Nossa reflexão neste texto é sobre as características do bom obreiro. Será feita a análise exegética de 1 Timóteo 3.1-7. Falaremos sobre a conduta do bispo. Trata-se da primeira perícope do capítulo 3. Ela é repleta de ensinos práticos para a escolha consciente de um bom obreiro. Ao longo da seção, notam-se quatro porções de conduta exemplar: familiar, social, espiritual e eclesiástica. Apesar de haver variações linguísticas no texto, a semântica – sentido das palavras e do texto – permanece inalterada. Tal efeito se dá pela confiança no texto grego recebido. Para a prática exegética, usaremos a Versão ARC, de 2009.
John Kelly (1999) introduz à dissertação do capítulo 3:
“Paulo passa de modo natural do culto para as qualidades a serem procuradas
naqueles que detêm cargos na igreja. Embora estes sejam frequentemente
mencionados no Novo Testamento, em nenhum lugar recebem um tratamento tão detalhado
quanto nas Pastorais. [...] Nesta seção, os oficiais do sexo masculino são
chamados bispos (‘superintendentes’ – gr. Episkopoi) e diáconos (gr. Diakonoi),
exatamente como em Filipenses 1.1. Mais tarde (1 Timóteo 5.17-18; Tito 1.5)
‘presbíteros’ (Gr. presbuteroi) são mencionados também, e o
relacionamento entre os bispos e presbíteros é um problema de vulto. [...]
Embora a designação técnica falte ali, estes ministros quase certamente devem ser
identificados com os ‘líderes’ (gr. proistamenoi) aos quais Paulo se
refere em Romanos 12.8 e 1 Tessalonicenses 5.12, e os ‘pastores’ aos quais
menciona em Efésios 4.11, bem como os ‘socorros’ e ‘governos’ em 1 Coríntios
12.28”. (1)
“Esta é uma palavra fiel” – Πιστὸς ὁ
λόγος – Onde Πιστὸς
trata-se de “digno de confiança, confiável, fiel, fielmente, verdadeiro, crível”.
O substantivo λόγος quer dizer “palavra”. Essa expressão aparece cinco vezes no
Novo Testamento e é uma forma de jargão, que somente vemos nas Cartas Pastorais
(1 Timóteo 1.15; 3.1; 4.9; 2 Timóteo 2.11; Tito 3.8). A fala indica que era esperado
por parte do destinatário saber o que iria ser dito. A sentença que se segue
era uma máxima de demonstração de elevada grandeza.
John Kelly (1999) afirma: “É interessante notar que o
Didaquê [...] insiste exatamente no mesmo espírito, na desejabilidade de escolher
‘bispos e diáconos que são dignos do Senhor [...] pois eles também realizam
entre vós o ministério de profetas e mestres’. O objetivo de Paulo em citar o
refrão é (a) vindicar a importância do ministério prático e (b) reforçar sua
exortação no sentido de os oficiais da igreja possuírem as mais altas
qualidades. Conforme o texto, Paulo coloca como prefácio à sua máxima as
palavras: Fiel é a palavra. Esta é uma fórmula familiar das Cartas Pastorais”.
