Em Romanos 12.8, observamos que o apóstolo Paulo menciona alguns dons, e um dos listados é o da “liberalidade”. Mas como funciona a dinâmica desse dom?
Em Romanos 12, o apóstolo Paulo apresenta uma das listas mais relevantes sobre os dons espirituais no Novo Testamento. Essa lista é paralela a outras, como as encontradas em 1 Coríntios 12 e Efésios 4, nas quais o apóstolo também trata da variedade de dons concedidos pelo Espírito Santo à Igreja. Cada uma dessas listas possui ênfases distintas, mas todas têm o mesmo propósito: demonstrar que os dons são manifestações da graça de Deus distribuídas para a edificação do Corpo de Cristo.
Dentre os dons mencionados em Romanos 12, o “dom de repartir”
ou “de liberalidade” (metadidous en haplotēti) chama a atenção por sua
natureza prática e por enfatizar a generosidade como expressão espiritual. O texto
declara: “ou o que reparte, [faça-o] com liberalidade” (Romanos 12.8 – ARC). Em
um contexto em que a Igreja é descrita como um corpo composto de muitos membros,
Paulo destaca que cada dom deve ser exercido de maneira sincera, diligente e
amorosa. Assim, compreender a dinâmica do dom da liberalidade implica reconhecer
como ele reflete o caráter de Cristo e contribui para a edificação da Igreja.
O significado bíblico e teológico da liberalidade
O termo traduzido por “liberalidade” (haplotēs)
significa, literalmente, “simplicidade”, “sinceridade” ou “generosidade sem
segundas intenções”. (1) Ele descreve uma disposição interior de dar sem buscar
retorno, sem ostentação ou hipocrisia. Segundo John Stott, a liberalidade é “a
generosidade de coração que nasce do reconhecimento de que tudo o que possuímos
vem de Deus”. (2) Paulo, portanto, não trata de um ato eventual de caridade, mas
de uma graça concedida pelo Espírito Santo para que o cristão contribua às
necessidades do próximo de forma contínua e espiritual.
Além disso, a liberalidade aparece em outros textos paulinos
como característica essencial do verdadeiro cristão. Em 2 Coríntios 9.7, Paulo
afirma: “Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, nem
por constrangimento; porque Deus ama ao que dá com alegria”. A liberalidade não
é apenas uma virtude moral, mas um dom que reflete a natureza do próprio Deus.
A dinâmica do dom da liberalidade na vida da Igreja
A dinâmica do dom da liberalidade manifesta-se na prática do
serviço cristão e na administração dos recursos para o bem comum. Paulo, ao
mencionar esse dom, não restringe sua aplicação às contribuições financeiras,
mas inclui toda forma de generosidade que visa suprir necessidades espirituais
e materiais no Corpo de Cristo. Os dons espirituais são manifestações da graça
divina que operam por meio dos crentes para benefício mútuo; portanto, o dom de
repartir é a expressão concreta do amor cristão, e a contribuição,
biblicamente, deve ser feita com um coração puro e generoso.
Na comunidade cristã primitiva, a liberalidade foi um dos sinais
mais evidentes da presença do Espírito Santo (Atos 4.32-35). Os crentes
compartilhavam seus bens com alegria, demonstrando unidade e amor. Assim, o
exercício do dom da liberalidade contribui para a comunhão e para a missão da
Igreja, combatendo o egoísmo e a avareza, e promovendo a dependência de Deus.
Esse dom também é essencial para o sustento da obra missionária e do ministério
cristão, sendo um meio pelo qual Deus supre as necessidades do Seu povo.
Desse modo, a liberalidade demonstra a diversidade e a harmonia
do agir do Espírito Santo na Igreja. Quando exercido corretamente, o dom da liberalidade
promove unidade, sustento e testemunho do Evangelho. Em uma sociedade marcada
pelo individualismo e pela ganância, a liberalidade torna-se um sinal
contracultural do Reino de Deus, mostrando que a verdadeira riqueza está em
repartir e servir. Assim, o cristão torna-se um canal da graça divina,
participando da própria generosidade de Deus e tornando visível o amor de Cristo
no mundo.
NOTAS
(1) RIENECKER, Fritz; ROGERS, Cleon. Chave Linguística do
Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997, p. 277.
(2) STOTT, John. A mensagem de Romanos. São Paulo:
ABU Editora, 2003, p. 327.
por Eduardo Leandro Alves
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