O pecado afastou o ser humano do Criador, mas a sua reabilitação ao Reino de Deus foi possível mediante a Cruz de Cristo
O plano da salvação restabelece a comunhão do homem com seu Criador, tal qual acontecia no Éden.
Diferentes interpretações teológicas acerca do homem e sua constituição, a Queda e seus efeitos têm produzido acalorados debates no seio da Igreja desde o período da Patrística, envolvendo nomes como Irineu, Tertuliano, Clemente de Alexandria e Orígenes. Mais tarde, teologias formuladas por Agostinho, Pelágio e Tomás de Aquino (e pelos próprios Lutero e Calvino) também produziram forte influência no pensamento cristão. Apesar de muito conteúdo denso e proveitoso, difundiram-se pensamentos que não se ajustam ao conjunto das Escrituras. Reflexos negativos dessas hermenêuticas são vistos largamente na teologia católica, além de terem atingido também parte do corpus teológico reformado. Por isso, é importantíssimo compreender a Doutrina do Homem de acordo com o que a Bíblia Sagrada realmente diz.
Para além do campo teológico, a Antropologia Bíblica refuta com veemência o pensamento antropológico cientificista, que nega a Criação. Seus difusores preferem acreditar na teoria da evolução das espécies; não obstante, o Gênesis traz o inconfundível relato de toda a Criação, sendo a origem do homem um ato criativo do próprio Deus (Gênesis 1.26,27; 2.7). As Escrituras também não abonam um criacionismo evolutivo (ou evolucionismo teísta), como defendem setores da teologia moderna que tentam conciliar Criação e evolução. Como dizem Willian W. Menzies e Stanley M. Horton, “Deus criou um homem e uma mulher, e hoje temos uma grande variedade de raças. Mesmo assim, somos todos, até hoje, seres humanos, muito mais parecidos entre nós do que diferentes”.
Um correto entendimento da Doutrina do Homem evita equívocos teológicos em torno de temas relevantíssimos relacionados a doutrinas como a Soteriologia e a Escatologia. Algumas concepções teológicas também afetam profundamente a visão sobre a Missão da Igreja, geralmente por tentarem suavizar os nefastos efeitos da Queda, crendo no progresso do homem pelo próprio homem. Mais que isso, um entendimento impreciso do sentido da Redenção pode comprometer o foco da vida cristã, distanciando-se do anseio pela verdadeira restauração do homem e sua Glorificação, em seu plano celestial e não terreno. Embora não seja o propósito deste artigo, não é demais citar a necessidade que temos de analisar os fundamentos hermenêuticos do que hoje se ensina como Mandato Cultural, Cosmovisão Cristã e Apologética Evidencialista, por exemplo. Trabalhar com pressupostos teológicos incorretos compromete a construção de todo o edifício doutrinário. Uma das consequências é a distorção da prática espiritual, o que no seio do Movimento Pentecostal pode representar perda de foco e arrefecimento do fervor.
O relato do Gênesis
O Gênesis registra a Criação e a Queda do homem, mas, desde logo, apresenta a primeira promessa de Redenção, na qual está implícita também a Glorificação. O presente artigo vai abordar esses quatro momentos e circunstâncias: Criação, Queda, Redenção e Glorificação.
A Criação está narrada no capítulo 1: “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; [...] E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou” (Gênesis 1.26,27). A Queda está registrada no capítulo 3: “E, vendo a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento, tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela. Então, foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais” (Gênesis 3.6,7). A primeira promessa do Redentor é encontrada no mesmo capítulo: “E porei inimizade entre ti e a mulher e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gênesis 3.15).
Que é o homem?
Coroa da criação divina, o homem foi formado pelo próprio Deus, após ter criado todo o universo – os reinos mineral e vegetal e todos os animais (Gênesis 1.1-25). Diferentemente dos atos criativos anteriores, houve uma solenidade divina para a criação do homem, o que se entende pela declaração plural “Façamos”. Também diferentemente de todos os seres que já haviam sido criados, ao homem foi dado o poder de domínio sobre os peixes do mar, as aves do céu, o gado, toda a terra e todo o réptil que se move sobre a terra (Gênesis 1.26b).
