Política e cosmovisão cristã

Política e cosmovisão cristã


Sem a influência cristã ao longo das eras e no tempo presente, o governo e a sociedade perdem a bússola moral que deve orientá-los

O que tem a ver Jerusalém com Atenas? Esta indagação foi feita por Tertuliano, um dos pais da igreja primitiva que viveu entre 160-220 d.C. Por meio desta pergunta, Tertuliano colocava em discussão o relacionamento entre a Teologia, representada por Jerusalém, e a Filosofia, identificada com Atenas, o berço do pensamento filosófico grego. O apologista tinha uma compreensão abrangente sobre as filosofias que criticava, e sua oposição à influência do conhecimento filosófico secular era resultado da intenção zelosa de proteger os fundamentos bíblicos e evitar as heresias.

Em nossos dias, é possível fazer uma pergunta semelhante: o que tem Jerusalém a ver com Brasília? Em outras palavras, qual a relação entre a fé cristã e a política? Esta é uma pergunta realmente importante para o Cristianismo em geral e para o pentecostalismo em particular, sobretudo dentro do contexto brasileiro. Nas últimas décadas, com o crescimento da população evangélica no Brasil, o tema ganhou maior repercussão e a proximidade da igreja com a política fez reacender a necessidade de re­flexões teológicas mais profundas e sofisticadas sobre este tema.

Inegavelmente, do ponto de vista da ciência política e sob os fundamentos do Estado Democrático de Direito, os cristãos possuem ampla liberdade e legitimidade para atuar na esfera política eleitoral. No âmbito da cidadania, da pluralidade e dos direitos políticos, como qualquer outro segmento social, os evangélicos podem (e devem) participar ativamente das disputas de ordem política, tanto no sentido de votar conforme seus valores e princípios, quanto no de exercer in­fluência direta ou indireta sobre esse campo, desde que não contrariem a legislação. O princípio da laicidade, tantas vezes invocado como um mantra de neutralização da participação religiosa no espaço público, não impede a relação entre religião e política, mas tão somente veda a vinculação e a dependência entre Estado e Igreja enquanto entes jurídicos.

Contudo, como em qualquer outra área da vida humana, a relação entre fé cristã e política precisa ser conduzida com cuidado, embasada em fundamentos bíblicos e em uma teologia pública consistente, sob pena de gerar escândalos e prejuízos sociais. Em meu livro Entre a Fé e a Política, (1) adverti que a legitimidade democrática dos evangélicos não anula nossa responsabilidade bíblica de sermos sal e luz (Mateus 5.13-14), exigindo cautela nessa esfera. A conquista de espaço nas estruturas de poder e o reconhecido peso político nas disputas eleitorais das últimas décadas devem ser exercidos com zelo e discernimento, sob pena de sucumbir a diversos riscos, especialmente à ambição de obter benefícios e privilégios em detrimento do bem comum, bem como ao desejo de dominação política com base em visões teocráticas que colocam em risco o princípio democrático e o verdadeiro papel da Igreja na Terra, subvertendo sua missão espiritual (1 Pedro 2.9).

Para evitar tal ocorrência, o engajamento político cristão precisa vir acompanhado de discernimento espiritual, alicerçado em um modelo de atuação biblicamente fundamentado e socialmente coerente com as democracias contemporâneas. Essa tarefa, que responde à pergunta que deu início a esta refl­exão (O que tem Jerusalém a ver com Brasília?), começa precisamente pela definição e pelo alcance da política no mundo em que vivemos, bem como pela compreensão da fé cristã como uma cosmovisão, uma visão de mundo abrangente. Essa cosmovisão precisa, igualmente, estar alinhada a uma espiritualidade vibrante e não meramente racionalista, que caracteriza o pentecostalismo – tradição a partir da qual falamos.

