Relações ambíguas entre China e Israel

Relações ambíguas entre China e Israel


A quem se referiu o profeta Isaías, quando proferiu o chamamento registrado no capítulo quarenta e nove, versículo doze do livro que leva seu nome: “Vejam! Estes vêm de longe, estes do Norte e do ocidente, e estes da terra de Sinim”? No contexto da revelação, o servo de Deus contemplou tempos futuros, quando muitos chegariam a Israel, a partir das terras mais distantes, dentre elas a longínqua Sinim. Para alguns estudiosos, o termo refere-se à China, e a tal perspectiva aderem aqueles que consideram serem os chineses descendentes de Yafeh e de Ásia, nome tradicionalmente atribuído à nora de Noah, sendo particularmente oriundos de seu descendente, Togarma. Esse Togarma teria herdado, de sua ancestral Ásia, as características físicas que desenharam seus olhos, cabelos e cor da pele. A opinião não é unânime, mas é curioso saber que os modernos estudos genéticos apontam nessa mesma direção, fazendo europeus e chineses herdeiros do mesmo tronco familiar. Outro aspecto precisa ser observado: o profeta refere-se ao retorno dos judeus espalhados pelo mundo, o que nos leva à conclusão de que há judeus na terra de Sinim, que retornarão a Israel.

A hoje pequena comunidade judaica chinesa pode retroceder sua história em mais de mil anos, com períodos reportando um maior ou menor número de integrantes. Houve um aumento significativo em Xangai, por ocasião da Segunda Guerra Mundial, quando muitos judeus emigraram, devido à perseguição nazista na Europa. Com o tempo, permaneceram alguns descendentes, tanto dessas famílias mais antigas, quanto dos refugiados da guerra.

Foi justamente no período pós-Guerra que a relação entre os dois países sofreu importantes alterações, que marcaram definitivamente as relações diplomáticas atuais. Em 1950, Israel foi o primeiro país do mundo a reconhecer oficialmente a República Popular da China. Quatro anos depois, Zhou Enlai manifestou o desejo de seu país em estabelecer relações amistosas com o Estado Judeu. Houve, no entanto, um lapso de tempo na diplomacia israelense, por assim dizer, em formação, uma vez que o Estado foi fundado em 1948. Em 1955, Israel formalizou sua intenção de estabelecer relações diplomáticas com a China. Nesse tempo, porém, líderes árabes adiantaram-se em firmar e fortalecer relações com a República do Oriente. A partir daí, a China tem se apresentado como apoiadora dos movimentos árabes, tendo sido pró-árabe em todos os conflitos posteriores à Segunda Guerra, assumindo sempre uma postura crítica com relação a Israel. Da crise do Canal de Suez, passando pela Guerra dos Seis Dias, aos conflitos com o Líbano e chegando aos embates em Gaza, a China apoia os grupos árabes envolvidos, em especial os movimentos chamados de libertação nacional. Em 2004, foi estabelecido o Fórum de Cooperação Sino-Árabe (CASCF), com abrangência sobre os governos incluídos na chamada Liga Árabe. O governo chinês mantém fortes laços com Teerã e defende a criação de um Estado Palestino.

O interesse da nação pelos conflitos que se desenrolam no Oriente Médio está firmado nas orientações do Partido Comunista Chinês, apresentados normalmente como a disposição de quatro círculos concêntricos, seguindo a ordem de prioridades do menor círculo ao mais externo. São eles: em primeiro lugar, a segurança interna e a soberania da China; em segundo lugar, as relações com os 21 estados fronteiriços; em terceiro lugar, as relações entre as regiões da Ásia Central, Oceania, Sul da Ásia, Nordeste da Ásia, Sudeste Asiático Marítimo; em quarto e último lugar, o Oriente Médio e o restante da Terra. A proposta, no entanto, se não sofreu alterações filosóficas, tornou-se mais pragmática na visão de Xi Jinping, para quem o povo chinês precisa ser “proativo, em busca de realizações”. O que o líder não consegue e nem parece querer ocultar é que a principal realização seja ocupar a posição de nação protagonista na cena mundial. A China quer fortalecer sua posição global, projetar-se como potência indispensável, tanto como influenciadora e intermediadora política, como fornecedora de lições de governança e de apoio tecnológico. Para tanto, procura oferecer apoio político, participar nos processos de paz, manter laços diplomáticos e participar de contratos tecnológicos, inclusive através de apoio financeiro.