Também em relação ao ser humano houve uma comunicação pessoal de Deus, com o pronunciamento de uma bênção especial: “E Deus os abençoou e Deus lhes disse: Frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a [...]” (Gênesis 1.28a). A presença do homem fez com que Deus, que antes havia considerado boa toda a criação, expressasse uma aprovação mais elevada ao dizer que “[...] tudo quanto tinha feito [...] era muito bom” (Gênesis 1.31).
Como se sabe, os primeiros capítulos de Gênesis foram escritos em um estilo narrativo pelo qual primeiro se faz uma apresentação geral dos fatos, para, depois, serem expostos em detalhamento. Assim, enquanto no capítulo primeiro apenas se diz que o homem foi criado “macho e fêmea” (vs. 27), é no final do capítulo segundo que se apresenta como se deu a criação da mulher (Gênesis 2.21,22).
Estava, portanto, criado o homem (no sentido amplo), em estado de perfeição e inocência. A perfeição decorre da semelhança moral com o Criador. A inocência se dá pela completa ausência de conhecimento ou compartilhamento com o mal. Havia plenitude de vida e absoluta pureza no coração humano. A nudez do primeiro casal é um sinal desse quadro (Gênesis 2.25), um estado original que jamais seria igual depois que o ser humano pecou. Quanto à inocência do homem antes da Queda, Willian W. Menzies e Stanley M. Horton salientam que “Adão e Eva foram criados com uma real santidade no coração, e não com mera inocência. Eles tinham uma inclinação genuína para Deus, e queriam andar e falar com Ele”.
Ainda é importante observar que, antes da Queda, o homem vi via em completa harmonia com a natureza. Adão deu nome a todos os animais do campo e a toda ave dos céus (Gênesis 2.20) e seu trabalho de lavrar o jardim e o guardar (Gênesis 2.15) não precisava ser feito penosamente, pois a terra não tinha praga alguma (Gênesis 3.17,18). Esse é, portanto, o quadro da vida humana antes da Queda.
A Queda e suas consequências
A Queda do homem se deu por incredulidade e desobediência, e teve como consequência principal a entrada do pecado no mundo. Toda a plenitude da liberdade humana antes da Queda encontrava somente uma limitação: o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gênesis 2.16,17). Deus fez o homem como um ser moral, para se relacionar com Ele por toda a eternidade. Para tanto, não poderia ser autômato, agindo como máquina, sem raciocínio ou vontade própria. Para ter um relacionamento com o Criador baseado no amor recíproco, o homem precisava ter a possibilidade de escolher manter-se ou não sob essa condição de mutualidade. Daí, aliás, a semelhança com Deus, um Ser relacional tanto quanto o homem criado. O pecado foi a rejeição desse estado de plena sujeição e comunhão íntima como Criador.
A serpente instilou no coração do homem – a partir de Eva – o desejo de ser como Deus, sabendo o bem e o mal (Gênesis 3.5). Não bastou ao homem obedecer ao Criador e servi-lo amorosamente, recebendo-o diariamente no jardim. O desejo de ser igual, sob a mentira satânica, atraiu o coração de Eva, que comeu do fruto e deu-o a Adão, que cometeu o mesmo pecado, inclusive porque era sua, em primeiro lugar, a responsabilidade de manter-se em obediência ao Criador. O homem pecou (Gênesis 3.6). A tragédia da Queda havia acontecido.
Agora restava sofrer as consequências desse pecado tão grave, revelador da rebeldia do homem, que se inspirou em Lúcifer, cujo pecado foi, também, o de querer igualar-se a Deus, o que lhe resultou ser precipitado do céu, como se extrai das referências indiretas contidas em Isaías 14.12-14 e Ezequiel 28.12-19. O primeiro casal, por sua vez, foi expulso do jardim, depois de terem recebido a sentença (Gênesis 3.16-24). A mulher teria que conceber com muitas dores, ter seu desejo submetido ao marido e ser por ele dominada. O homem experimentaria sofrimento ao lavrar uma terra amaldiçoada. Ao final, a morte seria a maior consequência: “No suor do teu rosto, comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado, porquanto és pó e em pó te tornarás” (Gênesis 3.19).
