Eleitos antes da fundação do mundo?

Eleitos antes da fundação do mundo


A passagem de Efésios 1.3-14 tem sido frequentemente interpretada através de lentes agostinianas e calvinistas, que enfatizam a eleição individual e incondicional de pessoas específicas para a salvação antes da fundação do mundo. Contudo, essa leitura representa uma séria distorção do pensamento paulino e do contexto judaico do primeiro século no qual Paulo escrevia. O que Paulo está articulando aqui não é uma doutrina de predestinação individual, mas sim a eleição corporativa em Cristo, um conceito profundamente enraizado na teologia da aliança do Antigo Testamento.

A eleição “em Cristo” como chave de interpretação

A frase repetida “em Cristo” (ν Χριστ) ocorre não menos que quatro vezes nesta perícope (vv. 3, 4, 9, 11-12) e é absolutamente crucial para compreender o que Paulo quer dizer com “eleição” e “predestinação”. Paulo não está dizendo que Deus escolheu indivíduos específicos independentemente de qualquer consideração sobre Cristo. Antes, ele está afirmando que Deus escolheu Cristo, e aqueles que estão “em Cristo” – unidos a Ele pela fé – participam dessa eleição.

Não somos escolhidos à parte de Cristo, nem Cristo é meramente o meio pelo qual uma eleição previamente estabelecida se realiza. Não! Somos escolhidos “nele”, em Cristo. Isto significa que Jesus Cristo é simultaneamente o Deus que elege e o homem eleito. Cristo é o verdadeiro Israel, o Eleito por excelência. Ele é aquele que cumpriu a vocação que Israel não conseguiu cumprir.

Esse é um ponto fundamental que muitos intérpretes ocidentais perdem. No pensamento judaico do Segundo Templo, do qual Paulo emerge, a ideia de eleição estava sempre ligada à eleição corporativa de Israel como povo da aliança. Paulo está agora reinterpretando essa eleição à luz de Cristo, ou seja, o verdadeiro Israel é constituído por aqueles que estão em Cristo, tanto judeus quanto gentios. A eleição não é de indivíduos atomizados, mas de um povo corporativo definido pela sua união com o Messias.

Observe cuidadosamente a linguagem paulina: “nos escolheu”; “nos predestinou”; e “nos concedeu graça”. O pronome plural domina completamente a passagem analisada. Paulo está falando de um povo, de uma comunidade, do Corpo de Cristo. A eleição não é primeiramente sobre “mim” ou “você”, mas sobre “nós” como povo de Deus.

A tradição reformada frequentemente interpretou estes versículos através de lentes excessivamente individualistas, como se Deus tivesse uma lista de nomes específicos escolhidos antes da criação. Mas Paulo não está escrevendo sobre uma lista celestial de eleitos! Ele está proclamando que Deus escolheu ter um povo, uma família, um corpo – e este povo existe “em Cristo”.

Predestinação para adoção, não para salvação individual

Note cuidadosamente o que Paulo diz no versículo 5: fomos “predestinados para [...] sermos adotados como seus filhos” (NAA). A predestinação aqui não se refere a quem será salvo ou condenado individualmente, mas ao propósito pelo qual Deus escolheu o Seu povo, ou seja, para que fossem Seus filhos adotivos, participantes da família da aliança.

Esse é um contraste deliberado com a eleição exclusivista de Israel. Paulo está dizendo que o plano eterno de Deus sempre foi criar uma família multirracial, incorporando os gentios juntamente com os judeus em um único corpo. A “predestinação” refere-se ao destino corporativo do povo de Deus, não à determinação prévia de indivíduos específicos para salvação ou condenação. O termo grego προορίζω significa “determinar de antemão” ou “marcar de antemão os limites”, ou seja, Deus determinou de antemão a natureza e o propósito do Seu povo, não a identidade de cada membro individual.

“Antes da fundação do mundo”: prioridade do plano, não predeterminação de pessoas

Quando Paulo diz que Deus “nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo” (v. 4), ele está fazendo uma afirmação teológica sobre a prioridade e a soberania do propósito divino, não uma declaração sobre a seleção prévia de indivíduos específicos. No contexto judaico, afirmar que algo foi determinado “antes da fundação do mundo” era uma forma de dizer que fazia parte do plano eterno e imutável de Deus. O paralelo mais próximo aqui é a eleição de Israel no Antigo Testamento. Deus não escolheu cada israelita individual antes da criação; Ele escolheu Israel como povo corporativo por meio de Abraão. Da mesma forma, Deus escolheu “em Cristo” um novo povo de aliança, e aqueles que vêm a estar “em Cristo” pela fé entram nessa eleição corporativa. A eleição é em Cristo, não separada de Cristo ou antes de Cristo na ordem lógica.

A dimensão gentílica da eleição

Um aspecto frequentemente negligenciado desta passagem é que Paulo está escrevendo para gentios convertidos em Éfeso. Quando ele diz “nos escolheu” e “nos predestinou”, ele está incluindo explicitamente os gentios no povo eleito de Deus, algo que teria sido radicalmente surpreendente no contexto judaico. O versículo 13 deixa isso claro: “Nele também vocês” (NAA) – mudando para a segunda pessoa para enfatizar a inclusão dos gentios.