Uma análise do comportamento do governo chinês parece justificar o termo, já cunhado na diplomacia internacional, que define as relações a partir daquela nação como sendo de “ambiguidade estratégica”. Pode-se observar a pertinência do termo à medida em que o círculo externo de suas pretensões tem alcançado especial importância. Por exemplo, quando do lançamento da Iniciativa do Cinturão e Rota da Seda (BRI), em 2013, o projeto consistia na Iniciativa da Rota Marítima da Seda e do Cinturão Econômico da Rota da Seda Terrestre, envolvendo terras e o mar no Oceano Índico, com regiões próximas. Mas, o projeto cresceu, acrescentando a Rota da Seda Digital, a Rota da Seda Espacial e a Rota da Seda da Saúde. Os projetos foram incorporados à constituição chinesa em 2017. O que há de ambíguo no projeto expansionista é a tentativa de conciliação deste com uma postura de cooperação e de paz. A participação simultânea e adesão a projetos de países vivendo em conflito mútuo reforça tal duplicidade.

Em Israel, há marcas da presença chinesa em alguns dos mais modernos e importantes projetos de infraestrutura: nos Túneis Carmel, na ferrovia Akkro-Karmiel(Carmelo), construída pela Corporação de Engenharia Civil Chinesa, no Túnel da Linha Vermelha do sistema metrô leve de Tel Aviv, no Grupo Co Ltda de Túneis Ferroviários da China, além do setor portuário, através do Grupo Internacional de Portos de Xangai, contratado para gerenciar o Porto Norte de Haifa. O terminal Shouthport de Ashdod foi desenvolvido por uma companhia chinesa (2022) e será operado pela China por 21 anos. Empresas israelenses foram adquiridas por companhias chinesas, passando conhecimentos teórico administrativos, químicos (como o conhecimento adquirido a partir da aquisição de indústrias de pesticidas), alimentícios, dentre outros. Até mesmo a conhecida linha cosmética Ahava Dead Sea Laboratories pertence hoje, integralmente, ao conglomerado chinês Fosun International; a compra da totalidade das ações ocorreu em 2016.

A Carta Internacional da Associação Brasileira de Relações Internacionais (ISSN 2526-9038) traz um importante artigo (2024) intitulado “China e o Conflito Israel Palestina: transformações e ambiguidades estratégicas”, do Dr Fernando Brancoli e da Dra Tamires Alves, do qual extraímos várias das informações aqui comentadas. Citamos textualmente: “enquanto a China aumenta seu envolvimento econômico com Israel, a clareza de suas intenções políticas permanece nublada”.

O interesse crescente da China pelo inegável conhecimento tecnológico de Israel caminha simultaneamente à sua posição política anti-Israel. As declarações e disposição de ser uma intermediadora da paz diverge da participação ativa nos conflitos apoiados pela nação. A postura proclamada de ser uma observadora imparcial não se sustenta diante do sonho do protagonismo mundial. O resultado disso é uma combinação estranha que bem merece a já citada denominação de “ambiguidade estratégica”, onde convivem discursos políticos assertivos e pacíficos com veladas intenções. De fato, um ambiente nublado.

Consolam-nos as palavras do profeta Isaías, pois ele nos declara que o momento do retorno dos filhos de Israel será motivo de alegria, a ponto de ordenar: “Exultai, ó céus, e alegra-te tu, terra, e vós, montes, estalai de júbilo, porque o Senhor consolou o seu povo e dos seus aflitos se compadecerá” (v. 13). Assim, independentemente das intenções dos corações humanos, o Senhor está levando a termo o cumprimento da Palavra, fazendo retornar Seus filhos das terras para onde foram dispersos. Quanto aos intentos íntimos dos homens, nós não conhecemos e os estudos, mesmo os bem fundamentados, não podem alcançar. Deus, porém, não esqueceu de Seu povo e em breve corrigirá os que guardam em si escusos propósitos: “Eis que, na palma das minhas mãos te tenho gravado; os teus muros estão continuamente perante mim. Os teus filhos apressadamente virão, mas os teus destruidores e os teus assoladores sairão para fora de ti” (vs. 16 e 17).

As terras de Sinim pareceram distantes ao profeta, mas não estão excluídas ou distantes da Graça de Deus. A obra de salvação prossegue em terras chinesas, alcançando vidas e levantando uma Igreja forte, vencedora em tempos de aflições, tendo provado, por vezes com seu próprio sangue, que sua fé e seu amor por Jesus Cristo são reais. Sinim também guarda um remanescente de filhos de Abraão que o Espírito fará retornar a Israel. Se retornarão por uma das muitas novas ‘rotas da seda’ que justificarão seu deslocamento, não sabemos. O que é certo é que a Palavra se cumprirá, afinal, o estratégico olhar da China em direção ao mundo não é maior, mais profundo ou abrangente do que o olhar amoroso do Senhor pelas terras e a gente de Sinim.

por Sara Alice Cavalcanti

Compartilhe este artigo. Obrigado.

Deixe seu comentário

Seu comentário é muito importante

Postagem Anterior Próxima Postagem