O coração humano, agora cheio de maldade, revelaria toda sua perversidade de múltiplas maneiras, a começar pelo cruel homicídio de Abel, por seu próprio irmão Caim (Gênesis 4.8). O pecado afetou toda a raça humana através de seu representante, o primeiro Adão. Todos os seus descendentes partilharam de uma natureza pecaminosa e se fizeram, também, praticantes do pecado (Romanos 3.10,23; 5.12; Salmos 51.5; Jeremias 17.9; Efésios 2.1). Os dias, anos e séculos seguintes seriam marcados pela multiplicação da maldade, com corrupção e violência dominando a terra (Gênesis 6.1-12). A inclinação pecaminosa do coração humano viria se revelar nos milênios seguintes, em todas as civilizações, com incontáveis atrocidades. O mundo inteiro estava sob o império do pecado: “O Senhor olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia algum que tivesse entendimento e buscasse a Deus. Desviaram-se todos e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não há sequer um” (Salmos 14.2,3). Todos precisavam de um Redentor.
Redenção: a restauração em Cristo
Os danosos efeitos da Queda reclamavam uma obra de restauração que homem algum pôde alcançar por seus próprios atos de justiça. A imagem de Deus no homem não fora aniquilada, mas havia sido completamente desfigurada. “O gênero humano inteiro foi infectado pelo pecado” (MENZIES e HORTON). A terrível inclinação pecaminosa da natureza humana tornou-se cada vez mais patente e destrutiva. A destituição da glória de Deus atingiu a todos (Romanos 3.23) e só o sacrifício perfeito, de um Homem Perfeito, poderia restaurar o homem à sua condição originária, em plena comunhão com o Criador. Esse processo de salvação seria (e é) realizado através da obra de Cristo, o Filho de Deus encarnado, que se entregou a Si mesmo no lugar de toda a humanidade perdida (João 3.16).
A restauração em Cristo compreende um novo nascimento, um renascimento espiritual operado em nós pela Palavra e pelo Espírito Santo, pela fé no sacrifício realizado por Jesus no Calvário, pelo sangue do Novo Concerto (João 3.5,6; 1 Pedro 2.18-23). O pecado é expiado e a culpa retirada, passando a existir paz com Deus (Romanos 5.1; 1 João 1.7; 2.1,2). A restauração inclui a contínua presença do Espírito Santo, derramado no coração do homem (Romanos 5.5), e que o capacita a viver livre do domínio do pecado, manifestando maravilhosas virtudes espirituais (Gálatas 5.16-25). O homem restaurado por Cristo passa a ser uma nova criatura: “[...] as coisas velhas já passaram [e] tudo se fez novo” (2 Coríntios 5.17).
A Glorificação
Mesmo já estando em Cristo, desfrutando de riquíssimas bênçãos espirituais (Efésios 1.3) na condição de filho de Deus (João 1.12), falta ainda ao homem tomar posse de uma conquista final: “Amados, agora somos filhos de Deus, e ain da não é manifesto o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos” (1 João 3.2). Mesmo tendo sido liberto da culpa do pecado e do poder do pecado, o homem ainda permanece vivendo no corpo do pecado, experimentando sofrimentos em decorrência da Queda, além de também sofrer por seus próprios pecados (Lm 3.39). Falta, ainda, um aspecto da Redenção: a Glorificação, a redenção do corpo (Romanos 8.23).
A restauração completa do homem corresponde, necessariamente, a vitória sobre a morte, assim como Cristo triunfou sobre ela, ressurgindo dentre os mortos (1 Coríntios 15.10). Como afirmou Paulo: “Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo. Mas cada um por sua ordem: Cristo, as primícias; depois, os que são de Cristo, na sua vinda. [...] Ora, o último inimigo que há de ser aniquilado é a morte” (1 Coríntios 15.23,26).
Na volta de Cristo, os que morreram crendo nEle ressurgirão dentre os mortos, “depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor” (1 Tessalonicenses 4.17). Será, portanto, a consumação da obra redentora, com o homem salvo por Cristo recebendo a imagem celestial – a imortalidade – para um pleno relacionamento com Deus por toda a eternidade (1 Coríntios 15.49), em “um novo céu e uma nova terra” (Apocalipse 21.1-4).
