A doutrina bíblica da alma

A doutrina bíblica da alma


A Bíblia Sagrada ensina que a alma do homem é o centro das emoções e sentimentos que o faz único no contexto da criação

O homem é a coroa da criação de Deus na Terra. Depois de trazer à existência todas as coisas, ao criar “os céus e a Terra” (Gênesis 1.1), pelo poder sobrenatural de Sua palavra, com tudo surgindo de acordo com Sua vontade soberana, o Criador teve em mente criar um ser “à sua imagem”, “conforme a sua semelhança” (Gênesis 1.26). O homem criado teria a missão elevadíssima de representá-lO, cuidando do planeta e de todos os seres que Ele criara. A Bíblia tem a melhor e mais consistente explicação para a origem do Universo, incluindo a Terra, da vida, do ser humano, dos animais, dos vegetais e minerais, em toda a sua extensão. Meditemos no aspecto interior do homem, conforme nos revela a Bíblia Sagrada, com destaque para o que o sagrado livro nos diz sobre a alma humana.

A criação do homem

1. A Trindade na criação do Homem. Deus, o Criador, no sexto dia da criação, em conjunto com os outros componentes de sua Unidade, que se consubstanciam na Trindade, disse: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo réptil que se move sobre a terra. E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou. E Deus os abençoou e Deus lhes disse: Frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra” (Gênesis 1.26-28). A criação do homem foi o coroamento da Criação de Deus: “Assim, os céus, e a terra, e todo o seu exército foram acabados. E, havendo Deus acabado no dia sétimo a sua obra, que tinha feito, descansou no sétimo dia de toda a sua obra, que tinha feito. E abençoou Deus o dia sétimo e o santificou; porque nele descansou de toda a sua obra, que Deus criara e fizera” (Gênesis 2.1-3).

2. Feito à imagem e semelhança de Deus. “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança...” (Gênesis 1.24b). O verbo fazer, na primeira pessoa do imperativo, no plural, sugere que o Criador não estava sozinho no ato da criação do homem. Ainda que a compreensão humana seja limitada para alcançar a grandeza daquele momento único, singular e totalmente distinto de todo o processo criador dos demais seres, é-nos consistente entender que ali, num ponto do planeta, no Oriente, no sítio do Jardim do Éden ou do Paraíso, estava Deus, O Pai, ao lado do Filho e do Espírito Santo, reunidos solenemente, para fazer surgir um novo ser que haveria de revolucionar toda a criação. Por um momento, de modo positivo; e por muitos séculos, de modo negativo. Mas, de qualquer forma, ali estava a reunião solene da Trindade (Elohim), para criar o homem, à imagem e semelhança de Deus! A “imagem” de Deus no homem refere-se à imagem espiritual e moral, “conforme” a “semelhança” de Deus; e também à imagem natural, pelo fato de o homem ser uma pessoa, à semelhança de Deus, que é Pessoa. Quanto ao corpo, ele foi feito por Deus para abrigar a parte espiritual do homem, formada por espírito e alma (1 Tessalonicenses 5.23),

A constituição do homem

Neste tópico, desejamos refletir sobre algumas concepções sobre a constituição do homem, e o que diz a Palavra de Deus sobre esse importante tema da Antropologia Bíblica.

Unitarianismo. Também chamado de “monismo”, é uma corrente doutrinária que ensina que o homem é um só todo. Uma só parte, não havendo qualquer divisão em sua constituição, e que não existe alma ou qualquer parte do ser humano que sobreviva à morte. Para os unitaristas ou monistas, o ser humano se constitui de uma unidade indivisível. Eles não acreditam na existência da alma e do espírito, admitindo que essas expressões se referem apenas a uma “unidade psicofísica” do ser humano.

