Em meio a conflitos e incertezas, a Igreja observa, ora e permanece fiel
Irã e Venezuela: o que estes dois países, distantes geograficamente, têm em comum na história recente? A resposta é: a incerteza sobre o futuro, em razão dos momentos decisivos que atravessam.
Desde o fim de dezembro do ano passado, inicialmente motivada
por queixas econômicas, uma onda de protestos populares tomou conta das ruas do
Irã. Especialistas consideram a situação como um dos maiores desafios ao regime
teocrático desde a Revolução de 1979, com número de mortos que pode chegar a 12
mil, segundo o canal de mídia Iran International. Há ainda outros
milhares de detidos em confrontos com forças de segurança e sinais de desalento
diante de uma repressão cada vez mais violenta.
Os manifestantes pedem o fim da dominação clerical dos
aiatolás, representada pelo líder supremo Ali Kammenei, e mudanças profundas.
Em repressão, as forças iranianas confiscaram antenas Starlink em meio a um
bloqueio quase que total de internet e da mídia no país e também ameaçam executar
manifestantes detidos — cenário que alimenta dúvidas sobre até onde o movimento
pode ir e quais repercussões reais terá no tecido político iraniano e na
região.
Já na Venezuela, o anúncio da captura do ditador Nicolás Maduro
e de sua esposa, Cilia Flores, por forças dos Estados Unidos, capitaneada pelo
presidente Donald Trump no início de janeiro, desencadeou uma mistura de
esperança, apreensão e confusão dentro e fora do país.
Para muitos venezuelanos e milhões de expatriados que acompanharam
a crise econômica, a repressão às liberdades civis e a contínua deterioração
social das últimas décadas, a queda de Maduro representa um possível ponto de
virada. Há quem celebre a perspectiva de uma nova página política, enquanto
outros temem um vazio de poder, uma administração externa ou um prolongado
período de instabilidade e conflito, sem garantias de que a vida cotidiana vá
melhorar.
Nos dois países, um grupo que observa com atenção especial —
com fé e oração — é o das comunidades cristãs. No Irã, onde minorias religiosas
enfrentam uma combinação de discriminação jurídica e pressão social, o clima de
instabilidade exacerba dúvidas sobre liberdade religiosa e segurança pessoal.
Em nota publicada, a organização Portas Abertas afirmou que a
“onda de protestos aumenta os riscos para os cristãos no Irã. As manifestações
tomaram as ruas como reflexo das pressões econômicas e desafios de subsistência
no país. Sem locais de culto autorizados pelo governo, o desejo de cristãos de
língua persa por mudança é profundo. Mas o contexto de instabilidade deixa os
cristãos perseguidos ainda mais vulneráveis”. O Irã ocupa a 10ª posição na
Lista Mundial da Perseguição 2026, divulgada em janeiro pela Portas Abertas,
que reúne os 50 países onde cristãos são mais perseguidos por causa da fé em
Jesus.
Sobre o envolvimento dos cristãos nos protestos, a organização
informa que eles têm participado de diferentes formas: “Seja diretamente nas
ruas ou firmes em oração e solidariedade, o envolvimento dos cristãos nas manifestações
acontece antes de tudo como cidadãos iranianos”.
No caso da Venezuela, líderes religiosos têm feito apelos públicos
por paz, reconciliação e sabedoria em meio ao choque político, ao mesmo tempo em
que incentivam os fiéis a buscar esperança e estabilidade espiritual em meio ao
turbilhão de incertezas.
Diante do quadro, mesmo com a aparente mudança para melhor,
há quem se mantém receoso quanto ao que pode acontecer, como é o caso de um
pastor nativo no país, que não quis se identificar temendo represálias. Ele conta
que “a igreja tem operado principalmente de forma on-line para evitar grandes
aglomerações, mas está totalmente ativa nas casas, orando pela situação no país,
visto que o governo ativou uma lei que lhes confere poder absoluto e não há
garantias, sendo prudente evitar reuniões com grande número de pessoas”.
O pastor diz que a maioria das pessoas esperava que removessem
Nicolás Maduro e colocassem outra pessoa no comando, mas, na opinião dele,
“isso teria sido muito pior, pois eles detêm o poder absoluto, tornando quase impossível
governar e, potencialmente, poderia levar a uma guerra interna”. Ele considera
que a ação tomada pelos Estados Unidos foi a mais apropriada. Outro ponto destacado
por ele é que, como a maioria das pessoas que trabalham no país ocupa cargo em
alguma organização ou empresa estatal, não pode se expressar livremente.
“Oramos para que não haja perseguição ou violência contra o povo, que está
realmente cansado disso tudo”, apela o pastor.
Em contrapartida, há quem considere a situação favorável. É o
caso de outro missionário ouvido pelo Mensageiro da Paz, que, mesmo otimista,
também prefere não se identificar. “A Venezuela está passando pelo melhor momento
de todos os tempos, após a captura de Nicolás Maduro. Agora, os venezuelanos
esperam a libertação do país, de uma vez por todas, desse regime opressivo”, diz
o obreiro, que faz um apelo: “Pedimos que os irmãos sigam intercedendo por nós
que aqui estamos, pois, ainda que sejam dias difíceis, cremos que o Senhor seguirá
nos dando a graça e a fortaleza necessárias para continuar fazendo a Sua obra”.
Do outro lado de uma das fronteiras, o município brasileiro
de Pacaraima (RR), localizado entre o Brasil e a Venezuela, fazendo divisa
direta com Santa Elena de Uairén, é a principal porta terrestre de entrada de
venezuelanos e um dos pontos mais estratégicos da crise migratória, com grande concentração
de migrantes, que fogem da fome, da violência e do colapso econômico.
Nesse cenário, segundo o pastor Milton Carvalho, presidente
da Convenção de Ministros e Igrejas das Assembleias de Deus no Estado de
Roraima (Comader), os venezuelanos em terras roraimenses têm manifestado um
misto de opiniões e sensações. O líder, que também é 5º secretário da Convenção
Geral dos Ministros das Igrejas Evangélicas Assembleia de Deus do Brasil
(CGADB), comenta: “Como não se tem uma percepção clara do que pode acontecer,
pois, pelo visto, o que interessa aos Estados Unidos são as riquezas naturais
da Venezuela, as expectativas não têm sido animadoras. No dia da captura de
Maduro, vimos os venezuelanos comemorando, mas, no dia seguinte, em razão das
incertezas, o ânimo descaiu. A nossa oração é para que haja maior liberdade e
que a perseguição cesse, pois muitos pastores vivem tutelados pelo regime,
tomando todos os cuidados para não sofrerem represálias por pregar a Palavra”.
O pastor Milton Carvalho diz que, em razão disso, ainda não percebeu
manifestações de interesse de retorno ao país por parte dos crentes
venezuelanos que congregam na Assembleia de Deus em Roraima. “Eles estão aguardando
os desdobramentos. Mas muitos deles, creio eu, nem voltarão mais, pois já estão
bem estabelecidos no Brasil”, conclui.
As expectativas, tanto dos iranianos quanto dos venezuelanos,
variam: há quem veja nestes eventos o prenúncio de uma transformação histórica,
capaz de abrir espaço para direitos civis mais amplos e maior participação
democrática; há também quem tema que o resultado seja mais violência,
instabilidade e interferência externa. Entre as incertezas que dominam o imaginário
coletivo estão questões como: quem realmente tomará as rédeas do poder? Quais
reformas serão implementadas? Como as minorias religiosas e os mais vulneráveis
serão protegidos num cenário pós-crise? — dúvidas que não têm respostas claras neste
início de 2026.
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