Definindo os termos “política” e “cosmovisão”

Em virtude dos reiterados episódios de corrupção que marcam a história do país, é comum restringir o sentido do termo “política” apenas ao seu aspecto negativo, no âmbito da politicagem e dos jogos de interesse. Para uma compreensão adequada, é necessário ir além da superfície e retornar ao significado original do termo, compreendendo seu propósito elementar na vida em sociedade. A palavra grega politikós, em sua essência, referia-se à arte de governar a cidade ou ao conjunto de atividades relacionadas à vida na pólis, tendo em vista o bem comum. Uma vez que a sociedade é composta por pessoas com interesses e valores diversos, torna-se imprescindível organizar a vida em comunidade para que ela seja ordenada, segura e pacífica.

Essencialmente, a política é a busca pela convivência pacífica dentro da comunidade. Para tanto, ela envolve as relações entre as pessoas, o exercício do poder e a promoção do bem coletivo. Como definiu Johannes Althusius, “a política é a arte de unir os homens entre si para estabelecer vida social comum, cultivá-la e conservá-la”. (2) De acordo com Althusius, a causa final da política é o desfrute de uma vida confortável, profícua e feliz, bem como do bem-estar comum, para que possamos levar, com piedade e honra, uma vida sossegada e pacífica.

Portanto, visto que o homem é um ser gregário, criado para viver em comunidade, a política é uma necessidade para a vida social. Embora o termo tenha sido criado na filosofia grega, os elementos da política se encontram presentes desde a formação do primeiro casal no Gênesis. Antes mesmo de Aristóteles dizer que “o homem é um animal político”, a Bíblia revelava que o homem foi criado como ser social e relacional: “Disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea para ele” (Gênesis 2.18). Adão, o primeiro homem, e também o primeiro governante no reino terreno, recebeu a incumbência de administrar a criação como mordomo. Deus deu a ele o mandato (Gênesis 1.28; 2.15) que incluía governar a criação, preservar a vida, usar os recursos de modo responsável e trabalhar para o bem-estar coletivo.

No sentido geral a política integra naturalmente a vida humana e dirige as relações sociais. Ela está presente na família, no trabalho, na igreja, no governo e em todos os ambientes em que haja interação humana. Destas esferas, a política governamental, que engloba as disputas eleitorais, é certamente aquela que mais evoca atenção, pois define o exercício do poder e a administração pública em todos os níveis. Neste sentido, a política está vinculada à concepção de democracia, enquanto exercício de poder pelo povo. Na sociedade contemporânea, a democracia pode ser entendida como arranjos sociais ou como estrutura jurídica que diz respeito a sistema de instituições, regras e procedimentos que organizam e regulam a participação política, garantindo direitos, liberdades, eleições livres e períodos de responsabilidade governamental. Dentre suas características, as democracias contemporâneas assumem predominantemente a forma de democracias representativas, nas quais o poder político é exercido por representantes eleitos pelo povo, tendo como base a vontade expressa pela maioria.

Nesse ambiente, a política é conduzida pela concorrência por meio de processos que garantem às pessoas a efetiva participação por meio do voto. Naturalmente, essa forma de política é marcada por tensões e intensos debates, pois é nessa arena que ideologias, interesses e visões de mundo contraditórias entram em choque. É sobretudo nesse nível, caracterizado por polarizações e disputas, que mais se refl­ete sobre a relação do cristão com a política, buscando estabelecer princípios bíblicos e teológicos para um engajamento cívico saudável e um testemunho fiel como discípulos de Jesus.

Nesse ponto, vale também entender a vida cristã como uma cosmovisão, isto é, como uma visão de mundo abrangente. Cristãos que geralmente são despreocupados quanto ao tema da política e procuram se afastar destas discussões no geral enxergam a fé como algo eminentemente espiritual, aplicável ao “mundo da religião”. Contudo, se o Cristianismo diz respeito tão somente à dimensão religiosa, perdemos de vista a revelação divina da soberania de Cristo sobre todas as coisas, a Sua verdade que diz respeito a tudo e a integralidade da vida cristã. Nesse sentido, devemos compreender a fé cristã como uma cosmovisão, uma forma de ver e encarar toda a realidade criada, incluindo a política.