Para os monistas, as palavras “carne” no Antigo Testamento (hb. basar) e no Novo Testamento (gr. sarx), ou “corpo” no Novo Testamento (gr. soma), referem-se ao “ser humano por inteiro porque, nos tempos bíblicos, ele era considerado unificado”. (1) Na interpretação teológica correta, não há fundamento bíblico para essa visão, como veremos mais adiante.

Dicotomismo. Essa doutrina ensina que só há dois elementos ou partes constitutivas, do homem: a parte material, chamada de "corpo"; e a imaterial, chamada de "alma" ou "espírito". Baseiam-se no fato de os termos “alma” e “espírito” serem, às vezes, na Bíblia, sinônimos ou intercambiáveis entre si. Ele sustenta sua opinião se baseando em textos que lhe parecem indicar esse entendimento, tais como Lucas 1.46,47: “A minha alma engrandece ao Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu salvador” (ver Jó 27.3). Há quem afirme que esse é o ensino mais consistente, com base na Bíblia, para demonstrar a constituição do homem.

Tricotomismo. Os tricotomistas entendem que o homem é formado de três partes distintas: corpo, alma e espírito. Seu ensino harmoniza-se com as Escrituras, pois, de acordo com a Bíblia, o homem tem uma constituição tríplice, sendo formado de espírito, alma e corpo (1 Tessalonicenses 5.23). Reflitamos sobre cada uma destas partes.

O espírito humano. Ao soprar no homem o “fôlego de vida”, Deus o fez “alma vivente” ou um ser que tem vida. Nesse sopro, o Criador infundiu, no interior do homem, sua parte espiritual. Por esse fôlego, ele adquiriu o princípio vital, alma (lat. anima), que o anima. O espírito é aquela parte imaterial do homem que, juntamente com a alma, forma “o homem interior”. O apóstolo Paulo assim registrou: “Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus” (Romanos 7.22). O apóstolo ensinava sobre a luta entre a carne, ou a natureza carnal do homem, e o espírito, que provém de Deus, e acentuava que o “homem interior” tinha prazer na lei de Deus. Em outro versículo, lemos: “Por isso, não desfalecemos; mas, ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia” (2 Coríntios 4.16). Nesse texto, vemos o “homem exterior”, que é o corpo, e “o interior”, que é a parte imaterial do homem. Podemos dizer que esse homem interior é o conjunto espiritual, formado pela alma e pelo espírito (1 Tessalonicenses 5.23).

A alma do homem

1) Definições. A palavra “alma”, no Antigo Testamento, é nephesh (hebraico). No Novo Testamento, é psyché (grego), que tem o sentido de “alma” e de “vida”, e está ligada ao termo "psíquico", que tem o sentido de “pertencente a esta vida”. É “a base das experiências conscientes”. A alma pode ter três áreas de significados:

(a) psyché, no sentido da base impessoal da vida, a própria vida;

(b) a parte interior do homem;

(c) uma alma independente em contraste com o corpo. (2)

No sentido impessoal, equivale à própria vida. No sentido de ser “parte interior do homem”, refere-se à sua personalidade ou à pessoa (2 Coríntios 1.23). O texto de Levítico 17. 10-15 dá uma diversidade de sentidos para a palavra “alma”:

(a) “Contra aquela alma que comer sangue eu porei a minha face e a extirparei do seu povo” (v. 10). Aqui, “alma” significa a própria pessoa.

(b) “Porque a alma da carne está no sangue...” (v.11). Neste sentido, “alma” significa a vida do corpo, dos tecidos, que são alimentados pelo sangue.

(c) “Nenhuma alma dentre vós comerá sangue...” (v.12). Aqui, alma se refere à pessoa.

(d) “A alma de toda a carne; o seu sangue é pela sua alma”. Aqui vemos uma referência à vida de toda a carne e que o sangue seria derramado pela vida do transgressor.

