Os capítulos 1 a 11 de Gênesis são texto poético ou histórico?

Os capítulos 1 a 11 de Gênesis são texto poético ou histórico?


Que dizer sobre o argumento de que o início de Gênesis deve ser lido poeticamente e não interpretado literalmente?

É pertinente a expressão de Hansjörg Bräumer quando se refere ao Pentateuco: “No começo da Bíblia, a Escritura Sagrada de Deus, encontramos uma obra de história em cinco partes. Seus onze primeiros capítulos descrevem a história da humanidade, assim chamada pré-história, e depois relata a história de Israel até a morte de Moisés”. É compreensível que o conteúdo de Gênesis 1-11 tenha sido transmitido por muito tempo de forma oral, mas logo foi registrado quando da permanência do povo de Deus no Egito. O leitor deve estar consciente de que, antes de Israel tomar posse da terra prometida por Deus, iria entrar em um mundo que já tinha conhecimento da escrita há dois mil anos – isso era válido para o Egito, a Mesopotâmia e a Palestina. Sabe-se que em Canaã havia um local chamado “cidade dos livros”, Quiriate-Sefer. Assegura-se que Abraão vivia em uma cultura na qual a escrita já era desenvolvida, de modo que ele sabia ler e escrever. Moisés e boa parte dos israelitas sabiam ler e escrever; e Moisés ainda aprendeu no Egito, que naquele tempo já dispunha de um alfabeto de aproximadamente 26 letras.

Gênesis é posto em grandes debates quanto à sua natureza literária, que não envolve apenas o aspecto estético e acadêmico, mas também o epistemológico, o teológico e o doutrinário. Ao se interpelar sobre se Gênesis é poético ou histórico, está a se de determinar não somente como lemos o texto, mas também como entendemos a pessoa de Deus, a revelação, o pecado, a queda, a redenção, bem como a própria autoridade das Sagradas Escrituras.

O que acontece é que aqueles que buscam propor a leitura de Gênesis, em especial dos capítulos 1-11, apenas de modo poético ou simbólico fazem isso com a intenção de relacionar a Bíblia com paradigmas científicos contemporâneos ou pressupostos críticos modernos. Isso é por demais perigoso, pois gerará problemas exegéticos, hermenêuticos, canônicos e teológicos. Partindo do ponto de vista da hermenêutica bíblica e histórica, o princípio que sempre prevalece é o de que a leitura do texto deve ser interpretada de acordo com o seu gênero literário real, e não segundo expectativas externas ao texto (sensus literalis historicus). Os que procuram confirmar que Gênesis deve ser lido de forma poética dizem que o capítulo 1 apresenta uma estrutura de repetição — “Viu Deus que era bom” —, que há uma linguagem elevada e teológica, que o texto busca dialogar com os mitos do Antigo Oriente Próximo e que ele não deve ser lido como relato histórico, mas poético. Esses argumentos apresentados confundem estilo elevado com gênero poético, o que constitui um erro metodológico muito grave.

Vale ressaltar que em Gênesis 1-11 não se tem a presença dos marcadores da poesia hebraica. Há ausência de paralelismo poético sistemático em Gênesis, o que era comum na poesia hebraica, como em Salmos, Provérbios e Jó. O que é muito comum em Gênesis são os verbos consecutivos marcados pelo wayyiqtol, típicos de narrativa histórica, e a sequência temporal clara: “tarde e manhã”, “primeiro dia [...] segundo dia”.

Contra a leitura meramente poética de Gênesis 1-11, tem-se o testemunho do Cânon. Sabemos que Jesus tratou o livro de Gênesis como histórico e real (Marcos 10.6). O apóstolo Paulo fundamentou doutrinas históricas - por exemplo, o pecado original e a redenção - em Gênesis (Romanos 5.13-19; 1 Coríntios 15.21,22). Adão é apresentado por Paulo como um ser real, pois, se não for assim, o pecado perderia seu fundamento histórico, haveria um colapso na dita tipologia entre Adão e Cristo, e toda a soteriologia paulina seria fragmentada.

Portanto, não aceitamos a leitura dos primeiros capítulos de Gênesis 1-11 como sendo apenas poética, porque traria a relativização da história bíblica, a subordinação da revelação divina à ciência naturalista, uma ruptura da unidade bíblica e a total fragilização da doutrina do pecado, da redenção e da autoridade das Escrituras.

Referências

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LOPES, Hernandes Dias. Gênesis: o livro das origens. São Paulo: Hagnos, 2011.

STOTT, John. A cruz de Cristo. São Paulo: Vida Nova, 1991.

WALTKE, Bruce K. Uma teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2006.

por Osiel Gomes

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