Isso não significa que a fé cristã se reduza a um sistema racional de pensamento; antes de tudo, trata-se de um conjunto de compromissos que o cristão assume e que o conduz a viver sua fé de maneira intensa, aplicando sua confiança em Cristo e os pressupostos bíblicos em tudo o que faz. Sob uma perspectiva pentecostal, como escrevi em meu livro Cosmovisão Pentecostal, (3) a cosmovisão, sob a dimensão pentecostal, é uma compreensão tácita da realidade, caracterizada por uma ênfase especial na obra contínua e ativa do Espírito Santo, na expectativa de experiências sobrenaturais e na centralidade da Bíblia como autoridade final. Distingue-se por um enfoque vibrante e experiencial da fé, destacando o papel vital da comunidade e do culto coletivo no crescimento espiritual e na prática cristã. Essa cosmovisão molda a vida dos crentes, orientando suas percepções sobre a realidade, a moralidade e o propósito da vida, dentro de um quadro de compromissos que enfatiza a intervenção divina contínua e a presença tangível de Deus no mundo atual.

Modelos de relacionamento entre fé e política

Ao longo da história do Cristianismo, diversos modelos de relacionamento entre fé e política foram adotados. Uma forma didática de observar esses diferentes tipos de abordagem e identificar aquele que melhor se adequa às Escrituras e às características da tradição pentecostal, é recorrer às categorias propostas por H. Richard Niebuhr (1894–1962) em sua obra clássica Cristo e Cultura. (4) Niebuhr apresentou cinco tipos de relacionamento que os cristãos mantiveram com a cultura ao longo da história, denominando-os: Cristo contra a cultura, Cristo da cultura, Cristo acima da cultura, Cristo e cultura em paradoxo e Cristo, o transformador da cultura. Tomando essa tipologia como referência, pelo menos para fins conceituais e didáticos, é possível aplicá-la também às diferentes formas como os cristãos se relacionam com a política. Assim, temos: Cristo contra a política, Cristo da política, Cristo acima da política, Cristo e política em paradoxo e Cristo, o transformador da política.

O primeiro modelo, Cristo contra a política, propõe uma visão apolítica, marcada pelo desinteresse e pelo afastamento. Nessa perspectiva, os cristãos devem manter-se distantes das discussões dessa natureza, por considerarem a atividade política algo perigoso e mundano. Aliás, por muito tempo, essa visão foi expressa na conhecida frase: “Crente não se envolve com política, pois política é coisa do mundo”.

O segundo modelo, Cristo da política, situa-se no extremo oposto, defendendo uma forma politizada da fé cristã. A política é vista não apenas como necessária, mas como uma expressão do próprio Evangelho. Essa perspectiva conduz ao entendimento de que a ordem política constitui uma prioridade da missão da Igreja, o que pode levar à visão equivocada de que ela deve dedicar-se à política em detrimento do evangelismo, do ensino da Palavra de Deus e do cuidado das almas.

O modelo Cristo acima da política expressa, também de forma radical, o entendimento de que a religião cristã deve exercer predomínio sobre essa esfera. Considera a atividade política necessária como meio de implantação do Reino de Deus na terra, o que leva à compreensão de que o governo deve impor a religião, em especial quando o poder está nas mãos dos religiosos. Essa visão é defendida notadamente pela chamada teologia do domínio, segundo a qual os cristãos, por serem filhos de Deus, devem exercer domínio sobre todas as esferas da sociedade, sobretudo a política. O grande problema hermenêutico (5) desta visão é que ela não leva em conta a relação de continuidade e descontinuidade entre os dois Testamentos.

Cristo e política em paradoxo é um modelo que compreende a fé cristã em constante tensão com as questões terrenas, incluindo a vida pública e governamental. Defende o envolvimento político do cristão, porém com cautela, reconhecendo que o discípulo de Cristo possui dupla cidadania (Filipenses 3.20) e que há distinção entre o governo de Deus e o governo de César (Mateus 22.21). Em situações extremas, quando existir confl­ito entre a fé cristã e o governo humano, o cristão deve obedecer a Deus (Atos 5.29).

