Sem a influência cristã ao longo das eras e no tempo presente, o governo e a sociedade perdem a bússola moral que deve orientá-los
O que tem a ver Jerusalém com Atenas? Esta indagação foi feita por Tertuliano, um dos pais da igreja primitiva que viveu entre 160-220 d.C. Por meio desta pergunta, Tertuliano colocava em discussão o relacionamento entre a Teologia, representada por Jerusalém, e a Filosofia, identificada com Atenas, o berço do pensamento filosófico grego. O apologista tinha uma compreensão abrangente sobre as filosofias que criticava, e sua oposição à influência do conhecimento filosófico secular era resultado da intenção zelosa de proteger os fundamentos bíblicos e evitar as heresias.
Em nossos dias, é possível fazer uma pergunta semelhante: o que
tem Jerusalém a ver com Brasília? Em outras palavras, qual a relação entre a fé
cristã e a política? Esta é uma pergunta realmente importante para o
Cristianismo em geral e para o pentecostalismo em particular, sobretudo dentro
do contexto brasileiro. Nas últimas décadas, com o crescimento da população evangélica
no Brasil, o tema ganhou maior repercussão e a proximidade da igreja com a
política fez reacender a necessidade de reflexões teológicas mais profundas e
sofisticadas sobre este tema.
Inegavelmente, do ponto de vista da ciência política e sob os
fundamentos do Estado Democrático de Direito, os cristãos possuem ampla
liberdade e legitimidade para atuar na esfera política eleitoral. No âmbito da
cidadania, da pluralidade e dos direitos políticos, como qualquer outro segmento
social, os evangélicos podem (e devem) participar ativamente das disputas de
ordem política, tanto no sentido de votar conforme seus valores e princípios,
quanto no de exercer influência direta ou indireta sobre esse campo, desde que
não contrariem a legislação. O princípio da laicidade, tantas vezes invocado
como um mantra de neutralização da participação religiosa no espaço público,
não impede a relação entre religião e política, mas tão somente veda a
vinculação e a dependência entre Estado e Igreja enquanto entes jurídicos.
Contudo, como em qualquer outra área da vida humana, a
relação entre fé cristã e política precisa ser conduzida com cuidado, embasada
em fundamentos bíblicos e em uma teologia pública consistente, sob pena de
gerar escândalos e prejuízos sociais. Em meu livro Entre a Fé e a Política, (1)
adverti que a legitimidade democrática dos evangélicos não anula nossa
responsabilidade bíblica de sermos sal e luz (Mateus 5.13-14), exigindo cautela
nessa esfera. A conquista de espaço nas estruturas de poder e o reconhecido
peso político nas disputas eleitorais das últimas décadas devem ser exercidos com
zelo e discernimento, sob pena de sucumbir a diversos riscos, especialmente à
ambição de obter benefícios e privilégios em detrimento do bem comum, bem como
ao desejo de dominação política com base em visões teocráticas que colocam em
risco o princípio democrático e o verdadeiro papel da Igreja na Terra,
subvertendo sua missão espiritual (1 Pedro 2.9).
Para evitar tal ocorrência, o engajamento político cristão precisa
vir acompanhado de discernimento espiritual, alicerçado em um modelo de atuação
biblicamente fundamentado e socialmente coerente com as democracias
contemporâneas. Essa tarefa, que responde à pergunta que deu início a esta reflexão
(O que tem Jerusalém a ver com Brasília?), começa precisamente pela definição
e pelo alcance da política no mundo em que vivemos, bem como pela compreensão
da fé cristã como uma cosmovisão, uma visão de mundo abrangente. Essa cosmovisão
precisa, igualmente, estar alinhada a uma espiritualidade vibrante e não
meramente racionalista, que caracteriza o pentecostalismo – tradição a partir
da qual falamos.
Definindo os termos “política” e “cosmovisão”
Em virtude dos reiterados episódios de corrupção que marcam
a história do país, é comum restringir o sentido do termo “política” apenas ao
seu aspecto negativo, no âmbito da politicagem e dos jogos de interesse. Para uma
compreensão adequada, é necessário ir além da superfície e retornar ao significado
original do termo, compreendendo seu propósito elementar na vida em sociedade.
