Por que Jesus não salvou a Si mesmo?

Por que Jesus não salvou a Si mesmo?


Os Evangelhos relatam que, durante a crucificação, alguns observadores disseram sarcasticamente: “Salva-te a ti mesmo e desce da cruz!” (Marcos 15.30-32). Zombavam de Jesus por afirmar ser o Messias de Deus, mas não se livrar da cruz. Jesus tem poder divino. Ele poderia ter se livrado da cruz, como, antes da prisão, dissera às autoridades (Mateus 26.53). Mas, se o fizesse, o preço da justiça divina não seria pago. Vejamos, sob a perspectiva bíblica e teológica, a questão central do Evangelho: Por que Ele, possuindo poder divino, não salvou a Si mesmo descendo da cruz (Mateus 27.42)?

A recusa de Jesus em descer da cruz é o ápice da Sua obediência e o fundamento daquilo que a teologia cristã explica na doutrina da salvação, na qual a morte dEle não foi uma derrota, mas o único meio pelo qual a vida eterna é dada à humanidade. A morte de Jesus Cristo na cruz constitui o centro da revelação bíblica e a base da redenção humana. O apóstolo Paulo afirma: “Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras” (1 Coríntios 15.3), revelando que Sua morte tinha um propósito definido e anunciado profeticamente. E. H. Bancroft declara que “a cruz é a chave para se compreender toda a obra de Cristo; sem ela, o Evangelho perde o seu significado, e a salvação se torna impossível”. (1)

A cruz foi o altar em que o Cordeiro de Deus foi imolado, satisfazendo plenamente a justiça divina e manifestando o amor redentor. A expressão “morte vicária” indica que Cristo morreu em lugar de outros, assumindo a penalidade que lhes era devida. “O Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos” (Isaías 53.6). Essa substituição não foi simbólica, mas real e efetiva, de modo que a culpa e a condenação que pesavam sobre o homem foram transferidas para o Filho de Deus. McDowell reforça: “A cruz é a demonstração suprema de que Deus é justo e, ao mesmo tempo, justificador de quem crê”. (2)

O apóstolo Paulo ensinou que “a graça salvadora de Deus se há manifestado a todos os homens” (Tito 2.11). Professor Claiton Pommerening ensina que, “na cruz, Jesus foi a manifestação da graça. A cruz foi seu símbolo (1 Coríntios 1.18). O símbolo é a figura com que se representa um conceito; logo, a graça (entenda-se como graça o ato salvífico, expiatório) seria o conceito, e a cruz, seu símbolo. Isso estabeleceria que graça e cruz são dois elementos distintos, porque uma, a cruz, só representa a outra, a graça; uma é material, a outra abstrata. A graça da cruz está representada na motivação de Jesus para enfrentar a cruz pelos outros. Nessa afirmação concentra-se toda a essência pela qual Jesus achou necessário morrer, que é justamente seu gesto gracioso, voluntário e positivamente definidor em prol da humanidade, cujo fim é a salvação de todo o que crê”. (3)

Se Ele se salvasse, descendo ou desistindo do sacrifício na cruz, não haveria expiação. O escritor de Hebreus explica: “Sem derramamento de sangue, não há remissão” (Hebreus 9.22). A frase “Salva-te a ti mesmo” (Marcos 15.30) sintetiza a tentação suprema enfrentada por Jesus na crucificação. A recusa em usar Seu poder para libertar-se não foi um sinal de fraqueza, mas o cumprimento deliberado de Sua missão salvadora. Jesus permaneceu fiel à missão. A cruz não foi um acidente de percurso no ministério do Filho de Deus, mas objetivo final de Sua vida na terra.

A vida, ministério, morte e ressurreição de Jesus não foram eventos isolados ou desconectados da história da revelação bíblica. Eles constituem o cumprimento preciso de profecias messiânicas anunciadas séculos antes por meio dos profetas do Antigo Testamento. Jesus afirmou: “Convém que se cumpra tudo o que de mim está escrito na lei de Moisés, nos profetas e nos salmos” (Lucas 24.44). O cumprimento demonstra que Ele é o Messias prometido, validando Sua missão redentora e autenticando sua identidade divina. McDowell observa que “a precisão com que Cristo cumpriu as profecias do Antigo Testamento é evidência esmagadora de que Ele é o Messias”. (4)

Uma das profecias mais conhecidas é a de Isaías sobre o Servo Sofredor: “Mas ele foi ferido pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades” (Isaías 53.5). Essa predição encontra cumprimento na crucificação, onde Ele sofreu vicariamente pelos pecados da humanidade. E. H. Bancroft declara: “Isaías 53 é a janela profética mais clara para o Calvário”. (5) O Salmo 22 descreve de forma impressionante aspectos da crucificação: “Traspassaram-me as mãos e os pés” (Salmos 22.16); “Repartem entre si as minhas vestes e lançam sortes sobre a minha túnica” (Salmos 22.18). Esses detalhes, cumpridos na morte de Jesus, revelam que até mesmo os pormenores de Sua execução estavam sob o controle soberano de Deus. Até a ressurreição de Cristo estava profetizada. Davi declarou: “Pois não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção” (Salmos 16.10).

Jesus “obedeceu até à morte, e morte de cruz” (Filipenses 2.8). A salvação vem por Sua obediência perfeita, não por autolibertação. Ele não se salvou a Si mesmo porque estava decidido a salvar os outros. No Getsêmani, disse: “Não seja como eu quero, mas como tu queres, Pai” (Mateus 26.39). Ele veio dar Sua vida em resgate de muitos (Marcos 10.45). A cruz é a maior demonstração do amor de Deus. Jesus priorizou a salvação da humanidade: “Ninguém tem amor maior do que este: de dar alguém a sua vida pelos seus amigos” (João 15.13). Permanecer na cruz foi o clímax do amor de Deus pelos pecadores (Romanos 5.8). Russell Shedd lembra que o amor de Deus se manifesta plenamente no sacrifício voluntário do Filho, que assume o lugar do pecador. (6) Ao não descer da cruz, Jesus enfrentou a morte até o fim, vencendo-a pela ressurreição. Hoje, a salvação é oferecida a todos!

Referências

(1) BANCROFT, E. H. Teologia Elementar. 1981, p. 125.

(2) MCDOWELL, Josh. Evidência que Exige um Veredito. 1989, p. 277.

(3) POMMERENING, Claiton Ivan. A obra da Salvação. Rio de Janeiro: CPAD, 2017, p. 78.

(4) MCDOWELL, Josh. Evidência que Exige um Veredito. 1989, p. 283.

(5) BANCROFT, E. H. Teologia Elementar. 1981, p. 130.

(6) SHEDD, Russell P. A cruz de Cristo. São Paulo: Vida Nova, 1998.

por Rayfran Batista da Silva

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