Por fim, o modelo Cristo, o transformador da política defende a participação ativa e consciente da comunidade cristã na esfera pública. Os discípulos de Jesus devem envolver-se de forma cívica e sábia com as questões de interesse coletivo, buscando infl­uenciar positivamente a sociedade em favor da pacificação e do bem comum. Nesses termos, o cristão é chamado a exercer infl­uência significativa sobre o governo, seja por meio do voto, seja pela defesa de pautas alinhadas aos valores da Palavra de Deus.

Considerando esses modelos, a cosmovisão cristã, especialmente nas linhas da tradição pentecostal, rejeita as visões extremas: tanto aquelas que buscam afastar completamente o cristão da vida política quanto as que priorizam a política em detrimento da missão espiritual da Igreja na Terra. O modelo Cristo contra a política, por exemplo, ignora o fato de que os cristãos vivem neste mundo e possuem responsabilidade social e deveres de cidadania, além de não reconhecer o papel essencial da política como instrumento de convivência humana. Da mesma forma, uma visão cristã verdadeiramente bíblica se distancia dos modelos que supervalorizam a política ou buscam o predomínio pela busca do poder, como é o caso de Cristo da política e Cristo acima da política. Essas visões acabam por politizar o próprio Evangelho e colocar em risco a missão espiritual confiada à Igreja.

Cada cristão, individualmente, como cidadão, deve exercer com zelo e discernimento seus direitos cívicos, o que inclui o exercício do voto e, eventualmente, a candidatura a um cargo eletivo, caso possua vocação pública, como exemplificam José e Daniel. Contudo, não se deve fundir a fé cristã com qualquer ideologia política, assim como a Igreja não deve buscar dominar o mundo político, sob o risco de perder seu foco evangelizador e discipulador.

Desse modo, uma visão equilibrada do relacionamento entre a cosmovisão cristã e a política envolve uma perspectiva de constante paradoxo e de infl­uência sábia, reconhecendo que sempre viveremos em tensão neste mundo. Isso não significa adotar uma visão que busca transformar a sociedade apenas pela ação política, depositando esperanças nessa esfera. Tal concepção ignora os efeitos da queda sobre o mundo, bem como o caráter provisório da realidade presente, que aponta para o plano escatológico de Deus.

A intenção de mudar o mundo pela religião, como instrumento cultural de transformação, não como consequência de uma transformação individual, subverte o propósito do evangelho e pode até mesmo levar ao autoritarismo e à violência. Miroslav Volf captou esse risco ao dizer: “Se despojarmos as convicções cristãs de seu conteúdo moral e cognitivo original e histórico e reduzirmos a fé a um recurso cultural dotado com uma aura difusa do sagrado, em situações de confl­ito provavelmente teremos violência inspirada e legitimada pela religião. Se nutrirmos as pessoas com convicções cristãs enraizadas em seus textos sagrados, provavelmente conseguiremos militantes pela paz”. (6)

Princípios bíblicos para o engajamento político

Embora as Escrituras não apresentem um modelo pronto de relacionamento entre a fé e a política, elas oferecem princípios gerais que fundamentam a cosmovisão cristã aplicada a esse campo e orientam a atuação do cristão nele. Tais princípios nos auxiliam na elaboração de uma teologia aplicada à participação política.

1. Todo poder emana de Deus. As democracias contemporâneas partem do pressuposto de que todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, conforme dispõe o art. 1”, parágrafo único, da Constituição Federal do Brasil. Embora do ponto de vista jurídico esse seja o elemento fundante da ordem política, a cosmovisão cristã estabelece um fundamento ontológico mais profundo para a existência do poder e o exercício das autoridades públicas. Os apóstolos Paulo (Romanos 13.1-3) e Pedro (1 Pedro 2.13-14) enfatizam que toda autoridade foi instituída por Deus. As autoridades constituídas — reis, governantes, legisladores, magistrados e outros detentores de poder — receberam, portanto, de Deus a delegação para exercer suas funções, seja para promover o bem (como na instituição de políticas públicas, por exemplo), seja para coibir o mal (por meio da aplicação da justiça e da punição dos criminosos).