A palavra grega politikós, em sua essência, referia-se à arte de
governar a cidade ou ao conjunto de atividades relacionadas à vida na pólis,
tendo em vista o bem comum. Uma vez que a sociedade é composta por pessoas com interesses
e valores diversos, torna-se imprescindível organizar a vida em comunidade para
que ela seja ordenada, segura e pacífica.
Essencialmente, a política é a busca pela convivência pacífica
dentro da comunidade. Para tanto, ela envolve as relações entre as pessoas, o
exercício do poder e a promoção do bem coletivo. Como definiu Johannes
Althusius, “a política é a arte de unir os homens entre si para estabelecer
vida social comum, cultivá-la e conservá-la”. (2) De acordo com Althusius, a
causa final da política é o desfrute de uma vida confortável, profícua e feliz,
bem como do bem-estar comum, para que possamos levar, com piedade e honra, uma vida
sossegada e pacífica.
Portanto, visto que o homem é um ser gregário, criado para viver
em comunidade, a política é uma necessidade para a vida social. Embora o termo
tenha sido criado na filosofia grega, os elementos da política se encontram
presentes desde a formação do primeiro casal no Gênesis. Antes mesmo de
Aristóteles dizer que “o homem é um animal político”, a Bíblia revelava que o
homem foi criado como ser social e relacional: “Disse o Senhor Deus: Não é bom que
o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea para ele” (Gênesis 2.18).
Adão, o primeiro homem, e também o primeiro governante no reino terreno,
recebeu a incumbência de administrar a criação como mordomo. Deus deu a ele o
mandato (Gênesis 1.28; 2.15) que incluía governar a criação, preservar a vida,
usar os recursos de modo responsável e trabalhar para o bem-estar coletivo.
No sentido geral a política integra naturalmente a vida
humana e dirige as relações sociais. Ela está presente na família, no trabalho,
na igreja, no governo e em todos os ambientes em que haja interação humana. Destas
esferas, a política governamental, que engloba as disputas eleitorais, é
certamente aquela que mais evoca atenção, pois define o exercício do poder e a
administração pública em todos os níveis. Neste sentido, a política está
vinculada à concepção de democracia, enquanto exercício de poder pelo povo. Na
sociedade contemporânea, a democracia pode ser entendida como arranjos sociais
ou como estrutura jurídica que diz respeito a sistema de instituições, regras e
procedimentos que organizam e regulam a participação política, garantindo direitos,
liberdades, eleições livres e períodos de responsabilidade governamental. Dentre
suas características, as democracias contemporâneas assumem predominantemente a
forma de democracias representativas, nas quais o poder político é exercido por
representantes eleitos pelo povo, tendo como base a vontade expressa pela
maioria.
Nesse ambiente, a política é conduzida pela concorrência por
meio de processos que garantem às pessoas a efetiva participação por meio do
voto. Naturalmente, essa forma de política é marcada por tensões e intensos
debates, pois é nessa arena que ideologias, interesses e visões de mundo contraditórias
entram em choque. É sobretudo nesse nível, caracterizado por polarizações e disputas,
que mais se reflete sobre a relação do cristão com a política, buscando
estabelecer princípios bíblicos e teológicos para um engajamento cívico saudável
e um testemunho fiel como discípulos de Jesus.
Nesse ponto, vale também entender a vida cristã como uma
cosmovisão, isto é, como uma visão de mundo abrangente. Cristãos que geralmente
são despreocupados quanto ao tema da política e procuram se afastar destas
discussões no geral enxergam a fé como algo eminentemente espiritual, aplicável
ao “mundo da religião”. Contudo, se o Cristianismo diz respeito tão somente à
dimensão religiosa, perdemos de vista a revelação divina da soberania de Cristo
sobre todas as coisas, a Sua verdade que diz respeito a tudo e a integralidade da
vida cristã. Nesse sentido, devemos compreender a fé cristã como uma
cosmovisão, uma forma de ver e encarar toda a realidade criada, incluindo a
política.
Isso não significa que a fé cristã se reduza a um sistema
racional de pensamento; antes de tudo, trata-se de um conjunto de compromissos
que o cristão assume e que o conduz a viver sua fé de maneira intensa,
aplicando sua confiança em Cristo e os pressupostos bíblicos em tudo o que faz.