O ponto teológico central aqui é que a barreira entre judeu e gentio foi abolida em Cristo. A eleição não é mais uma questão de etnia ou ancestralidade abraâmica, mas de estar “em Cristo”. Isso representa uma reformulação fundamental da doutrina da eleição. Não é Israel segundo a carne que é o povo eleito, mas Israel segundo o Espírito, aqueles que estão unidos a Cristo pela fé, independentemente de origem étnica. (1)

A função retórica da linguagem de eleição

É também importante reconhecer a função retórica da linguagem de eleição em Efésios. Paulo não está engajado em especulação filosófica sobre decretos divinos eternos; ele está encorajando e fortalecendo a identidade corporativa de uma comunidade de crentes predominantemente gentios. Ele está dizendo: “Vocês não são cidadãos de segunda classe no povo de Deus. Vocês foram incluídos no plano eterno de Deus, assim como os judeus. Vocês são igualmente ‘escolhidos’, ‘predestinados’, ‘herdeiros’ – porque vocês estão em Cristo”. A linguagem aqui é de afirmação e inclusão, não de exclusão e determinismo. Paulo está combatendo qualquer noção de que os gentios convertidos sejam inferiores ou menos eleitos do que os crentes judeus. Toda a bênção espiritual que pertence ao povo da aliança – eleição, adoção, herança, o Espírito como selo – agora pertence igualmente a todos os que estão em Cristo.

O Espírito como selo: eleição confirmada pela fé

O versículo 13 é particularmente revelador para a questão da eleição: “depois que ouviram a palavra da verdade [...] tendo nele também crido, receberam o selo do Espírito Santo da promessa”. Note a sequência: ouvir, crer, ser selado. A eleição não é atualizada ou confirmada à parte da resposta humana de fé. Aqueles que ouvem o evangelho e creem são então selados com o Espírito – e é esse selo que confirma sua participação na eleição corporativa do povo de Deus. Isto contradiz diretamente qualquer noção de eleição incondicional individualista. O Espírito é dado em resposta à fé, não antes dela ou independentemente dela. A eleição em Cristo torna-se efetiva na vida do indivíduo quando esse indivíduo responde em fé ao evangelho. O plano eterno de Deus sempre foi criar um povo em Cristo, mas a participação individual nesse povo é condicionada pela fé-união com Cristo.

O mistério revelado: o plano cósmico

Os versículos 9 e 10 nos levam ao coração da teologia paulina. O “mistério” (mystērion) – termo técnico de Paulo que se refere não a algo obscuro, mas a algo antes oculto e agora revelado – é o plano divino de “fazer convergir nele, na dispensação da plenitude dos tempos, todas as coisas, tanto as do céu como as da terra” (NAA).

Aqui está o escopo verdadeiro da eleição, a saber, não é meramente sobre quem vai para o céu quando morre. É sobre a recapitulação (anakephalaiósasthai) detodas as coisas em Cristo. Paulo usa uma palavra extraordinária aqui - literalmente, “trazer todas as coisas de volta sob uma cabeça”. Cristo é a cabeça sob a qual toda a criação - céu e terra, o cosmos inteiro - será reunificada, reconciliada, restaurada. A eleição, portanto, está a serviço desse propósito cósmico. O povo eleito não é escolhido para escapar do mundo, mas para ser o instrumento por meio do qual Deus começa à renovar o mundo. Somos escolhidos para sermos agentes da nova criação, embaixadores da reconciliação, testemunhas da ressurreição. (2)

A influência do individualismo ocidental

Não é coincidência que esta interpretação individualista da eleição se desenvolveu precisamente no período em que o individualismo moderno estava nascendo no Ocidente. A Reforma ocorreu no contexto do Renascimento, da ascensão do capitalismo mercantil, da dissolução das estruturas corporativas medievais e do surgimento do indivíduo autônomo como categoria fundamental. Max Weber e Ernst Troeltsch já demonstraram as conexões entre o protestantismo reformado e o desenvolvimento do individualismo moderno. A doutrina da predestinação individual, com sua ênfase na relação direta entre Deus e a alma individual, sem mediação eclesiástica, tanto refletiu quanto reforçou esse individualismo emergente.

Paulo, escrevendo no primeiro século em uma cultura mediterrânea profundamente coletivista, simplesmente não pensava em termos individualistas! Para Paulo, a identidade era fundamentalmente corporativa – você era quem você era em virtude dos grupos aos quais pertencia: família, etnia, cidade, e, agora, supremamente, o Corpo de Cristo. A tradição reformada fez contribuições inestimáveis à Igreja cristã, especialmente com sua ênfase na graça soberana, na autoridade das Escrituras, na justificação pela fé; mas, em sua doutrina da predestinação, ela se desviou gravemente do ensino paulino. Sim, somos eleitos, eleitos em Cristo.

NOTAS

(1) BARTH, Markus. Ephesians 1–3 (Anchor Bible, 34). Nova York: Doubleday, 1974. v. 1, pp. 74, 78 e 174–175.

(2) WRIGHT, N. T. Paul and the Faithfulness of God. Minneapolis: Fortress Press, 2013. (Christian Origins and the Question of God, v. 4). cap. 10, pp. 967–1024.

por Gutierres Fernandes Siqueira

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