Breves complementações teológicas
O termo hebraico mais usado no Antigo Testamento para referir-se à raça humana (tanto homens quanto mulheres) é ’adam, significando tanto “humanidade” (substantivo), quanto “humano” (adjetivo). São 562 referências, enquanto ’enosh, que tem o sentido predominante de “humanidade”, aparece 44 vezes (HORTON, 1996, p. 242).
O ato criativo de Deus relacionado ao homem revela uma ação pessoal, direta, à partir do pó da terra, seguido do sopro divino nas narinas do ser humano (nishmat chayyim) (Gênesis 2.7) (BEACON, p. 36.). As expressões “imagem” e “semelhança” contidas em Gênesis 1.26,27 são objeto de muita discussão teológica. Essa imago Dei (latim) é entendida como “duas maneiras de se referir à mesma realidade” ou como “duas dimensões distintas da relação dos homens com Deus” (GONZÁLES, 2009, p. 169). Conforme ressaltam Menzies e Horton, “A imagem de Deus em nós consiste em uma imagem tanto natural quanto moral – e não no sentido físico”. Assim, “a imagem natural inclui elementos da personalidade ou do próprio “eu comuns a todas as pessoas, quer humanas quer divinas” (intelecto, sensibilidade e vontade). Já a imagem moral “inclui a vontade e a esfera da liberdade, onde podemos exercer nossos poderes de autodeterminação”.
A Queda ou pecado original decorreu do “abuso da liberdade concedida aos seres criados, os que foram equipados com o uso da vontade”. Ainda conforme esclarecem Menzies e Horton, “Não foi Deus o criador do mal. O mal é uma questão de relacionamento, e não algo provido de substância. Basicamente, desconsidera a glória, a vontade e a Palavra de Deus”.
Sobre a intrigante questão relacionada à pecaminosidade universal e as crianças, nossa Declaração de Fé esclarece: “Até os bebês recém-nascidos e as demais crianças que ainda não conheceram experimentalmente o pecado já possuem uma natureza pecaminosa. O Senhor Jesus, porém, quando se referiu à situação das crianças, afirmou que das tais é o Reino de Deus [...] (Mateus 19.14). Em relação à responsabilidade pessoal, considerando que algumas crianças se desenvolvem no aspecto moral mais cedo que outras, e que a Bíblia não define, para isso, uma idade, não é possível atribuir-lhes culpa até que elas façam bem ou mal conscientemente” (Salmos 58.3; Romanos 9.11).
Qualquer que seja a dúvida, repousemos sempre, firmes e confiantes, na perfeita Justiça do Justo Juiz, que provou seu amor por nós enviando seu Filho para nos reconciliar consigo mesmo (Romanos 5.8).
Obras Consultadas
Bíblia de Estudo Pentecostal, CPAD (ARC).
Bíblia de Estudo Holman, CPAD (ARC).
HORTON, Stanley. Teologia Sistemática. Uma Perspectiva Pentecostal. 1ª ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1996.
Comentário Bíblico Beacon. 1ª ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2005.
GONZÁLES, Justo. Breve Dicionário de Teologia. 1ª ed. São Paulo: Hagnos, 2009.
MENZIES, William W. e HORTON, Stanley M. Doutrinas Bíblicas. Os Fundamentos da Nossa Fé. 1ª ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1995.
Declaração de Fé das Assembleias de Deus. 2ª ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.
OLIVEIRA, Raimundo Ferreira de. Anjos, Homem e Pecado. O Relacionamento das Criaturas com o Criador. EETAD, 2001.
HENRY, Matthew. Comentário Bíblico do Novo Testamento. Mateus a João. 1ª ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2008.
ANDRADE, Claudionor de. As Verdades Centrais da Fé Cristã. 2ª ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.
GONÇALVES, José. Maravilhosa Graça. 1ª ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2016.
SILVA. Severino Pedro da. A Doutrina do Pecado. 1ª ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.
_________. O Homem. Corpo, Alma e Espírito. 1ª ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1988.
por Silas Queiroz
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