A expressão “quaresma” tem origem no latim quadragésima dies, que significa “quadragésimo dia”, e refere-se ao período de 40 dias de preparação para a Páscoa. Corresponde ao tempo de oração e jejum que o Senhor Jesus passou no deserto, preparando-se para o início do Seu ministério terreno.
As origens da Páscoa no Antigo Testamento
A Páscoa original foi ordenada por Deus como memorial anual
para os judeus; consistia no imolar de um cordeiro para cada família, com o
sangue aspergido nos umbrais, e no comer cerimonial do cordeiro com pães asmos
e ervas amargas, lembrando o cativeiro no Egito e a libertação que Deus
realizou por intermédio de Moisés. A celebração ocorria no dia 14 do mês de
Nisã, invariavelmente, independentemente do dia da semana em que caísse em
qualquer ano. Esse memorial foi celebrado pelos judeus por cerca de 14 séculos,
até a destruição do Templo em Jerusalém pelo general Tito, no ano 70 d.C. Os
judeus ainda a celebram de forma parcial em seus lares, mas sem o sacrifício de
cordeiros, considerando que, não havendo mais o Templo para oferecer o
sacrifício pascal, já não faz sentido realizá-lo nas casas.
As origens da Páscoa no Cristianismo
De acordo com a economia do Novo Testamento, a igreja
neotestamentária não tem obrigação alguma de celebrar os ritos e festas da
antiga aliança, conforme Colossenses 2.16,17. Os rituais pascais do Antigo Testamento
apontavam para o sacrifício de Cristo; portanto, já foram cumpridos,
tornando-se rudimentos obsoletos (1 Coríntios 5.7). Com a morte dos apóstolos e
da primeira geração de discípulos do Senhor, já na metade do segundo século,
criou-se o costume, em várias partes da cristandade, de se celebrar uma “Páscoa
cristã”, com a realização de uma eucaristia (Ceia do Senhor) festiva,
comemorando a ressurreição do Senhor Jesus. Como as igrejas eram autônomas
regionalmente e o poder central do bispo de Roma (mais tarde chamado papa)
ainda não havia se consolidado, algumas igrejas celebravam em uma data e outras
em outra. Tudo isso está documentado na história eclesiástica, especialmente
nos escritos dos pais apostólicos e na patrística em geral.
As origens da celebração quaresmal
Com o surgimento da ideia de se celebrar uma Páscoa cristã, sugeriu-se
que deveria haver um período de preparação, repleto de exercícios espirituais
como oração, jejum e penitência, sendo esta última composta de ações exteriores
que demonstrassem arrependimento pelos pecados cometidos após o batismo. Entretanto,
até o século IV, não havia um período com número definido de dias para essa
preparação. O historiador Eusébio de Cesareia esclarece que, no século II, já
existia grande diversidade quanto à duração e à forma do jejum pré-pascal:
“Alguns pensam que devem jejuar um dia; outros, dois dias; outros, ainda mais;
e outros jejuam contando quarenta horas” (Eusébio, História Eclesiástica, V,
24, 12-13).
Tertuliano, no século II, reconhecia que esses jejuns não possuíam
fundamento escriturístico direto: “Non inveniuntur in Scripturis...” (“Não
se encontra nas Escrituras nenhuma ordenança sobre esses jejuns adicionais”, De
Jejunio, 14). Entretanto, ele não rejeitava tais práticas espirituais, mas as
legitimava como exercícios disciplinares válidos, entendendo que a liturgia
cristã poderia se desenvolver além da letra das Escrituras, desde que em
harmonia com sua teologia central.
Ainda no século III, Orígenes de Alexandria reconhecia a diversidade
litúrgica, que variava “segundo o costume de cada igreja”. Por fim, a
preparação pascal de quarenta dias foi definida e solidificada universalmente
apenas no século IV, após o Concílio de Niceia, em 325 d.C. Os pais da Igreja,
como Gregório Nazianzeno, Atanásio de Alexandria, Basílio de Cesareia e o
próprio Agostinho de Hipona, reconheciam que “muitas práticas litúrgicas não
procedem da Escritura, mas da tradição e da autoridade conciliar: Quae non sunt
in Scripturis... (o que não está claramente nas Escrituras foi instituído
pelos concílios ou pela autoridade da Igreja)” (Agostinho de Hipona, Epistola
54).