(2)
Em uma de suas preleções em São Paulo, o amado pastor Claudionor
de Andrade (in memoriam) expressa, impulsionado pelo Espírito Santo: “Fiel é a
Palavra! Fiel é esta Palavra! Conscientizemo-nos disso. Fiel é a Palavra! Isto
significa que as Sagradas Escrituras merecem toda a nossa atenção, todo o nosso
respeito e toda a nossa reverência, porque estamos diante da Palavra de Deus, e
não de uma palavra qualquer. Estamos diante da Sã Doutrina, e não de uma doutrina
qualquer. Estamos diante da Doutrina dos santos profetas e dos apóstolos de
nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Por isso, precisamos de muito cuidado! O apóstolo
Paulo aqui é bastante categórico: Fiel é a Palavra! Isso significa que ela deve
se cumprir em minha vida e eu devo ser o exemplo. Ela deve se cumprir na vida
de cada obreiro, e cada obreiro deve ser, em si, um exemplo para a Igreja do
Senhor. Fiel é a Palavra! Ela se cumpre. A Palavra faz o que lhe aprouver”. (3)
O saudoso pastor Antônio Gilberto, ministrando estudo numa reunião
de obreiros, disse: “A Palavra de Deus é viva, tem vida própria, produz vida, e
é eficaz, ou seja, produz efeito. Fiel é a Palavra”. (4)
Tais citações trazem luz ao entendimento desta tão importante
expressão, que tem um som solene. É a introdução de citação posterior de Paulo,
que tem uma relação muito similar àquela quando um judeu ouvia ou lia o Shemá
(Deuteronômio 6.4): “Ouve ó Israel”. Tudo o que iria ser dito,
subsequentemente, é muito importante. Pastores e obreiros do Senhor, não
podemos desvalorizar essas características que serão citadas para a escolha de novos
obreiros na Seara do Mestre.
“Se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja”
– εἴ τις ἐπισκοπῆς ὀρέγεται,
καλοῦ ἔργου ἐπιθυμεῖ
– O episcopado, aqui referido (gr. ἐπισκοπῆς / episkopēs), denota um
cargo de supervisor, administrador. O primeiro indicativo da chamada
ministerial é o almejar, o sentimento divino de busca, que nasce em nosso ser.
A vontade em fazer parte do ministério. A obra – ἔργου
(ergon) – é um uma tarefa digna e mui excelente. Tamanha é a excelência da obra
a ser desempenhada que poucos a exercem. Assim sendo, aquele que deseja fazer
parte do bispado está desejando algo excelente, de incomparável valor e honra.
“Convém, pois, que” – δεῖ οὖν
τὸν – “É necessário”, “é
preciso”, são algumas expressões que cabem na tradução da locução. Após o
apóstolo Paulo louvar o desejo de alguém almejar o ministério e confirmar a
excelência do labor ministerial como bispo/presbítero/pastor (serão explicados
os termos mais adiante), explica que não basta somente a vontade interior ou
bondade para receber esse sentimento tão nobre. É preciso que o perfil e as
características de quem o exercerá sejam, também, de excelência. Por isso, convém,
é preciso, é necessário, é um pré-requisito inegociável, que o candidato possua
as seguintes virtudes:
“O bispo” – ἐπίσκοπον
– Supervisor, o administrador. Nesta seção do texto, o apóstolo Paulo não tem
por objetivo, e nem é pretensão desse estudo, esclarecer sobre as funções
atribuídas ao cargo do bispo. Pelo apresentado nas Cartas Pastorais Paulinas,
Cartas de Pedro e Segundo Tratado Lucano (Atos dos Apóstolos), as funções se
fundem, se intercambiam, onde pastor, bispo ou presbíteros desempenham a mesma
função: supervisão, governo e cuidado da igreja local (Atos 20.17, 28; Filipenses
1.1; 1 Pedro 2.25). Mais detalhes, consulte a revista Lições Bíblicas do 2º
Trimestre de 2021, CPAD - lição 11 (13/06/2021).
“Seja irrepreensível” – ἀνεπίλημπτον
εἶναι – Essa característica
insere todas as demais em seu significado: “não ter nada a ser repreendido,
corrigido, envergonhado ou pôr em dúvida sua reputação”. Esse adjetivo engloba todas
as características sucessivas até o versículo 7 (conduta familiar, social,
espiritual e eclesiástica). O candidato não deve apresentar defeito óbvio de
caráter ou de conduta que os maliciosos, dentro ou fora da igreja local, possam
explorar para desacreditá-lo. Em especial, sua vida sexual, que será referida no
termo seguinte (marido de uma mulher). Tal perfil é destinado, de igual modo,
aos diáconos.
