“Ato profético” e distorção da profecia

“Ato profético” e distorção da profecia


Eu já havia me deparado com o termo “ato profético”, mas não com a mesma constância com a qual tenho ouvido nesses últimos dias. Na premissa, talvez, de provocar mais êxtase nas massas, muitos acabam usando o termo — de forma intencional ou não — sem fazer uma análise mais profunda à luz das Sagradas Escrituras.

Quando nos referimos ao profetismo dentro do contexto da Bíblia Sagrada, precisamos atentar para algumas características e particularidades que são importantes para entendermos qual é a função e o objetivo da profecia tanto no Antigo quanto no Novo Testamentos, bem como compreender o que é o dom de profecia e como ele se desenvolve na Igreja.

O profeta, em um significado bastante popular, é um enviado, aquele que fala em nome de outrem. O Dicionário Bíblico Wycliffe diz que a palavra “profeta” é “derivada do termo grego prophetes, ‘aquele que fala sobre aquilo que está por vir [ou adiante]’, um proclamador ou intérprete da revelação divina (Arndt, p. 730). Ela geralmente se refere àquele que age como porta-voz. Às vezes também é sinônimo de ‘vidente’ ou ‘pessoa inspirada’, e traz a conotação de um prenunciador ou revelador de eventos futuros”.

Dentro do contexto bíblico, foram muitas as situações em que Deus levantou determinadas pessoas para serem Seus porta-vozes junto ao povo. O Dicionário Wycliffe, ainda sobre o termo “profeta”, declara que estes “eram homens a quem Deus criou para declarar a sua vontade à nação”. Destaca-se, portanto, a grande responsabilidade e o caráter do homem a quem o Senhor dava essa missão.

Outro fator importante sobre o profetismo em Israel é que esse ofício se encerrou com João Batista (Lucas 16.16). A partir de então, temos eventos como o do profeta Ágabo, que profetizou especificamente sobre a prisão e o sofrimento do apóstolo Paulo por causa do evangelho (Atos 21.10-12).

A partir daí, o que temos é o ministério de profeta e o dom de profecia, conforme descrito pelo apóstolo Paulo aos irmãos em Corinto (1 Coríntios 12.10,28), que, por sua vez, cumprem pelo menos três funções, conforme a Palavra de Deus (1 Coríntios 14.3):

1. Exortar – Com o objetivo de animar e encorajar os ouvintes, a palavra profética proveniente de Deus fortalece a vida daquele que está desorientado e cabisbaixo. O caso de Josué, diante da grande tarefa de substituir Moisés e conduzir o povo à Terra Prometida, é um bom exemplo disso. Em meio ao desânimo, Deus o exortou, dizendo: “Não to mandei eu? Esforça-te e tem bom ânimo; não temas, nem te espantes, porque o Senhor teu Deus é contigo, por onde quer que andares” (Josué 1.9).

2. Consolar – “Portanto, consolai-vos uns aos outros com estas palavras” (1 Tessalonicenses 4.18). As palavras de Paulo à igreja de Tessalônica ilustram muito bem esse caráter da mensagem profética. Em meio às turbulências da vida, Deus se utiliza de Seus servos para trazer consolo àqueles que carecem.

3. Edificar – “O que fala em língua desconhecida edifica-se a si mesmo, mas o que profetiza edifica a igreja” (1 Coríntios 14.4). Estamos muito acostumados a receber uma profecia que nos console e anime, mas nem sempre estamos prontos para ouvir uma mensagem que, apesar de dura, nos edifique. Um amadurecimento sadio é efeito de uma edificação diária pela Palavra de Deus.

Com o advento do neopentecostalismo a partir da década de 1970, surgiu uma nova maneira de compreender o pentecostalismo, trazendo consigo uma série de novidades e rituais que divergem das doutrinas bíblicas apresentadas e ensinadas pela igreja tradicional. O neopentecostalismo trata-se de “uma vertente que congrega igrejas oriundas do pentecostalismo clássico, ou mesmo das denominações protestantes e evangélicas tradicionais, como batistas, metodistas e presbiterianas” (ARAÚJO, 2014, p. 505). Esse movimento começou, de fato, nos Estados Unidos, que foi um dos principais responsáveis pela propagação de mensagens cujos principais enfoques eram a teologia da prosperidade e a confissão positiva. A ênfase em mensagens voltadas para o homem como centro das atenções é uma das principais marcas desse movimento, o que, consequentemente, gera um crescimento numérico vantajoso.

Um dos grandes problemas desse novo pentecostalismo é a ausência da exposição sistemática da Palavra de Deus. Não há estudos bíblicos regulares nem cultos voltados ao ensino das Sagradas Escrituras. Todas as programações da igreja são direcionadas para uma determinada temática que, por sua vez, busca atender a alguma necessidade do público que a frequenta. Além disso, enfatiza-se geralmente a existência de uma suposta maldição hereditária como entrave para as bênçãos de Deus na vida do crente, bem como a necessidade de resolvê-la para que haja a superação de todos os obstáculos da vida.

Foi nessa tentativa de solucionar os problemas de seus adeptos que surgiu também a prática do “ato profético”. Cria-se um ritual para que as pessoas declarem, seja por palavras ou por ações, aquilo que desejam fazer ou conquistar. O ato profético é muito comum em nossos dias, especialmente em comunidades neopentecostais, mas já pode ser observado também em igrejas consideradas, até pouco tempo, conservadoras.

A grande questão do “ato profético” é que ele, de certa maneira, sugere a obtenção de uma vida próspera por meio da declaração verbal, como se fosse uma profecia para si mesmo, ignorando aspectos fundamentais para uma vida plena diante de Deus, como a centralidade da Palavra e a prática da oração. Em outras palavras, é como se bastasse apenas afirmar algo, por meio de atos ou palavras, para que as coisas tomem novas proporções em nossas vidas. No entanto, a Palavra de Deus nos revela tudo o que precisamos para viver o sobrenatural do Senhor.

Dito isso, concluo este texto levantando duas perguntas importantes: o que leva as pessoas a acreditarem que um ato profético pode transformar suas vidas, e não viver o evangelho? Por que se submeter a um ritual para declarar isto ou aquilo, se Cristo já levou sobre si as nossas dores e enfermidades (Isaías 53.4-6)?

Além disso, é importante ressaltar que a igreja não precisa aderir a movimentos como esse para desfrutar da bênção de Deus. Pelo contrário, ela precisa se voltar para a Sua Palavra e praticar a vontade de Deus no cotidiano. Quando nos dispomos a obedecer à Palavra, orando em todo tempo e trabalhando em prol dos propósitos do Reino, Ele abre portas e faz com que as coisas aconteçam para a Sua glória.

Referências

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. 2ª edição. Rio de Janeiro: CPAD, 2014.

PFEIFFER, Charles F. Dicionário Bíblico Wycliffe. 5ª edição. Rio de Janeiro: CPAD, 2009.

por Edeilson Santos

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