Apelo de pastor nigeriano chega aos EUA

Apelo de pastor nigeriano chega aos EUA


Governo dos EUA estuda intervir, mas espera atitude do governo local

Em outubro, o pastor nigeriano Harrison Ayintete gravou um vídeo dentro de uma vala comum onde estavam vários corpos de cristãos que haviam sido assassinados por radicais islâmicos. Na ocasião, ele pediu a atenção e a ajuda da comunidade internacional para deter o genocídio promovido por radicais islâmicos contra cristãos no interior do seu país e que já ceifou a vida de mais de 7 mil cristãos só nos primeiros sete meses de 2025, segundo dados oficiais, numa média de 32 mortos por dia. Rapidamente, o vídeo com o apelo desesperado do pastor Ayintete – que, em determinado momento do vídeo, se dirige à Organização das Nações Unidas (ONU) e ao governo dos Estados Unidos, pedindo para acabarem com o massacre de cristãos na Nigéria – viralizou nas redes sociais, sendo assistido por milhões de pessoas em todo mundo e chegado ao governo dos EUA.

“Estamos cansados de estar realizando enterros todos os dias e eles esperam que fiquemos em silêncio. Agora, é uma ordem: governo da Nigéria, venha abertamente e negue que há massacre, que há genocídio de cristãos na Nigéria. Olhe para isso hoje [fala apontando para os corpos em vala comum], provem se há algum muçulmano aqui. Nações Unidas, eu sei que vocês estão me assistindo. Senado americano, vocês estão vendo o que estou fazendo, o que estou dizendo aqui. Conselheiro especial de Trump, agora, por favor, diga a Trump para salvar nossas vidas na Nigéria. Eles estão matando cristãos, massacrando cristãos”, declara pastor Ayintete no referido vídeo, onde está cercado por familiares e amigos dos mortos.

O Mensageiro da Paz e o site CPADNews têm divulgado nos últimos anos, com destaque, essa onda de perseguição aos irmãos nigerianos. Segundo dados do Global Christian Relief (GCR), organização que trabalha na divulgação e ajuda aos cristãos perseguidos no mundo, a Nigéria é hoje “o centro mundial de mártires cristãos”. Nos últimos anos, “o número de cristãos mortos por grupos extremistas na Nigéria raramente é inferior a 4.000”. A organização explica que “a violência contra a população cristã nigeriana está significativamente localizada no norte do país, onde doze estados de maioria muçulmana declararam a lei islâmica (sharia) em 1999, resultando em um grande número de cristãos sofrendo discriminação diária. Porém, foi a ascensão de um movimento extremista chamado Boko Haram, que iniciou seus ataques assassinos em 2009, que resultou em uma violência sem precedentes contra os cristãos nigerianos”.

De acordo com um relatório de abril de 2023 da Sociedade Internacional para as Liberdades Civis e o Estado de Direito, só de 2009 a 2023, pelo menos 52.250 cristãos perseguidos foram mortos na Nigéria simplesmente por serem cristãos. E nos últimos cinco anos, conforme relatório da GCR, “a violência espalhou-se também para o sul do país, atingindo a região central da Nigéria, com pastores fulani radicalizados a matar cristãos para roubar as suas terras. O Boko Haram agora conta com o apoio de outro grupo extremista que atua na região, chamado Estado Islâmico da Província da África Ocidental (ISWAP), e ambos buscam a erradicação do Cristianismo dos estados do norte. A violência resultou em mais de quatro milhões de refugiados, em sua maioria agricultores cristãos. O governo da Nigéria se mostrou relutante em condenar os níveis de violência, que alguns consideram genocidas, ou inepto em suas tentativas de dialogar e neutralizar movimentos extremistas”.

Segundo o portal Persecution.org, um novo relatório da Sociedade Internacional para as Liberdades Civis e o Estado de Direito (Intersociety) denuncia uma campanha sistemática de destruição contra os cristãos na Nigéria. O documento afirma que grupos jihadistas destroem cerca de 100 igrejas por mês e que, desde 2009, aproximadamente 19.100 templos foram atacados, incendiados ou fechados sob ameaça de armas. Segundo sobreviventes e investigações, os autores desses ataques seriam realmente, como já tem sido denunciado há anos, terroristas islâmicos do Boko Haram e pastores fulani fortemente armados, mas também terroristas do Estado Islâmico da África Ocidental (ISWAP). De acordo com o Parlamento Europeu, só de 2019 a 2023, quase 17 mil cristãos foram mortos na Nigéria em ataques direcionados por causa de sua fé. E só nos primeiros sete meses de 2025, além dos já registrados mais de 7 mil mártires, houve ainda 7.800 sequestros de cristãos nigerianos, que se encontram em poder dos radicais islâmicos, sobretudo mulheres – isso se muitos destes sequestrados já não estão mortos também. Por trás desses números estão famílias destruídas, aldeias arrasadas e, como já frisado, comunidades forçadas a fugir.

