Pais missionais, filhos vivendo o Reino

Pais missionais, filhos vivendo o Reino


Quando utilizo o termo “pais missionários” ou “missionais”, refiro-me não apenas aos casais no campo missionário, que precisam equilibrar-se entre o cuidado do povo e a responsabilidade de educar seus filhos no caminho do Senhor, ensinando-os a amar a missão ou, pelo menos, a não a odiar – o que, na maioria das vezes, é tarefa dificílima. Incluo nessa categoria de pais os que desejam honrar ao Senhor das Missões educando a geração sob seu cuidado para que ame ao Senhor com todo coração e compreenda sua importância no cumprimento da grande comissão, que só será devidamente cumprida quando todos compreenderem que amar, ofertar, orar e servir são a base sobre a qual se ergue o Evangelho prático que realmente alcançará esta geração.

Embora grandiosos eventos sejam realizados constantemente para o alcance desse resultado, é no lar que ele é de fato assimilado e posto em prática. Os filhos aprendem pelo exemplo e não pelo discurso. Então, dificilmente, embora não seja impossível, os filhos serão mais comprometidos com missões do que viram seus pais serem no dia a dia. “Uma geração louvará as Tuas obras à outra geração e anunciará os Teus poderosos feitos” (Salmos 145.4).

Em seu livro Como meus pais nutriram a minha fé, Elizabeth Elliot apresenta um relato profundo sobre a influência determinante que seus pais exerceram em sua formação espiritual. Ela destaca que cresceu em um lar missional, onde a disciplina era acompanhada pelo testemunho diário e constante de uma vida cristã autêntica. Mais do que palavras, foi o exemplo no ordinário que moldou sua compreensão de fé e serviço. O impacto desse ambiente familiar foi tão significativo que seus filhos, inspirados por aquilo que viam e viviam, acabaram dedicando suas próprias vidas ao campo missionário. A fé, portanto, não foi apenas ensinada; foi observada, experimentada e internalizada. Seus pais estavam cercados por livros e por pessoas que encarnavam o Cristianismo verdadeiro. Esse círculo de referências sólidas contribuiu para uma formação espiritual rica e duradoura, capaz de influenciar gerações.

Ao observar essa história, percebemos que poucas heranças são tão poderosas quanto a de um lar comprometido com a prática genuína do Evangelho. Melhor é isso: uma fé que se torna vida e, por meio da vida, alcança os filhos e o mundo. Em um dos documentários mais marcantes sobre a vida de Billy Graham, sua filha compartilha uma frase que sintetiza de forma brilhante o resultado do assusto proposto: “Meu pai não era Deus, mas me mostrou quem Deus era”. Poucas declarações são tão simples e, ao mesmo tempo, tão profundamente teológicas. Ela aponta para uma verdade essencial do Cristianismo: o maior legado que um pai pode deixar aos filhos é o conhecimento de Deus.

A trajetória de Billy Graham é amplamente reconhecida por seu impacto global. Ele pregou para multidões, aconselhou presidentes, cruzou fronteiras culturais e rompeu barreiras denominacionais. Contudo, dentro de casa, sua missão tinha outra dimensão. Ele não era o grande evangelista dos estádios; era apenas o pai humano, limitado, presente, amoroso. Sua filha, ao descrevê-lo, não exalta suas conquistas públicas, mas a constância da fé vivida nos pequenos gestos, nas conversas simples, nas orações diárias, no respeito que nutria por sua esposa, na humildade que mantinha apesar da influência mundial. É exatamente por isso que a frase ressoa com tanta força: “Meu pai não era Deus, mas me mostrou quem Deus era”. Ela não enaltece um ídolo espiritual, mas testemunha uma vida que apontava para algo maior. Graham não se esforçou para que seus filhos o vissem como um herói; esforçou-se para que vissem Cristo por meio dele.

Esse tipo de legado não se fabrica em púlpitos, mas em salas de estar; não nasce de discursos celebrados, mas de escolhas diárias; não depende da visibilidade pública, mas da fidelidade privada. Pais que vivem assim lembram ao mundo que o Evangelho não cresce apenas em conferências, mas também no cotidiano — na mesa, no abraço, na escuta, na disciplina e na graça. O mundo moderno está saturado de ideologias que competem pela mente e pelo coração dos nossos filhos. Lá fora há uma pressão constante para desconstruir valores que, dentro de casa, buscamos plantar com cuidado. Contudo, há uma verdade inegociável: aquilo que é ensinado apenas com palavras pode se perder, mas aquilo que é vivido diante dos olhos se torna raiz.

Quando ensinamos com a voz e confirmamos com a vida, quando aquilo que defendemos é visível no nosso caráter, nas nossas escolhas e na maneira como tratamos as pessoas, nossos filhos absorvem esses princípios de forma profunda. O ensino deixa de ser um discurso e se torna um testemunho. E testemunhos, ao contrário de argumentos, moldam corações.

É assim que eles aprendem a refletir o Reino de Deus, mesmo rodeados pelas ideologias líquidas e efêmeras da modernidade. Tornam-se jovens capazes de permanecer firmes onde muitos vacilam e de brilhar onde muitos se perdem. Tornam-se relevantes não por seguirem as tendências do tempo, mas por carregarem dentro de si convicções eternas.

Nós não educamos nossos filhos apenas para serem bons cidadãos, embora isso também seja importante. Somos chamados a algo maior. Criamos, treinamos e formamos homens e mulheres que Deus há de levantar para ir onde não podemos ir e fazer o que não podemos fazer. Eles são a continuidade da missão. São as flechas lançadas além do alcance dos nossos braços. No fim, a maior contribuição que podemos deixar ao mundo não é apenas o que fazemos, mas quem formamos. E filhos enraizados na verdade, moldados pelo exemplo e fortalecidos pela fé sempre serão instrumentos do Reino no meio de qualquer geração.

por Kelem Gaspar

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