Sob uma perspectiva pentecostal, como escrevi em meu livro Cosmovisão
Pentecostal, (3) a cosmovisão, sob a dimensão pentecostal, é uma compreensão tácita
da realidade, caracterizada por uma ênfase especial na obra contínua e ativa do
Espírito Santo, na expectativa de experiências sobrenaturais e na centralidade da
Bíblia como autoridade final. Distingue-se por um enfoque vibrante e
experiencial da fé, destacando o papel vital da comunidade e do culto coletivo
no crescimento espiritual e na prática cristã. Essa cosmovisão molda a vida dos
crentes, orientando suas percepções sobre a realidade, a moralidade e o
propósito da vida, dentro de um quadro de compromissos que enfatiza a intervenção
divina contínua e a presença tangível de Deus no mundo atual.
Modelos de relacionamento entre fé e política
Ao longo da história do Cristianismo, diversos modelos de
relacionamento entre fé e política foram adotados. Uma forma didática de observar
esses diferentes tipos de abordagem e identificar aquele que melhor se adequa
às Escrituras e às características da tradição pentecostal, é recorrer às
categorias propostas por H. Richard Niebuhr (1894–1962) em sua obra clássica Cristo
e Cultura. (4) Niebuhr apresentou cinco tipos de relacionamento que os cristãos
mantiveram com a cultura ao longo da história, denominando-os: Cristo contra
a cultura, Cristo da cultura, Cristo acima da cultura, Cristo e cultura em
paradoxo e Cristo, o transformador da cultura. Tomando essa tipologia como referência,
pelo menos para fins conceituais e didáticos, é possível aplicá-la também às
diferentes formas como os cristãos se relacionam com a política. Assim, temos: Cristo
contra a política, Cristo da política, Cristo acima da política, Cristo e
política em paradoxo e Cristo, o transformador da política.
O primeiro modelo, Cristo contra a política, propõe
uma visão apolítica, marcada pelo desinteresse e pelo afastamento. Nessa
perspectiva, os cristãos devem manter-se distantes das discussões dessa
natureza, por considerarem a atividade política algo perigoso e mundano. Aliás,
por muito tempo, essa visão foi expressa na conhecida frase: “Crente não se envolve
com política, pois política é coisa do mundo”.
O segundo modelo, Cristo da política, situa-se no
extremo oposto, defendendo uma forma politizada da fé cristã. A política é vista
não apenas como necessária, mas como uma expressão do próprio Evangelho. Essa
perspectiva conduz ao entendimento de que a ordem política constitui uma
prioridade da missão da Igreja, o que pode levar à visão equivocada de que ela deve
dedicar-se à política em detrimento do evangelismo, do ensino da Palavra de
Deus e do cuidado das almas.
O modelo Cristo acima da política expressa, também de
forma radical, o entendimento de que a religião cristã deve exercer predomínio
sobre essa esfera. Considera a atividade política necessária como meio de implantação
do Reino de Deus na terra, o que leva à compreensão de que o governo deve impor
a religião, em especial quando o poder está nas mãos dos religiosos. Essa visão
é defendida notadamente pela chamada teologia do domínio, segundo a qual
os cristãos, por serem filhos de Deus, devem exercer domínio sobre todas as
esferas da sociedade, sobretudo a política. O grande problema hermenêutico (5)
desta visão é que ela não leva em conta a relação de continuidade e descontinuidade
entre os dois Testamentos.
Cristo e política em paradoxo é um modelo que compreende
a fé cristã em constante tensão com as questões terrenas, incluindo a vida
pública e governamental. Defende o envolvimento político do cristão, porém com
cautela, reconhecendo que o discípulo de Cristo possui dupla cidadania (Filipenses
3.20) e que há distinção entre o governo de Deus e o governo de César (Mateus
22.21). Em situações extremas, quando existir conflito entre a fé cristã e o
governo humano, o cristão deve obedecer a Deus (Atos 5.29).