Não importa o regime de governo, nem se o governante é cristão ou não: o povo de Deus deve submeter-se a toda autoridade humana, pois toda autoridade procede do céu. Dessa verdade decorre que atitudes de rebeldia, revolução ou desrespeito à ordem pública são incompatíveis com a fé cristã. Por princípio, o cristão é chamado a ser um cidadão exemplar; além de reivindicar seus direitos, deve também ser consciente de seus deveres para com a sociedade e as autoridades constituídas.

2. Estado e igreja possuem funções distintas, mas não antagônicas. Jesus estabeleceu um princípio essencial para a relação do cristão com o governo humano ao declarar: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Marcos 12.17). Essa afirmação foi proferida em resposta a uma pergunta capciosa formulada por homens enviados pelos escribas e sacerdotes, que buscavam incriminá-lo: “É lícito pagar tributo a César ou não?” (Marcos 12.14). Sabendo da astúcia e da intenção dos seus interlocutores, Jesus não responde com uma regra casuística, mas com um sábio princípio. Primeiro, toma em suas mãos uma moeda romana da época e lhes pergunta: “De quem é esta efígie e esta inscrição?”. Eles respondem: “De César”. Então, Jesus conclui: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.

Historicamente, o pensamento cristão tem entendido que a afirmação de Jesus estabelece uma distinção entre o poder político e o Reino de Deus, separando as esferas do Estado e da Igreja como entes distintos. A Igreja não deve governar “o que é de César”, e o governo humano não deve interferir em “o que é de Deus”, ao mesmo tempo em que se ressalta a responsabilidade do homem em prestar a cada um a devida obediência. Contudo, a declaração de Jesus não institui uma separação absoluta e autoexcludente que inviabilize a relação cooperativa entre as jurisdições estatal e religiosa.

A própria pergunta de Cristo acerca da imagem na moeda contém implicações subjacentes que direcionam para a soberania divina, como bem lembrou Francis Beckwith. A outra pergunta implícita que deve ser respondida é: quem tem em si a imagem de Deus? “Se a moeda representa a autoridade de César, porque tem nela sua imagem, então, nós, seres humanos, estamos sob a autoridade de Deus, porque temos em nós a sua imagem”. (7) Assim, “o governo e a igreja, apesar de terem jurisdições distintas, partilham da obrigação comum de promover o bem-estar daquele que são feitos à imagem de Deus”. (8)

Portanto, à luz dessa hermenêutica, não é possível sustentar um modelo de relacionamento entre Estado e Igreja em que o poder religioso se confunda com o poder político, como ocorre nos regimes teocráticos. Da mesma forma, é inconcebível o modelo laicista, que busca a exclusão completa da participação religiosa do processo político. A melhor forma de equilibrar a relação entre essas esferas é por meio da laicidade cooperativa, em que cada uma mantém sua autonomia, mas podem atuar de maneira colaborativa em prol do bem comum. Por exemplo, observa-se a relevância da Igreja nas áreas educacional, social, econômica e de segurança pública (como na ressocialização de ex-criminosos), bem como a importância do Estado em garantir o exercício dos direitos fundamentais, entre eles a própria liberdade religiosa.

3. A política é importante, mas a esperança cristã não está centrada nela, e sim em Deus. A cosmovisão cristã enxerga a política como um instrumento, e nunca como um fim. Ela é importante, como vimos, para a vida em sociedade enquanto aguardamos a consumação de todas as coisas. No entanto, a política não possui caráter redentor nem é capaz de instaurar o paraíso na Terra. Trata-se de um mecanismo de boa administração em um mundo caído, por meio do qual buscamos a paz da cidade (Jeremias 29.7), mas que certamente não constitui o fundamento da esperança cristã.

O Cristianismo bíblico, portanto, não contempla a política, os políticos ou o Estado com os olhos da esperança. A ideia de política como esperança se apoia em uma visão utópica e progressista da sociedade, destoando das Sagradas Escrituras. O cristão valoriza a política, mas não deposita nela sua esperança última. A esperança cristã está firmemente centrada em Deus, por meio de Cristo (Jeremias 17.7; 1 Pedro 1.3; Colossenses 1.27).

