Os discursos da sabedoria contra a lógica da loucura

Os discursos da sabedoria contra a lógica da loucura


A essência de Provérbios é o ensino da moral e dos princípios éticos, tendo como peculiaridade o ensinamento por meio de contrastes, vistos entre o bem e o mal. No livro, o “bem” é expresso por muitas palavras, mas é destacado aqui pela “sabedoria”, principalmente na primeira seção, entre os capítulos 1 e 9, onde ela é mencionada 17 vezes. Provérbios 1.7 diz: “O temor do Senhor é o princípio do conhecimento; os loucos desprezam a sabedoria e a instrução”. Esse teor é repetido em Provérbios 9.10, o qual pode ser considerado como o tema do livro.

Desse livro, podemos extrair princípios para termos uma vida prudente, ética e bem-sucedida. Ele carrega a maturidade de um dos homens mais sábios do Antigo Testamento: Salomão. No capítulo 9, apresenta-se um dos textos mais potentes acerca da tensão e do contraste entre duas personificações metafóricas e seus discursos: a sabedoria proveniente do Espírito de Deus e da Sua graça (vv. 1-12), e a loucura do mundo (vv. 13-18).

Em suas apresentações, a voz da sabedoria, uma representação de Deus, contrapõe-se à voz da loucura, caracterizada por uma meretriz (mulher louca) que possui discursos nocivos. Ambas apresentam seus discursos, suas mesas e suas casas, mas com um diferencial: a sabedoria possui um discurso original e sem plágio. O alvo dos discursos são as pessoas simples que passam pelo caminho e avaliam seus diálogos: a sabedoria apresentando um discurso para a vida, se contrapondo à loucura, que traz uma fala para a morte.

Por meio da sabedoria, o exercício das palavras visa a atingir a mente e ao coração humanos, nutrindo-os com uma informação correta, por falar aos sentidos do homem, evitando a falta de sentido e de direção, instruindo corretamente para a mudança.

A sabedoria faz um convite em forma de cortejo para que o “simples” adentre sua casa, observe sua estrutura e desfrute de seu banquete (vv. 1-3). Ela tem uma casa firme, com sete colunas, representando completude e firmeza — uma estrutura perfeita. Seu banquete é ofertado em um lugar seguro e acompanhado de um discurso antecipado e cheio de provisões. Sua casa é um ambiente cheio de comunhão, constituído pela mesa e pela comensalidade (v. 2). A sabedoria sacrificou suas vítimas (carne recém-abatida, que era um diferencial nos banquetes bíblicos, principalmente porque era ofertada aos príncipes) e misturou seu vinho com temperos aromáticos (um gênero precioso no Antigo Israel), acentuando seu cheiro e melhorando seu sabor (Cantares 8.2).

O alvo da sabedoria é auxiliar as pessoas simples que ainda não se decidiram pela vida. Com as palavras “pão e vinho”, ela promete vida e liberdade (v. 5). Seu alimento sólido produz vida e crescimento espiritual sadio.

Já pela loucura temos uma proposta indecente aos simples que passam reto pelas veredas (v. 15). A tolice da loucura é apresentada por Salomão nas atitudes de uma meretriz, que prostitui e engana (vv. 13-18), tendo um discurso escandaloso e atrevido. Ela, além de ser insensata, age por meio do grito inconsequente, estridente, indisciplinado, de alguém que não sabe coisa alguma (vv. 10-12). Ela está em um local indesejável (v. 14).

Apesar de ser loucura, há nela um método. Ela usa as mesmas palavras da sabedoria, convidando também a um banquete, mas a questão é que não possui nenhum banquete maravilhoso para seus convidados. Sua comida é ordinária, furtada e escassa. Sua mesa é cheia de engano e morte: 1) as águas roubadas são doces; 2) o pão comido às ocultas é suave (v. 17). Em torno de sua mesa não há crescimento nem liberdade, porque seu alimento, além de ser roubado e oculto, produz morte e lança seus convidados nas profundezas do inferno (v. 18). Ela prefere manter as pessoas ingênuas, sem liberdade e com falta de entendimento eternamente, pois são presas fáceis de manipular. Ela promete a imoralidade dos valores da vida. Na lógica do mundo, a sabedoria de Deus é uma loucura e, à luz da sabedoria de Deus, a sabedoria do mundo é uma loucura.

Há um embate de falas entre a casa da sabedoria e a casa da loucura. Quem tem a razão, uma vez que o convite parece ser o mesmo? Somos chamados a refletir, discernir e ir além dos discursos que confundem a mente. Precisamos estar prontos para responder de maneira eficaz aos discursos da loucura com a sabedoria, aplicando as luzes da sabedoria num mundo cheio de trevas. Precisamos utilizar a sabedoria divina para distinguir entre a sabedoria e a loucura na sobrevivência neste mundo.

Por meio da sabedoria, os simples alcançam discernimento entre a verdade e o erro. O caminho da sabedoria é de crescimento e prosperidade, e há benefícios e recompensas que são adquiridos, como: 1) o “temor do Senhor”, que é o princípio de toda sabedoria, um reconhecimento da santidade divina; 2) habilitação para as verdadeiras relações - a) rejeitamos o ímpio e b) acessamos os sábios e nos tornamos sábios (vv. 7-9) -; 3) temos dias acrescentados e vida abundante (vv. 11-12).

Assim, diante dos discursos de imoralidade da loucura, a sabedoria possui discursos e atos libertadores que visam nos resgatar dos caminhos e das profundezas do abismo. A sabedoria chegou primeiro, e sua proposta de resgate é “nos tirar da potestade das trevas e nos transportar para o reino do Filho do seu amor” (Colossenses 1.13). Arrancados do império das trevas para o reino da luz, saímos da escravidão para a liberdade dos filhos de Deus e, por isso, temos acesso à Sua rica mesa e podemos comer das finas iguarias do Seu banquete. Nisso se resume o nosso modelo de sabedoria no Cristianismo: a nossa liberdade em seguir a Jesus e as Suas instruções deixadas na Bíblia.

por Idail Santos Costa

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