Apego à inteligência artificial pondo em risco as relações familiares

Apego à inteligência artificial pondo em risco as relações familiares


A Inteligência Artificial (IA) tem protagonizado uma verdadeira revolução na forma como a sociedade se desenvolve. Do compartilhamento de informações sem fronteiras (web) ao planejamento de deslocamentos (GPS), do bate-papo entre amigos (WhatsApp) à possibilidade de cirurgias remotas (Toumai Microport), do acesso aos fatos do dia a dia (Facebook/Instagram/YouTube) ao estudo formal (AVA/Classroom), dos leitores virtuais (Kindle) ao que há de mais impressionante na IA generativa (ChatGPT/Gemini). Enfim, inúmeras são as possibilidades e os benefícios para as nossas vidas. Porém, se a IA deixar de ser um “meio” e passar a ser tratada como um “fim”, os prejuízos serão inevitáveis e as consequências, catastróficas.

Hoje, o que vemos é o enfraquecimento das relações humanas (principalmente familiares) e um crescente distanciamento entre aqueles que deveriam andar lado a lado. A IA deveria nos proporcionar benefícios, mas, em muitas áreas, acontece exatamente o contrário. Abrimos as portas de nossas casas para as novas tecnologias; porém, o que ocorre é um apego inconsequente à IA e um progressivo silenciamento das vozes, dos sentimentos e do envolvimento com aqueles que amamos.

Paulo nos ensina que “sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição” (Colossenses 3.14). A IA não é um problema se vista como uma ferramenta (um “meio”); porém, quando as pessoas se apegam a ela, tratando-a como um “fim”, um “lugar” do qual não mais se sai, acontece um esfriamento do amor e um distanciamento entre as pessoas. As conversas não mais acontecem, os conselhos não são mais partilhados, os diálogos são suprimidos e os laços se fragilizam.

Podemos dizer que o simples “uso” da IA é muito bom e traz grandes benefícios (como citado no início deste texto); porém, o apego — que pode se tornar uma dependência doentia — a esses recursos cria uma situação que está deixando cada vez mais pesquisadores, educadores, líderes cristãos e pais preocupados: as relações humanas, com ênfase nas familiares, estão cada vez mais enfraquecidas e, segundo Bauman, diante dos efeitos da pós-modernidade, tornam o que era sólido e estável em algo imprevisível e frágil. O pastor Jamiel Lopes reforça que esses ataques surgem de diversas áreas, entre elas as mídias, a internet e as redes sociais, levando à substituição da verdade e dos valores morais e espirituais pelo engano e pelo relativismo.

Tanto adultos quanto crianças e adolescentes estão em crescente dependência do mundo digital. Um estudo realizado pelo Unicef apontou que um terço dos usuários de internet no mundo era composto por crianças e adolescentes. Já o CETIC, em 2021, indicou que 93% do público entre 9 e 17 anos era de usuários da internet (dados divulgados pelo CNJ). Segundo a FGV, em pesquisa realizada pela TIC Kids Brasil em 2023, 88% afirmaram ter perfis em redes sociais, sendo que a preferida dos que têm de 15 a 17 anos é o Instagram; já entre os que têm de 9 a 11 anos, são o YouTube e o TikTok. Essa geração hiperconectada está sendo severamente prejudicada em diversas áreas, desde a aprendizagem até as relações sociais e a espiritualidade.

A BBC, em 2020, trouxe os resultados de pesquisas de neurocientistas, entre eles o francês Michel Desmurget, apontando que a “Geração Digital” está se tornando a primeira da história a ter um Quociente de Inteligência (QI) inferior ao da geração anterior, a dos pais. Entre as causas prováveis desse fenômeno estão a alta exposição às telas, que afeta linguagem, concentração, memória e desempenho acadêmico, diminuindo atividades enriquecedoras e, lamentavelmente, sabotando as interações familiares.

Segundo a Declaração de Fé das Assembleias de Deus, os pais têm grande responsabilidade sobre a educação dos filhos. A seguir, alguns princípios que farão grande diferença: criem momentos em que nenhum dispositivo eletrônico esteja presente e aproveitem o “tempo de qualidade”, priorizando um momento devocional e o tempo em família; valorizem momentos de diálogo com seus cônjuges, filhos e outras pessoas queridas; como pais, deem bons exemplos, pois, se forem prudentes no uso das novas tecnologias, os filhos certamente os seguirão.

As nossas famílias são estruturas criadas por Deus; nelas, a fé cristã floresce com vigor. O pastor Alexandre Coelho destaca que o evangelho torna os pais mais comprometidos na criação dos filhos e no fortalecimento do vínculo matrimonial. Malaquias 4.6 declara que, se buscarmos a Deus, o coração de pais e filhos convergirá e glorificará ao Senhor, não permitindo obstáculos para que a bênção do Senhor esteja sobre nossas vidas. Enfim, usemos a IA para a glória de Deus (1 Coríntios 10.31b).

Referências:

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

BBC News Brasil (bbc.com) em 30 de outubro 2020.

Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 1995.

COELHO, Alexandre. O Padrão Bíblico para a Vida Cristã. Rio de Janeiro: CPAD, 2024.

Conselho Nacional de Justiça (cnj.jus.br) em 5 de maio de 2023.

Declaração de Fé das Assembleias de Deus. Rio de Janeiro: CPAD, 2025.

Fundação Getúlio Vargas (portal.fgv.br) em 08 de abril de 2024.

LOPES, Jamiel. Psicologia Pastoral. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.

por Marcos Tedesco

Compartilhe este artigo. Obrigado.

Deixe seu comentário

Seu comentário é muito importante

Postagem Anterior Próxima Postagem