4. A cosmovisão cristã não depende e não se confunde com qualquer ideologia política. A postura cristã em relação à política parte da revelação de Deus e se dirige para o exercício da mordomia em relação à criação. A cosmovisão cristã, por essa razão, não equivale e não se dirige por qualquer ideologia política; afinal, toda ideologia é uma forma do pecado da idolatria (Êxodo 20.3-5). Nas palavras de Koyzis, “como as idolatrias bíblicas, cada ideologia se fundamenta no ato de isolar um elemento da totalidade criada, elevando-o acima do resto da criação e fazendo com que esta orbite em torno desse elemento e o sirva. A ideologia também se fundamenta no pressuposto de que esse ídolo tem a capacidade de nos salvar de um mal real ou imaginário que há no mundo”. (9) Conforme David Koyzis, as ideologias deificam algo dentro da criação de Deus, baseando-se, cada qual, em uma soteriologia específica que distorce a realidade. Ocorre que, na perspectiva da ética cristã, não somente objetos criados são considerados ídolos, mas tudo aquilo que assume a primazia na vida de alguém e direciona a sua forma de viver. A. W. Tozer dizia que “um ídolo na mente é tão ofensivo a Deus quanto um ídolo na mão”.

É possível afirmar que, dentro do quadro dos espectros políticos, para identificar como cada pessoa se posiciona em relação a diversos temas – como liberdade, igualdade, justiça social, vida e família, entre outros –, é comum recorrer à classificação por tipos de ideologias políticas, que definem a orientação do indivíduo, variando, conforme a formulação adotada, da direita à esquerda, passando pelo centro. Também é inegável reconhecer que a fé cristã ortodoxa está alinhada à defesa de valores conservadores, como a valorização da vida, da família tradicional, da sexualidade definida em termos naturais e biológicos, e da liberdade religiosa, entre outros. Ao mesmo tempo, sustenta princípios de solidariedade fundamentados no amor, na ajuda aos necessitados e na luta contra as injustiças (João 13.34-35; Provérbios 19.17). Todas essas e outras diretrizes decorrem diretamente dos pressupostos bíblicos que estruturam a cosmovisão cristã e levam o cristão a enxergar sua relação com o mundo a partir de premissas teológicas basilares que apontam para a criação, a queda, a redenção, a renovação e a glorificação. Contudo, a postura política cristã não deve emergir de ideologias, uma vez que estas representam falsas interpretações da realidade e tendem a conduzir a uma atitude cega e beligerante no contexto das disputas políticas.

5. A presença política dos cristãos deve ser cristocêntrica e profética. Por fim, a cosmovisão cristã conduz o crente a uma participação cristocêntrica e profética. Ela é cristocêntrica porque a vida do cristão, em todas as áreas, deve glorificar e testemunhar de Cristo, inclusive no ambiente político. A tradição pentecostal expressa essa verdade por meio de suas declarações clássicas: Jesus salva, santifica, batiza com o Espírito Santo, cura e em breve voltará para reinar. Além do aspecto eminentemente espiritual, esses elementos também orientam o engajamento político da comunidade cristã, ao enfatizar que somente Jesus é o Salvador (não o candidato, o partido ou o Estado); que devemos viver de modo ético e íntegro mesmo neste mundo; que somos capacitados para testemunhar na sociedade; que podemos ser canais de bênção e cura, inclusive no âmbito social; e que aguardamos, com esperança, o retorno do Rei Jesus.

