Em Salmos 38, Davi dá a entender que adoeceu como resultado de seu pecado? Como entender essa questão?
Devemos ser cautelosos no que tange à questão das origens das doenças, em especial quando se trata da vida cristã, por causa de certas hermenêuticas subjetivas. As mais variadas interpretações e concepções erradas têm surgido sobre o tema, dentre elas a de que um crente sincero não adoece ou, se o mesmo está doente, é devido a algum tipo de pecado não confessado. Antes de adentrarmos especificamente no tema proposto, há que se dizer biblicamente que, devido ao pecado original cometido no Éden por Adão e Eva, sobreveio a maldição sobre a criação, envolvendo sofrimento, doenças, enfermidades e morte (Gênesis 3.16,19; Romanos 5.12), afetando a humanidade.
É imperioso fazer distinção entre o pecado original e o
pecado pessoal. O primeiro trouxe todo tipo de males ao mundo físico e humano,
envolvendo doenças, fraquezas e morte para o homem caído. O segundo, o pecado
pessoal, é visto como uma atitude consciente e transgressora contra a Lei de
Deus. Nesse caso, podem acontecer certas consequências envolvendo sofrimentos
ou doenças físicas e emocionais. Porém, nem toda doença é resultado direto do pecado.
Isso obviamente se vê no caso de Jó, que não havia cometido algum tipo de
pecado pessoal deliberado, mas sua enfermidade era uma prova divina. Jesus assegurou
que nem toda doença é por causa de pecado cometido (João 9.3). Algumas
enfermidades podem ser usadas para propósitos divinos, objetivando levar a
pessoa a estar mais perto de Deus (2 Coríntios 12.7-10), à manifestação da
glória divina (João 9.3), a fortalecer caráter e fé (Tiago 1.2-4), à confiança
na graça e providência divina (Filipenses 4.11-13; Salmos 73.26) ou à
perseverança na fé e restauração (Romanos 8.18-23) Diversos homens de Deus adoeceram
e não haviam cometido pecados pessoais: Jó (Jó 1.1,2; 2.7,10), Timóteo (1Tm
5.23), Epafrodito (Filipenses 2.25-27), Trófimo (2Tm 4.20), dentre outros.
Eliseu adoeceu e morreu dessa doença (2 Reis 13.14).
O Salmo 38 é de natureza penitencial. Nele, Davi reconhece conscientemente
que, por causa do peso do seu pecado, este somatizou-se em grandes áreas de sua
vida com desagradáveis consequências: sofrimento físico, espiritual, emocional
e mental, e abandono. O salmista entendia que tudo isso aconteceu em sua vida porque
não confessou sua culpa.
Nos versos 1-8, o salmista expressa dores corporais e
evidencia uma realidade espiritual por causa do pecado não confessado. Ele não alega
inocência, nem questiona Deus. O texto não está sugerindo que toda enfermidade
seja resultado direto do pecado pessoal, mas que, no caso de Davi, havia, sim,
uma relação com a culpa e um tratar divino disciplinatório. Essa realidade é
consubstanciada com outras passagens que aludem ao tema (S] 32.3,4; Provérbios
14.30; 1 Coríntios 11.30). Tacitamente, afirmamos que pecados não confessados
podem trazer doenças psicossomáticas e espirituais. Há ligação entre o pecado e
o sofrimento. Observe que o texto hebraico fala de enfermidades físicas, o que
se liga com “não há saúde na minha carne”, “as minhas chagas cheiram mal”. Tais
palavras são metáforas que descrevem uma realidade espiritual. Davi se sentia
destruído, esmagado pelo pecado, como se estivesse enfermo. Ele aceita esse sofrimento
como merecido, mas busca misericórdia de Deus para seu alívio. Nos versos 9-14,
por causa do pecado não confessado, há isolamento espiritual e social. O
tratamento que recebe é outro, inclusive dos que se diziam amigos, seus
companheiros e parentes. Todos se mantêm distantes e aproveitam-se do seu
momento de fraqueza e angústia, como em Jó.
O salmo não é concluído com um tom de desespero (vw. 15-22),
mas com um pedido do salmista a Deus para que o ajudasse em sua salvação, o que
evidencia que a cura envolvendo corpo e alma é possível quando se recebe o perdão
através da confissão. A esperança do salmista pela libertação volta pela
confissão de pecados e o pedir a misericórdia divina. Assim, pecados não
confessados podem afetar corpo e mente, seja no sentido de disciplina divina como
pela somatização psíquica. A real solução para esse quadro é fazer uma
confissão sincera, verdadeira, marcada por um real arrependimento na
dependência da graça divina, pois quem encobre Suas transgressões jamais prosperará,
mas os que as confessam e deixam alcançam misericórdia (Provérbios 28.13; 1; João
1.9).
por Osiel Gomes
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