Por fim, o modelo Cristo, o transformador da política
defende a participação ativa e consciente da comunidade cristã na esfera
pública. Os discípulos de Jesus devem envolver-se de forma cívica e sábia com
as questões de interesse coletivo, buscando influenciar positivamente a
sociedade em favor da pacificação e do bem comum. Nesses termos, o cristão é
chamado a exercer influência significativa sobre o governo, seja por meio do
voto, seja pela defesa de pautas alinhadas aos valores da Palavra de Deus.
Considerando esses modelos, a cosmovisão cristã, especialmente
nas linhas da tradição pentecostal, rejeita as visões extremas: tanto aquelas que
buscam afastar completamente o cristão da vida política quanto as que priorizam
a política em detrimento da missão espiritual da Igreja na Terra. O modelo Cristo
contra a política, por exemplo, ignora o fato de que os cristãos vivem
neste mundo e possuem responsabilidade social e deveres de cidadania, além de
não reconhecer o papel essencial da política como instrumento de convivência humana.
Da mesma forma, uma visão cristã verdadeiramente bíblica se distancia dos
modelos que supervalorizam a política ou buscam o predomínio pela busca do
poder, como é o caso de Cristo da política e Cristo acima da política.
Essas visões acabam por politizar o próprio Evangelho e colocar em risco a
missão espiritual confiada à Igreja.
Cada cristão, individualmente, como cidadão, deve exercer com
zelo e discernimento seus direitos cívicos, o que inclui o exercício do voto e,
eventualmente, a candidatura a um cargo eletivo, caso possua vocação pública,
como exemplificam José e Daniel. Contudo, não se deve fundir a fé cristã com
qualquer ideologia política, assim como a Igreja não deve buscar dominar o
mundo político, sob o risco de perder seu foco evangelizador e discipulador.
Desse modo, uma visão equilibrada do relacionamento entre a cosmovisão
cristã e a política envolve uma perspectiva de constante paradoxo e de influência
sábia, reconhecendo que sempre viveremos em tensão neste mundo. Isso não significa
adotar uma visão que busca transformar a sociedade apenas pela ação política, depositando
esperanças nessa esfera. Tal concepção ignora os efeitos da queda sobre o mundo,
bem como o caráter provisório da realidade presente, que aponta para o plano
escatológico de Deus.
A intenção de mudar o mundo pela religião, como instrumento cultural
de transformação, não como consequência de uma transformação individual, subverte
o propósito do evangelho e pode até mesmo levar ao autoritarismo e à violência.
Miroslav Volf captou esse risco ao dizer: “Se despojarmos as convicções cristãs
de seu conteúdo moral e cognitivo original e histórico e reduzirmos a fé a um
recurso cultural dotado com uma aura difusa do sagrado, em situações de conflito
provavelmente teremos violência inspirada e legitimada pela religião. Se nutrirmos
as pessoas com convicções cristãs enraizadas em seus textos sagrados,
provavelmente conseguiremos militantes pela paz”. (6)
Princípios bíblicos para o engajamento político
Embora as Escrituras não apresentem um modelo pronto de relacionamento
entre a fé e a política, elas oferecem princípios gerais que fundamentam a
cosmovisão cristã aplicada a esse campo e orientam a atuação do cristão nele.
Tais princípios nos auxiliam na elaboração de uma teologia aplicada à
participação política.
1. Todo poder emana de Deus. As democracias contemporâneas
partem do pressuposto de que todo poder emana do povo, que o exerce por meio de
representantes eleitos ou diretamente, conforme dispõe o art. 1”, parágrafo
único, da Constituição Federal do Brasil. Embora do ponto de vista jurídico
esse seja o elemento fundante da ordem política, a cosmovisão cristã estabelece
um fundamento ontológico mais profundo para a existência do poder e o exercício
das autoridades públicas. Os apóstolos Paulo (Romanos 13.1-3) e Pedro (1 Pedro
2.13-14) enfatizam que toda autoridade foi instituída por Deus. As autoridades constituídas
— reis, governantes, legisladores, magistrados e outros detentores de poder — receberam,
portanto, de Deus a delegação para exercer suas funções, seja para promover o
bem (como na instituição de políticas públicas, por exemplo), seja para coibir
o mal (por meio da aplicação da justiça e da punição dos criminosos).