A participação profética nos recorda do profetismo bíblico e sua função político-social (Isaías 1.23; Jr 22.3; Malaquias 3; Zacarias 7.9; Amós 5.11). José Gonçalves (10) destaca que os profetas veterotestamentários possuíam importante função social e moral. A ética social prescrita pelos profetas apresentava-se como uma moralidade de (1) natureza solidária; (2) administrativa, ao denunciar as extravagâncias reais; (3) imparcial e (4) igualitária. Diante disso, uma política profética primeiro reconhece e anuncia que as lealdades para o Estado são secundárias às fidelidades para Deus. Em segundo lugar, uma política profética desafiará o Estado a fazer o que se supõe fazer: respeitar a lei. Em terceiro lugar, a política profética dos crentes habilitados pelo Espírito inclui uma testemunha explícita na praça pública, a exemplo da defesa de Paulo perante Félix (Atos 24), oportunidade em que, além do testemunho de Cristo, discutiu sobre “justiça, e da temperança, e do Juízo vindouro” (v. 25). Por esse motivo, Volf defende que, como uma religião profética, a fé cristã “será uma fé ativa, engajada com o mundo de maneira não coercitiva — oferecendo bênção aos nossos empreendimentos, conforto efetivo em nossos fracassos, orientação moral num mundo complexo e um contexto de significado para nossa vida e atividades”. (11)

6. O exercício do voto deve ser sábio e prudente. Considerando que nas democracias representativas a participação política se manifesta principalmente por meio do voto, este deve ser exercido com sabedoria e prudência. Afinal, trata-se de uma escolha que produz repercussões significativas.

O cristão é chamado a exercer o voto de maneira livre, consciente e coerente, com discernimento e responsabilidade, buscando promover o bem comum conforme os valores morais e espirituais que orientam sua fé. O voto deve ser precedido da avaliação dos candidatos e de suas propostas de governo. É legítimo e recomendável optar por aqueles que demonstrem princípios que estejam em consonância com os valores morais de proteção à vida, à família tradicional, à dignidade da pessoa humana e à defesa das liberdades, inclusive religiosa.

Uma vez que vender o voto é o mesmo que barganhar a própria consciência, a ética cristã condena essa prática. Além de revelar egoísmo (Gálatas 5.20), por visar apenas o benefício pessoal, tal conduta constitui também um ilícito eleitoral.

Conclusão

Podemos concluir este texto ressaltando que Jerusalém tem profunda relação com a vida política. A autoridade dos governantes, seja em Brasília ou em qualquer outra esfera de poder, procede de Jerusalém, a cidade de Deus. Além disso, sem a in­fluência cristã ao longo das eras e no tempo presente, o governo e a sociedade perdem a bússola moral que deve orientá-los.

Referências

(1) NASCIMENTO, Valmir. Entre a fé e a política. Rio de Janeiro: CPAD, 2018.

(2) ALTHUSIUS, Johannes. Política. São Paulo: Topbooks, 2013, p. 103

(3) NASCIMENTO, Valmir. Cosmovisão Pentecostal: desenvolvendo uma visão de mundo moldada pelo Espírito. Rio de Janeiro: CPAD, 2025.

(4) NIEBUHR, Richard H. Cristo e cultura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.

(5) SIQUEIRA, Gutierres Fernandes. Quem tem medo dos evangélicos? – religião e democracia no Brasil de hoje. São Paulo: Mundo Cristão, p. 71.

(6) VOLF, Miroslav. Uma fé pública: como o cristão pode contribuir para o bem comum. São Paulo: Mundo Cristão. Edição do Kindle, 2018, posição 1005.

(7) BECKWITH, F. Política, fé e separação entre igreja e estado. In: GEISLER, N.; MEISTER, C. (Ed.). Razões para crer: apresentando argumentos a favor da fé crista. Rio de Janeiro: CPAD, 2013, p. 135.

(8) GEISLER; MEISTER, 2013, p. 36.

(9) KOYSIS, David T. Visões e ilusões políticas: uma análise e cristã das ideologias contemporâneas. São Paulo: Vida Nova, 2014, p. 18.

(10) GONÇALVES, José. O carisma profético e o pentecostalismo atual: pressupostos para uma práxis carismática autêntica. Rio de Janeiro: CPAD, 2021, p. 93.

(11) VOLF, Miroslav. Uma fé pública: como o cristão pode contribuir para o bem comum. São Paulo: Mundo Cristão. Edição do Kindle, 2018, p. 1063.

por Valmir Nascimento

Compartilhe este artigo. Obrigado.

Deixe seu comentário

Seu comentário é muito importante

Postagem Anterior Próxima Postagem