A igreja evangélica e a tradição da quaresma
Como vimos nos tópicos anteriores, a chamada Páscoa cristã, com
seu período preparatório quaresmal, é um desenvolvimento ao longo de séculos,
elaborado pelos concílios e pela autoridade da igreja, mas não foi um mandamento
neotestamentário, nem do Senhor Jesus, nem de Seus apóstolos. Após a Reforma
Protestante, alguns grupos eclesiásticos, como certas igrejas reformadas,
luteranas e anglicanas, conservaram os tempos litúrgicos da igreja
pós-primitiva, tais como o Advento (preparação para o Natal), o Natal, o Tempo Comum
(que trabalha as leituras evangélicas do ministério público de Jesus), a
Quaresma (preparação para a Páscoa) e a Páscoa (celebração da morte e ressurreição
do Senhor).
Quando os puritanos eram questionados sobre a conservação de
resquícios litúrgicos da Igreja Antiga, especialmente do romanismo, respondiam
que mantinham essas celebrações e outras práticas porque “o que não é contra as
Escrituras é pelas Escrituras, e as Escrituras por elas”. As igrejas
evangélicas posteriores à Reforma, porém, passaram a demonstrar verdadeira
ojeriza a tudo que remete ao catolicismo romano e, muitas vezes, sem profundo
conhecimento histórico, afirmam que tudo isso é produto do paganismo.
As superstições e práticas que foram adicionadas à
quaresma e à Páscoa
Infelizmente, todas as coisas tendem a se corromper com o passar
do tempo. A própria Páscoa judaica foi corrompida pelos homens, pois quando
Deus, por meio de Moisés, a instituiu, disse: “Esta é a Páscoa do Senhor” (Êxodo
12.11). Quando o Senhor veio ao mundo, os objetivos haviam mudado, e o
evangelista João registra: “Estava próxima a Páscoa dos judeus” (João 2.13).
Assim, já não era mais do Senhor, mas dos homens.
Quando o Cristianismo entrou em contato com o mundo pagão na
Idade Média, foram incorporados novos elementos que nada têm a ver com a fé
cristã, como coelhos e ovos. No hemisfério norte, a Páscoa coincide com a primavera,
época em que a vida volta a brotar da terra, os coelhos saem das tocas e se
reproduzem, e as aves se multiplicam por meio dos ovos. Dessa forma, associando
a nova vida trazida pela Páscoa do Senhor a esses símbolos naturais, os
cristãos passaram a presentear uns aos outros com ovos pintados de várias cores
para representar a nova vida em Cristo. Com a industrialização do chocolate no
século XIX, surgiram os ovos de Páscoa. Todas essas práticas são parvoíces que
nada edificam a vida cristã.
Além disso, em muitos lugares são praticados ritos de
caráter esdrúxulo, acrescidos à celebração pascal, como procissões com símbolos
heterodoxos e idólatras, comuns em países de origem ibérica. Em alguns
contextos, ainda se observa a cerimônia dos flagelantes, na qual pessoas se
automutilam como forma de penitência, acrescentando práticas que ofendem a
essência do Evangelho e distorcem seu conteúdo redentor.
Conclusão
O que uma igreja evangélica deve fazer nesse período festivo
da Páscoa? Creio que devemos agir como fazemos no Natal: realizar cultos
especiais, com recitais, cantatas e pregações alusivas ao evento da morte e ressurreição
do Senhor, tanto no templo — convidando os descrentes a participarem — quanto
em lugares públicos. Devemos entender esse período como uma excelente oportunidade
para adorar a Deus e anunciar ao mundo o real e profundo significado da morte e
ressurreição do Senhor Jesus. Soli Deo Gloria.
por José Orisvaldo Nunes de Lima
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