Não importa o regime de governo, nem se o governante é
cristão ou não: o povo de Deus deve submeter-se a toda autoridade humana, pois
toda autoridade procede do céu. Dessa verdade decorre que atitudes de rebeldia,
revolução ou desrespeito à ordem pública são incompatíveis com a fé cristã. Por
princípio, o cristão é chamado a ser um cidadão exemplar; além de reivindicar seus
direitos, deve também ser consciente de seus deveres para com a sociedade e as
autoridades constituídas.
2. Estado e igreja possuem funções distintas, mas não antagônicas.
Jesus estabeleceu um princípio essencial para a relação do cristão com o
governo humano ao declarar: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o
que é de Deus” (Marcos 12.17). Essa afirmação foi proferida em resposta a uma pergunta
capciosa formulada por homens enviados pelos escribas e sacerdotes, que buscavam
incriminá-lo: “É lícito pagar tributo a César ou não?” (Marcos 12.14). Sabendo
da astúcia e da intenção dos seus interlocutores, Jesus não responde com uma
regra casuística, mas com um sábio princípio. Primeiro, toma em suas mãos uma
moeda romana da época e lhes pergunta: “De quem é esta efígie e esta
inscrição?”. Eles respondem: “De César”. Então, Jesus conclui: “Dai, pois, a César
o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.
Historicamente, o pensamento cristão tem entendido que a afirmação
de Jesus estabelece uma distinção entre o poder político e o Reino de Deus,
separando as esferas do Estado e da Igreja como entes distintos. A Igreja não
deve governar “o que é de César”, e o governo humano não deve interferir em “o
que é de Deus”, ao mesmo tempo em que se ressalta a responsabilidade do homem em
prestar a cada um a devida obediência. Contudo, a declaração de Jesus não
institui uma separação absoluta e autoexcludente que inviabilize a relação
cooperativa entre as jurisdições estatal e religiosa.
A própria pergunta de Cristo acerca da imagem na moeda contém
implicações subjacentes que direcionam para a soberania divina, como bem
lembrou Francis Beckwith. A outra pergunta implícita que deve ser respondida é:
quem tem em si a imagem de Deus? “Se a moeda representa a autoridade de César,
porque tem nela sua imagem, então, nós, seres humanos, estamos sob a autoridade
de Deus, porque temos em nós a sua imagem”. (7) Assim, “o governo e a igreja,
apesar de terem jurisdições distintas, partilham da obrigação comum de promover
o bem-estar daquele que são feitos à imagem de Deus”. (8)
Portanto, à luz dessa hermenêutica, não é possível sustentar
um modelo de relacionamento entre Estado e Igreja em que o poder religioso se
confunda com o poder político, como ocorre nos regimes teocráticos. Da mesma forma,
é inconcebível o modelo laicista, que busca a exclusão completa da participação
religiosa do processo político. A melhor forma de equilibrar a relação entre
essas esferas é por meio da laicidade cooperativa, em que cada uma mantém sua
autonomia, mas podem atuar de maneira colaborativa em prol do bem comum. Por
exemplo, observa-se a relevância da Igreja nas áreas educacional, social, econômica
e de segurança pública (como na ressocialização de ex-criminosos), bem como a
importância do Estado em garantir o exercício dos direitos fundamentais, entre
eles a própria liberdade religiosa.
3. A política é importante, mas a esperança cristã não
está centrada nela, e sim em Deus. A cosmovisão cristã enxerga a política
como um instrumento, e nunca como um fim. Ela é importante, como vimos, para a
vida em sociedade enquanto aguardamos a consumação de todas as coisas. No
entanto, a política não possui caráter redentor nem é capaz de instaurar o
paraíso na Terra. Trata-se de um mecanismo de boa administração em um mundo caído,
por meio do qual buscamos a paz da cidade (Jeremias 29.7), mas que certamente
não constitui o fundamento da esperança cristã.
O Cristianismo bíblico, portanto, não contempla a política,
os políticos ou o Estado com os olhos da esperança. A ideia de política como
esperança se apoia em uma visão utópica e progressista da sociedade, destoando das
Sagradas Escrituras. O cristão valoriza a política, mas não deposita nela sua
esperança última. A esperança cristã está firmemente centrada em Deus, por meio
de Cristo (Jeremias 17.7; 1 Pedro 1.3; Colossenses 1.27).