Tanto nephesh como psyché indicam o princípio vital da vida humana, física ou animal. Quando Deus disse que o homem fora feito “alma vivente” - nephesh chayyah, no hebraico - e quando Ele disse que a terra produzisse “alma vivente", em relação aos animais, o termo “alma vivente” nos dois casos foi nephesh chayyah. No entanto, como vimos em item anterior, o homem é distinto do animal por várias razões, entre as quais o autoconhecimento e a autodeterminação. Assim, a alma (nephesh) do homem é profundamente diferente da alma (nephesh) do animal.

No Novo Testamento, vemos várias referências sobre o significado de alma. Jesus disse: “Quem quiser salvar a sua vida [psyché] perdê-la-á...” (Marcos 8.35; ver Mc 10.45; Mateus 20.28). “Não estejais ansiosos quanto à vossa vida...” (Mateus 6.25). Nesse sentido, a “alma” se refere à vida.

Em sentido teológico, a alma é a sede das emoções e dos sentimentos. Jesus disse: “A minha alma está profundamente triste até a morte” (Marcos 14.34). A alma se entristece. “É a parte sensível da vida do ego, a sede das emoções do amor (Cantares 1.7), do anseio (Salmos 36.62) e da alegria (Salmos 86.4)”. (3) Um texto que distingue alma de espírito é o já citado de 1 Tessalonicenses 5.23: “E todo o vosso espírito, e alma, e corpo sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo”. Aqui temos “alma” significando a parte interior do ser distinta do espírito, porém intrinsecamente a ele ligada, formando o “homem interior” (Romanos 7.22). Horton acentua que “a alma sobrevive à morte porque é energizada pelo espírito, mas alma e espírito são inseparáveis porque o espírito está entretecido na própria textura da alma. São fundidos e caldeados numa só substância”. (4)

2) Origem da alma. Como vimos, a alma faz parte do “homem interior” do ser unida ao espírito. Intrigantes questões têm sido formuladas sobre a origem da alma: A alma é introduzida no corpo? Ela é formada durante a concepção? A alma é preexistente?

Há, basicamente, três teorias acerca da origem da alma, todas elas evocando fundamento bíblico. Um resumo delas esboçamos a seguir.

Teoria da preexistência. É um dos fundamentos da doutrina espírita. Segundo essa ideia, as almas existem em esferas diversas do mundo espiritual e entram no corpo gerado no processo chamado reencarnação. Segundo os defensores dessa doutrina, a alma peca na vida presente e, para redimir-se, precisa de purificação, voltando a se integrar num outro corpo humano, sucessivamente, durante inumeráveis existências. Antes mesmo de ser uma doutrina, codificada por Alan Kardec, expoente da doutrina espírita, a teoria da preexistência da alma tivera o apoio de filósofos, como Platão e Filo, e de teólogos cristãos, tais como Orígenes, de Alexandria (185 a 254 d.C.). Essa teoria tem base no maniqueísmo, que ensinava que o espírito era puro, ao lado da alma, que já preexistia, e o corpo era intrinsecamente mau, bem como a matéria em sua volta. Essa teoria não tem qualquer fundamento bíblico, pelas seguintes razões:

a) O homem foi feito “alma vivente” somente após o sopro de Deus, no momento inicial da criação do primeiro ser humano, na face da Terra. Antes de Adão, não há qualquer indicação nas Escrituras da existência de almas guardadas num “celeiro de almas”, num lugar ou nos planetas, como entendem os espíritas.

b) Os maus atos e a depravação dos homens são consequência primária do pecado de Adão, que passou a todos os homens (Romanos 5.12), e consequência pessoal, individual e responsável de cada pessoa que peca em sua existência atual, e não de pretensas existências anteriores ao seu nascimento.

c) Deus fez o homem, incluindo sua parte imaterial (alma/espírito), e diz a Bíblia que “viu Deus que tudo que tinha feito era muito bom” (Gênesis 1.31).

