Há uma canção que diz que, quando Deus fica em silêncio, “é porque está trabalhando”. Mas o que realmente significam os “silêncios de Deus”? Em Mateus 26.63, lemos: “E Jesus, porém, calava-se...”; e, em Salmos 83.1, o salmista pergunta: “Por que te calas, Senhor?”
Quando Deus está em silêncio, é porque Ele está trabalhando? O silêncio divino, nas Escrituras, nunca é vazio; ele é pedagógico, revelador e, muitas vezes, confrontador. Em Mateus 26.63, diante do Sinédrio, “Jesus, porém, permanecia em silêncio” (NAA). O Filho de Deus silencia não porque está distante, mas porque Sua missão exige discernimento. O silêncio de Cristo ali não é ausência, é soberania. É a firmeza de quem sabe que nem toda provocação merece uma palavra, e que a vontade do Pai se cumpre até mesmo quando a voz do Filho não se levanta. Aquele silêncio não é inércia: é obediência.
No Salmo 83.1, o salmista clama: “Ó Deus, não te cales!” (NAA).
É importante lembrar que o objetivo da poesia salmística não é apenas expor
fatos históricos, mas comunicar sentimentos. (1) Nesse verso, encontramos uma verdadeira
radiografia da alma humana — uma alma marcada por temores, inseguranças e perplexidades
diante daquilo que não compreende. Aqui, a angústia não é maquilada: ela se
torna oração. O silêncio de Deus, aos olhos do salmista, não é mera ausência, mas
um mistério que inquieta, provoca e conduz o coração a buscar ainda mais
intensamente a presença divina. O texto revela a angústia universal da alma humana:
quando o sofrimento aperta, interpretamos o silêncio como abandono. Mas o salmo
não diz que Deus está ausente — diz apenas que está silencioso. O clamor do
salmista mostra que o silêncio de Deus desperta fé, provoca busca e conduz à
oração. Em vez de um Deus passivo, vemos um Deus que educa Seus filhos a
caminhar mesmo diante do Seu silêncio.
A Bíblia nunca apresenta o silêncio divino como indiferença.
Em muitos momentos, Deus silencia para amadurecer, alinhar e purificar Seus
servos. Há silêncios que nos livram da ansiedade das respostas rápidas. Há
silêncios que desmontam nossa autossuficiência. Há silêncios que revelam se
buscamos a mão de Deus ou apenas as soluções de Deus. O silêncio, quando vem do
Senhor, é uma sala de espera onde fé e caráter são moldados.
Deus trabalha enquanto se cala — mas não porque está calado.
Ele trabalha porque é soberano, presente e fiel. Seu agir não depende do volume
de Sua voz, mas da imutabilidade do Seu caráter. Nas Escrituras, o silêncio de
Deus é carregado de sentido, propósito e direção. James Long diz que é possível
ouvir a voz de Deus mesmo sem seu silêncio. (2) O crente maduro aprende que o
silêncio de Deus não é um fim, mas um processo. É o intervalo entre o nosso desespero
e a revelação do cuidado divino. O silêncio divino é um convite: permanecer,
confiar, discernir.
Assim, quando Deus se cala, Ele não se ausenta. Ele observa.
Ele forma. Ele prepara. O silêncio de Deus não é abandono, mas sabedoria. E
enquanto esperamos, somos chamados a fazer o que Jesus fez em Seus momentos de silêncio:
confiar no Pai, obedecer ao Pai e descansar no Pai. Porque, mesmo quando não
ouvimos a Sua voz, Ele continua sendo Deus — e isso basta.
Notas
(1) TROTA, Israel Thiago. Livros Poéticos. Joinville:
Editora Santorini, 2021, p.49.
(2) LONG, James. Por que Deus fica em silêncio quando mais
precisamos dEle? Rio de Janeiro: CPAD, 1995, p.107.
por Israel Trota
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