4. A cosmovisão cristã não depende e não se confunde com
qualquer ideologia política. A postura cristã em relação à política parte
da revelação de Deus e se dirige para o exercício da mordomia em relação à
criação. A cosmovisão cristã, por essa razão, não equivale e não se dirige por
qualquer ideologia política; afinal, toda ideologia é uma forma do pecado da
idolatria (Êxodo 20.3-5). Nas palavras de Koyzis, “como as idolatrias bíblicas,
cada ideologia se fundamenta no ato de isolar um elemento da totalidade criada,
elevando-o acima do resto da criação e fazendo com que esta orbite em torno desse
elemento e o sirva. A ideologia também se fundamenta no pressuposto de que esse
ídolo tem a capacidade de nos salvar de um mal real ou imaginário que há no
mundo”. (9) Conforme David Koyzis, as ideologias deificam algo dentro da
criação de Deus, baseando-se, cada qual, em uma soteriologia específica que distorce
a realidade. Ocorre que, na perspectiva da ética cristã, não somente objetos criados
são considerados ídolos, mas tudo aquilo que assume a primazia na vida de
alguém e direciona a sua forma de viver. A. W. Tozer dizia que “um ídolo na
mente é tão ofensivo a Deus quanto um ídolo na mão”.
É possível afirmar que, dentro do quadro dos espectros políticos,
para identificar como cada pessoa se posiciona em relação a diversos temas –
como liberdade, igualdade, justiça social, vida e família, entre outros –, é comum
recorrer à classificação por tipos de ideologias políticas, que definem a
orientação do indivíduo, variando, conforme a formulação adotada, da direita à esquerda,
passando pelo centro. Também é inegável reconhecer que a fé cristã ortodoxa
está alinhada à defesa de valores conservadores, como a valorização da vida, da
família tradicional, da sexualidade definida em termos naturais e biológicos, e
da liberdade religiosa, entre outros. Ao mesmo tempo, sustenta princípios de
solidariedade fundamentados no amor, na ajuda aos necessitados e na luta contra
as injustiças (João 13.34-35; Provérbios 19.17). Todas essas e outras diretrizes
decorrem diretamente dos pressupostos bíblicos que estruturam a cosmovisão
cristã e levam o cristão a enxergar sua relação com o mundo a partir de
premissas teológicas basilares que apontam para a criação, a queda, a redenção,
a renovação e a glorificação. Contudo, a postura política cristã não deve emergir
de ideologias, uma vez que estas representam falsas interpretações da realidade
e tendem a conduzir a uma atitude cega e beligerante no contexto das disputas
políticas.
5. A presença política dos cristãos deve ser cristocêntrica
e profética. Por fim, a cosmovisão cristã conduz o crente a uma
participação cristocêntrica e profética. Ela é cristocêntrica porque a vida do
cristão, em todas as áreas, deve glorificar e testemunhar de Cristo, inclusive
no ambiente político. A tradição pentecostal expressa essa verdade por meio de
suas declarações clássicas: Jesus salva, santifica, batiza com o Espírito Santo,
cura e em breve voltará para reinar. Além do aspecto eminentemente espiritual,
esses elementos também orientam o engajamento político da comunidade cristã, ao
enfatizar que somente Jesus é o Salvador (não o candidato, o partido ou o Estado);
que devemos viver de modo ético e íntegro mesmo neste mundo; que somos capacitados
para testemunhar na sociedade; que podemos ser canais de bênção e cura,
inclusive no âmbito social; e que aguardamos, com esperança, o retorno do Rei
Jesus.