“Marido de uma mulher” – μιᾶς γυναικὸς
ἄνδρα – A conduta familiar
é exposta de uma maneira direta. Tem de ter uma única esposa; casamento
monogâmico; não ter amante (fora ou no rol da membresia). Aqui, vale lembrar a situação
que a Igreja em Corinto passava, onde um rapaz era amante de sua madrasta,
sendo duramente advertido na carta (1Co 5.1). Trata-se de um padrão moral na
conduta sexual, somente com sua esposa, somente uma mulher.
Há vieses teológicos que defendem o termo se referindo a candidatos
viúvos ou divorciados que se casaram novamente, mas, seguindo a linha teológica
da Bíblia Palavras-Chave (CPAD) e outras autoridades na prática de interpretação
bíblica, a locução é associada a, num mesmo momento, ter mais de uma mulher, e
não a ser divorciado ou viúvo. Vale a pena consultar os comentários de rodapé
da Bíblia Palavras-Chave, 3.2, p. 1263 (NT), para aprofundamento no assunto. O
casamento é uma instituição divina, deve ser monogâmico, heterossexual e indissolúvel.
Não podemos renunciar à nossa companheira. Não podemos, em nossa vida, tolerar
o divórcio. Lutemos pela manutenção do nosso amor conjugal.
“Vigilante, sóbrio, honesto” – νηφάλιον, σώφρονα,
κόσμιον – Também pode ser lido como: temperante (discreto, autocontrolado, de
bom senso), sóbrio (abstêmio), honesto (circunspecto, de bom comportamento, ser
de costumes decorosos, simples no vestir). Todos esses aspectos são claramente
morais com impacto social. Vejamos:
O superintendente deve ser temperante (gr. nēphalios;
no Novo Testamento, somente aqui e em 1 Timóteo 3.11 e Tito 2.2).
Originalmente, denota a abstinência do álcool, mas que, no caso, é mais amplo e
metafórico. Há uma entonação vocativa e categórica aqui. Como governar (cuidar)
se não há razão e organização do pensamento e sentimento? Há uma metáfora, no
sentido de um bêbado que está “fora de si” e é governado pelo vício, não
demonstrando equilíbrio ou sentido no que faz. Portanto, o candidato deve,
moralmente e socialmente, ser equilibrado, não extremista, saber julgar bem os
fatos e agir com imparcialidade. Ter a temperança do Fruto do Espírito.
A sobriedade e a honestidade (gr. sōphrōn e kosmios)
talvez apresentem a mesma nuança que o substantivo correlato em 1 Timóteo 2.9,
o qual fala sobre o comportamento feminino no culto, ressaltando traços
essenciais no caráter e comportamento do superintendente, respectivamente. De
mente sã, seguro, controlado (moderado quanto à opinião, prudente e lúcido.5
Nossa mente e ações devem ser sãs, como é sã a doutrina dos profetas e
apóstolos de Cristo. Não podemos nos embaraçar com as coisas do mundo (Continua).
Notas
(1) KELLY, J.N.D. I e II Timóteo e Tito – Introdução
e Comentário. São Paulo: Edições Vida Nova, 1999, p.73.
(2) KELLY, J.N.D. I e II Timóteo e Tito – Introdução
e Comentário. São Paulo: Edições Vida Nova, 1999, p.74.
(3) Pastor Claudionor de Andrade, em sermão ministrado na
Escola Bíblica de Obreiros (EBO) na AD Ministério do Belém em Sumaré (SP), no
dia 29 de março de 2013 (texto bíblico em 2Tm 2.15).
(4) Pastor Antônio Gilberto, em um sermão ministrado na
Escola Bíblica da AD MIBE (Tema: O bom obreiro do Senhor – 1Tm 4.6 e 2Cr
19.10).
(5) Tradução do termo, de acordo com a Bíblia Palavras-Chave
p. 2419 (Dicionário o Novo Testamento Grego, palavra de número 4998).
por Filipe Abreu de Oliveira
Compartilhe este artigo. Obrigado.

Postar um comentário
Seu comentário é muito importante