Teoria criacionista. (5) Trata-se de uma teoria segundo a qual Deus “faz as almas diariamente”, conforme ensinava Aristóteles. Polano dizia que “Deus sopra a alma nos meninos quarenta dias após a concepção, e nas meninas oitenta” (sic). Jerônimo e Pelágio também acatavam esse entendimento, bem como a Igreja Católica e teólogos reformados, a exemplo de Calvino. Segundo Strong, Lutero se inclinava para o traducionismo (veremos a seguir). Strong explica que os criacionistas se baseiam nos seguintes textos bíblicos: “...e o espírito volte a Deus, que o deu” (Eclesiastes 12.7); “palavra do Senhor... e que forma o espírito do homem dentro dele” (Zacarias 12.1); “...e as almas que eu fiz” (Isaías 57.16). Essas passagens são mal compreendidas. A Bíblia não dá respaldo a essa teoria.

Teoria participativa. Leite Filho (6) entende que “Quando se afirmar que a alma é criada é necessário fazer algumas distinções: a criação é uma produção do nada; a alma é produzida na matéria e não da matéria; a produção da alma necessita de uma realidade criada já existente; a ação divina não tem como objetivo uma alma separada e sim o homem completo”. De fato, o homem, desde a fecundação, não é “um aglomerado de células”, como dizem os cientistas ateus e materialistas. É um ser completo, composto de espírito, alma e corpo. “Toda nova pessoa humana é fruto da ação imediata de Deus e da dos pais: Deus e os pais produzem o sujeito inteiro, mas os pais podem produzi-lo somente enquanto é um ser material vivo, isto é, tem um corpo, e Deus o produz imediatamente enquanto é um ser pessoal, isto é, tem uma alma”. (7)

Myer Pearlman, explicando a origem das almas após a criação do homem, corrobora com esse entendimento: “A origem da alma pode explicar-se pela cooperação do Criador com os pais. No princípio duma nova vida, a divina criação e o uso criativo de meios agem em cooperação. O homem gera o homem em cooperação com ‘O Pai dos espíritos’. O poder de Deus domina e penetra o mundo (Atos 17.28; Hebreus 1.3) de maneira que todas as criaturas venham a ter existência segundo as leis que Ele ordenou. Portanto, os processos normais da reprodução humana põem em execução as leis de vida, fazendo com que a alma nasça no mundo”. (8)

Concluímos que a alma se forma, segundo as leis da procriação, deixadas por Deus, numa cooperação entre os pais biológicos e o "Pai dos espíritos”. Cada vez que um gameta masculino se funde com um gameta feminino, no casamento, ou fora dele, pela lei do Criador, forma-se um conjunto alma/espírito dentro do homem. “Fala o Senhor, ao que estende o céu, e que funda a terra, e que forma o espírito do homem dentro dele” (Zaca rias12.1b). Como Deus atua na formação da alma é um mistério ao qual devemos nos curvar em nosso conhecimento limitado.

3) O corpo humano. Na visão tricotômica, o corpo tem papel importantíssimo. Davi exclamou, diante da formação e desenvolvimento do corpo desde o ventre: “Eu te louvarei, porque de um modo terrível e tão maravilhoso fui formado; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem. Os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe, e no teu livro todas estas coisas foram escritas, as quais iam sendo dia a dia formadas, quando nem ainda uma delas havia” (Salmos 139.13-16). O corpo humano não surgiu “por acaso”, como creem os materialistas. Ele é tão importante, que é considerado “templo do Espírito Santo” (1 Coríntios 6.19,20).

Referências

2 Lothar COHEN & Colin BROWN. Dicionário internacional de teologia do antigo testamento, p. 69.

3 Ibid., p.72.

4 Stanley M. HORTON. Teologia sistemática, p. 248.

5 Não se deve confundir com o Criacionismo científico, que defende a ideia da criação do homem de modo sobrenatural.

6 Ibid., p. 55.

7 Tácito da Gama LEITE FILHO. O homem em três tempos, p. 55.

8 Myer PEARLMAN. Conhecendo as doutrinas da Bíblia, p. 106.

por Elinaldo Renovato de Lima

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