A participação profética nos recorda do profetismo bíblico e
sua função político-social (Isaías 1.23; Jr 22.3; Malaquias 3; Zacarias 7.9; Amós
5.11). José Gonçalves (10) destaca que os profetas veterotestamentários
possuíam importante função social e moral. A ética social prescrita pelos
profetas apresentava-se como uma moralidade de (1) natureza solidária; (2) administrativa,
ao denunciar as extravagâncias reais; (3) imparcial e (4) igualitária. Diante
disso, uma política profética primeiro reconhece e anuncia que as lealdades
para o Estado são secundárias às fidelidades para Deus. Em segundo lugar, uma política
profética desafiará o Estado a fazer o que se supõe fazer: respeitar a lei. Em
terceiro lugar, a política profética dos crentes habilitados pelo Espírito inclui
uma testemunha explícita na praça pública, a exemplo da defesa de Paulo perante
Félix (Atos 24), oportunidade em que, além do testemunho de Cristo, discutiu
sobre “justiça, e da temperança, e do Juízo vindouro” (v. 25). Por esse motivo,
Volf defende que, como uma religião profética, a fé cristã “será uma fé ativa,
engajada com o mundo de maneira não coercitiva — oferecendo bênção aos nossos
empreendimentos, conforto efetivo em nossos fracassos, orientação moral num
mundo complexo e um contexto de significado para nossa vida e atividades”. (11)
6. O exercício do voto deve ser sábio e prudente. Considerando
que nas democracias representativas a participação política se manifesta
principalmente por meio do voto, este deve ser exercido com sabedoria e
prudência. Afinal, trata-se de uma escolha que produz repercussões significativas.
O cristão é chamado a exercer o voto de maneira livre,
consciente e coerente, com discernimento e responsabilidade, buscando promover
o bem comum conforme os valores morais e espirituais que orientam sua fé. O
voto deve ser precedido da avaliação dos candidatos e de suas propostas de governo.
É legítimo e recomendável optar por aqueles que demonstrem princípios que estejam
em consonância com os valores morais de proteção à vida, à família tradicional,
à dignidade da pessoa humana e à defesa das liberdades, inclusive religiosa.
Uma vez que vender o voto é o mesmo que barganhar a própria consciência,
a ética cristã condena essa prática. Além de revelar egoísmo (Gálatas 5.20), por
visar apenas o benefício pessoal, tal conduta constitui também um ilícito
eleitoral.
Conclusão
Podemos concluir este texto ressaltando que Jerusalém tem profunda
relação com a vida política. A autoridade dos governantes, seja em Brasília ou em
qualquer outra esfera de poder, procede de Jerusalém, a cidade de Deus. Além
disso, sem a influência cristã ao longo das eras e no tempo presente, o
governo e a sociedade perdem a bússola moral que deve orientá-los.
Referências
(1) NASCIMENTO, Valmir. Entre a fé e a política. Rio
de Janeiro: CPAD, 2018.
(2) ALTHUSIUS, Johannes. Política. São Paulo:
Topbooks, 2013, p. 103
(3) NASCIMENTO, Valmir. Cosmovisão Pentecostal:
desenvolvendo uma visão de mundo moldada pelo Espírito. Rio de Janeiro:
CPAD, 2025.
(4) NIEBUHR, Richard H. Cristo e cultura. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.
(5) SIQUEIRA, Gutierres Fernandes. Quem tem medo dos
evangélicos? – religião e democracia no Brasil de hoje. São Paulo: Mundo
Cristão, p. 71.
(6) VOLF, Miroslav. Uma fé pública: como o cristão pode
contribuir para o bem comum. São Paulo: Mundo Cristão. Edição do Kindle,
2018, posição 1005.
(7) BECKWITH, F. Política, fé e separação entre igreja e
estado. In: GEISLER, N.; MEISTER, C. (Ed.). Razões para crer: apresentando
argumentos a favor da fé crista. Rio de Janeiro: CPAD, 2013, p. 135.
(8) GEISLER; MEISTER, 2013, p. 36.
(9) KOYSIS, David T. Visões e ilusões políticas: uma
análise e cristã das ideologias contemporâneas. São Paulo: Vida Nova, 2014,
p. 18.
(10) GONÇALVES, José. O carisma profético e o
pentecostalismo atual: pressupostos para uma práxis carismática autêntica.
Rio de Janeiro: CPAD, 2021, p. 93.
(11) VOLF, Miroslav. Uma fé pública: como o cristão pode
contribuir para o bem comum. São Paulo: Mundo Cristão. Edição do Kindle,
2018, p. 1063.
por Valmir Nascimento
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