O que realmente Jesus quis dizer quando afirmou: “Quem quiser salvar a sua vida a perderá; mas quem perder a sua vida por amor de mim, esse a salvará” (Lucas 9.24)? “Perder a vida”, nesse contexto, significa literalmente morrer por Cristo ou há um sentido espiritual mais amplo?
As palavras de Jesus têm um duplo significado: um radical e outro espiritual. Ambos os sentidos foram interpretados por diversos líderes do início da era cristã, como Policarpo de Esmirna, Inácio de Antioquia e Tertuliano, como um chamado ao martírio e, consequentemente, à vida eterna. O sentido espiritual é deduzido da palavra grega psychē, que não significa apenas existência biológica. Ela carrega o sentido de identidade, abrangendo suas pulsões, vontades, desejos, paixões, afeições e a força vital. É como se Jesus dissesse: “Quem constrói sua vida ao redor de si mesmo vai perdê-la; quem me entrega o centro do coração, encontrará a verdadeira vida”.
Essa afirmação foi repetida no mínimo três vezes por Jesus.
Ela constitui a base de sua pregação para desenvolver a natureza divina na
humanidade perdida (Lucas 17.33; João 12.25; Mateus 10.39). Salvar a psychē
seria no sentido de satisfazê-la de forma desenfreada, hedonista e egoísta;
todavia, essa é a maneira de perdê-la, pois leva o ser humano a atropelar
questões fundamentais da vida. Ao se perder a vida livremente, entregando seus cuidados
a Cristo, Ele a preenche com o Seu Espírito e transmite a beleza do caráter
divino.
Jesus inverte a lógica da autopreservação do mundo, segundo
a qual quem se protege, sobrevive. No Reino, vive-se no seguinte paradoxo: a
vida verdadeira não é conquistada, mas recebida quando nos derramamos. A vida
moderna nos treina para salvar a própria vida constantemente, protegendo nossa
imagem e preservando nosso conforto. Jesus nos convida ao contrário:
entregar-se para viver. Entretanto, isso não está relacionado a apagar desejos lícitos
nem a uma renúncia que destrói a identidade, mas a refiná-la. Perder a vida é a
decisão mais radical: tomar a cruz e seguir Jesus. A salvação da vida depende do
comprometimento do crente em ser discípulo de Jesus, rejeitando caminhos que
cedem aos desejos indevidos, e escolhendo a humildade — como Jesus, que nasceu
numa manjedoura e não no palácio — e o serviço, quando tomou a toalha e a bacia
para servir, preocupando-se com os outros e seu bem estar no mundo. Nesse sentido,
perde-se a própria vida em benefício do outro, tanto dos que amamos quanto dos
diferentes e estranhos a nosso modo de ser e pensar. Assim, perdendo a própria vida
para atender às necessidades destes se ganha a vida, porque ela só existe
quando é compartilhada, assim como Jesus doou a vida para que outros tivessem
vida.
As lógicas mundanas de angariar poder, prestígio e dinheiro vêm
acompanhadas de maneiras sutis de perder a alma, porque abre-se mão de valores
e da ética do Evangelho no afã de conquistar os melhores lugares, títulos e posições,
fazendo a pessoa “perder a alma” nos emaranhados da vida. Isso pode ocorrer até
mesmo em posições e lugares mais sagrados, inclusive no ministério cristão.
Mas morrer como? Paulo afirmou: “Já não sou eu quem vive, mas
Cristo vive em mim” (Gálatas 2.20 – ARA). Morre-se renunciando à vontade
própria quando ela se opõe ao caminho de Jesus; abrindo mão do controle,
reconhecendo que a vida é mais segura nas mãos de Deus do que nas mãos da
ansiedade; cedendo o direito de vingança; e vivendo para o próximo.
Referências
POMMERENING, Claiton Ivan. A Obra da Salvação: Jesus Cristo
é o Caminho, a Verdade e a Vida. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.
RIENECKER, Fritz. Evangelho de Lucas. Curitiba: Esperança,
2005.
por Claiton Ivan Pommereningi
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