samuel 15.27), levando Samuel a revelar que seu reino
havia sido rasgado da mesma maneira que rasgara a capa. Não foi Samuel, mas o
próprio rei quem rasgou. Da mesma forma que fez com seu reinado, ele mesmo se
autossabotou. Samuel fez questão de atingir a soberba que o filho de Quis possuía
ao informá-lo de que o novo escolhido não só já havia sido achado, como era
alguém melhor que ele (1 Samuel 15.28). Ao contrário do que pensava, Saul não
era a única, nem a melhor opção de que Deus dispunha para governar Seu povo. Na
“fila” dEle, sempre haverá alguém melhor do que nós, esperando sua vez. O
privilegiado não é Ele por ter-nos em Sua seara. O total privilégio de poder
ser contado entre os que trabalham no Seu Reino é exclusivamente nosso. O
próprio Senhor é quem age com Sua bondade, concedendo-nos a honra de servir à
Sua Igreja. Dentre muitos outros melhores e mais talentosos, Ele decidiu nos
chamar, não por falta de opção, mas por amor e misericórdia.
Pode ser pastor, obreiro, líder de departamento, escritor,
cantor, professor de Escola Dominical, entre outros, mas quando a soberba chega,
a unção do Espírito automaticamente se vai. Assim como Saul, diariamente Deus
tira muitos do anonimato e os posiciona em lugares de destaque para servir a Seu
Corpo. Assim como o filho de Quis, alguns começam bem. Seu ministério tem até
confirmação de Deus, e isso é exposto a todos que o conhecem; mas, quando
chegam ao objetivo, começam a levar uma vida segundo o próprio achismo, não
dando mais ouvidos à voz de Deus. Muitos ministérios estão desmoronados não
pela sabotagem alheia, mas pela autossabotagem.
Não são poucos que se julgam “grandes” e mais capacitados, e
se ensoberbecem, criando em torno de si um culto à sua imagem, no qual a
liturgia mais parece voltada ao líder do que a Deus. É claro que toda homenagem
bem regrada e sem exageros é válida e demonstra respeito pelo trabalho
prestado; no entanto, o que se tem visto em certos lugares mais se assemelha à
veneração. Olhemos fixamente para Jesus e nos empolguemos menos com elogios,
títulos, honrarias e aplausos. Não somos, nem de longe, os melhores de que Deus
dispunha. Se não tomarmos cuidado com a soberba, Deus levantará outro melhor.
por Osiel de Sá
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