A reação do governo nigeriano tem sido negar as denúncias de massacre. Entretanto, a situação se complicou para o governo, uma vez que o governo dos Estados Unidos manifestou, em resposta ao vídeo do pastor Ayintete, a intenção de intervir. A gestão do presidente norte-americano Donald Trump mencionou não apenas as chacinas, mais os requintes de crueldade, com denúncias de decapitações e estupros. Em resposta, o presidente da Nigéria, Bola Ahmed Tinubu, afirmou, por seu porta-voz, em 2 de novembro, que está disposto a se reunir com o presidente dos EUA. A declaração ocorreu um dia após Trump ter postado nas redes sociais que solicitou ao Pentágono que se preparasse para uma possível ação militar na Nigéria. Porém, dois dias depois, em 4 de novembro, em uma coletiva de imprensa em Berlim, Alemanha, o ministro das Relações Exteriores da Nigéria, Yusuf Tuggar, negou haver genocídio e acrescentou que “é impossível que a perseguição religiosa seja apoiada de qualquer forma pelo governo da Nigéria, em qualquer nível”, já que a Constituição do país é a favor da liberdade religiosa e, segundo Tuggar, o governo nigeriano “tem um compromisso constitucional com a liberdade religiosa e o Estado de Direito”.

Realmente, a Constituição da Nigéria estabelece legalmente a liberdade religiosa no país. O problema é que ela não tem sido, de fato, observada nesse quesito, seja por incompetência ou por negligência do governo daquele país em combater os radicais islâmicos. A Nigéria é um país com 53,5% de muçulmanos e 45,9% de cristãos. Até pouco tempo, o número de cristãos e islâmicos no país era quase o mesmo. Com essa superação dos islâmicos em número nos últimos tempos, apesar do crescimento constante de cristãos no país, teme-se que possa ocorrer com a Nigéria o que ocorreu com o Líbano, que era um país de maioria cristã – o único país de maioria cristã no Oriente Médio –, mas com um número muito grande e crescente de islâmicos, até que, quando o número de muçulmanos superou o de cristãos, os islâmicos tomaram o poder e passaram a perseguir os cristãos, com grande parte deles fugindo do país.

Desde 1963, quando se tornou totalmente independente da Inglaterra, a Nigéria foi governada por muçulmanos nos anos de 1975-1976 (golpe militar), 1979-1999 (ditadura militar de 1983 a 1999), 2007-2010 e de 2015 até agora, com a onda de perseguição aos cristãos começando em 2009 e podendo ter sido extinguida se os presidentes muçulmanos do país não fossem incompetentes e/ou negligentes em relação ao que vem acontecendo. As únicas tentativas do governo nigeriano de deter os radicais islâmicos foi em ofensivas feitas durante o governo do presidente evangélico Goodluck Jonathan, de 2010 a 2015, que, apesar de muitas falhas como governante, foi o único que tentou efetivamente fazer alguma coisa em relação a esse problema.

Em 5 de novembro, um dia após a coletiva em Berlim do ministro nigeriano, o presidente Donald Trump declarou em suas redes sociais: “Se o governo nigeriano continuar permitindo o assassinato de cristãos, os Estados Unidos suspenderão imediatamente toda ajuda e assistência à Nigéria. Faremos coisas à Nigéria que a Nigéria não aprovará e poderemos muito bem invadir esse país agora desonrado, com armas em punho, para exterminar completamente os terroristas islâmicos que estão cometendo essas atrocidades horríveis”. No mesmo dia, a China comunista saiu em defesa da Nigéria, inclusive com o premiê chinês se reunindo com o presidente da Câmara dos Representantes da Nigéria no mesmo dia. O que acontecerá ainda não sabemos, mas oremos pela Nigéria, para que essa chaga de perseguição aos cristãos ali chegue ao fim.

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