Que tipo de igreja nós queremos ser

Que tipo de igreja nós queremos ser


Certa feita, os urubus tomaram o poder na floresta e impuseram seu estilo de vida a todos os animais. Sua culinária, sua moda, sua estética e mesmo suas preferências musicais tornaram-se o padrão e a referência para todos. Os pintassilgos, muito cordatos, esforçavam-se sobremaneira para corresponder às exigências dos urubus. Entretanto, os pobres pintassilgos não conseguiam se acostumar com o cardápio de carniça que deveria substituir sua dieta de frutas, tão pouco conseguiam andar como os urubus, reproduzindo os requebros e os grunhidos que os urubus chamavam de música. Observando os desajeitados pintassilgos, os urubus concluíram sumariamente: “Não adianta. Um pintassilgo sempre será um urubu de segunda categoria”.

A estória acima foi escrita por Rubem Alves e demonstra como todos nós procuramos modelos para pautar nosso estilo de vida. E há estilos de toda espécie. Uns mais para urubus, outros mais para pintassilgos. Alguns desses modelos nos fascinam e seduzem. Todavia, a Igreja tem nas Escrituras e no exemplo dos cristãos primitivos o referencial para sua fé e prática. Certo slogan declara: “Se podemos sonhar algo, então podemos realizá-lo”. Se isso for verdade, só poderemos construir a igreja ideal se, primeiro, pudermos imaginá-la. Esta é nossa pretensão: a partir do texto de Atos 17.1-15, idealizaremos a igreja da qual teríamos orgulho.

No referido texto, Lucas deixa transparecer um juízo de valor sobre a igreja em Bereia, classificando-a como “mais nobre” que a de Tessalônica. Numa leitura atenta, podemos ver como a comunidade de Tessalônica se mostrou falha em vários aspectos. Tessalônica era a comunidade da qual teríamos vergonha. Mas, a poucos quilômetros dali outra comunidade entrou para a história pela pena de Lucas, recebendo os elogios que toda igreja gostaria de receber para si. Vejamos, então, quais as características que fizeram de Bereia uma igreja mais nobre.

A Igreja que queremos ser precisa ser uma comunidade aberta ao diálogo (Atos 17.11b)

Por comunidade aberta ao diálogo quero dizer uma igreja que converse com as pessoas, que saiba interagir com os diferentes, sem os menosprezar ou julgá-los. Como uma comunidade aberta, a igreja é ávida pela Palavra de Deus e, como resultado disso, será acolhedora do novo, mas sem desprezar as tradições.

A Igreja que queremos ser precisa ser madura (Atos 17.11c)

Uma comunidade madura é crítica. Os bereianos estavam abertos para as novidades, mas sem ingenuidade. Queriam conferir nas Escrituras para ver se as coisas são de fato assim. Karl Sagan disse: “Devemos ter a mente aberta, mas não tão aberta a ponto de o cérebro cair para fora”. A comunidade de Bereia não vai atrás de qualquer novidade, não se ilude com a moda religiosa, não se embriaga com as novidades das paradas de sucesso, nem se deixa enganar por eloquentes animadores de auditório. Diante da novidade, propõem: “Vamos ver se as coisas são de fato assim, vamos conferir nas Escrituras Sagradas”. Acredito que os bereianos sabiam que, se Jesus fosse o Messias esperado, as Escrituras seriam claras em relação a isso. Devemos questionar ensinamentos que não têm base bíblica, por mais acostumados que muitos estejam com eles. Imagine quantas tradições judaicas os bereianos poderiam seguir, mas isso não os impediu de questioná-las.

Uma igreja madura é atualizada. Preocupa-se com sua “reciclagem”. A expressão “dia a dia” mostra como eles liam e reliam as Escrituras aplicando-as ao seu contexto e à sua vida

A Igreja ideal é comunidade evangelizadora (Atos 17.12-15).

Uma igreja evangelizadora é ortoprática. Bereia era uma igreja ortodoxa, conhecia sua tradição, mas era também ortoprática, vivendo de acordo com o que cria. Havia uma coerência e uma consequência entre fé e prática (Atos 17.12,14,15). Uma Igreja evangelizadora é organizada (Atos 17.15). Eles eram habilidosos e eficientes na ação evangelizadora. Uma Igreja evangelizadora é solidária (Atos 17.13-15). Diante da perseguição promovida pelos intolerantes tessalonicenses, os bereianos não se eximiram de suas responsabilidades. Esforçaram-se e protegeram, financiaram e ampararam Paulo, Silas e Timóteo.

Precisamos reunir as características acima mencionadas e seremos uma igreja nobre como a de Bereia. Afinal, que tipo de igreja queremos ser? Qual a nossa mais legítima identidade? Quando simplesmente copiamos estranhos modelos, perdemos nossa identidade e passamos a ter vergonha do nosso nome, mas se revitalizarmos nossa tradição à luz da Palavra de Deus, teremos prazer de sermos o que somos e, talvez, descubramos, afinal de contas, que não é tão ruim, assim, ser pintassilgo. O caráter nobre dos bereianos produziu preciosos frutos. Por manterem este zelo e amor pelas Escrituras, muitos foram salvos (Atos 17.12). Hoje, os bereianos são exemplos para a igreja atual. Queremos ser uma igreja acolhedora e missionária, que promove a restauração das pessoas e desenvolve oportunidades para a vida em comunhão e serviço cristão, com atuação relevante e inovadora na nossa comunidade e no mundo. Queremos ser uma igreja onde cada pessoa mantenha uma atitude de absoluta lealdade a Cristo, vivendo em Sua presença, experimentando Seu poder e cumprindo Seu propósito.

Queremos ser uma igreja onde cada pessoa cultive uma atitude de transparência, simplicidade, perdão e aceitação no trato umas com as outras. Queremos ser uma igreja evangelizadora que prega o Deus que deseja salvar a todos, que não faz acepção de pessoas. Queremos ser uma igreja que valoriza pessoas acima das coisas, uma comunidade que não apenas cumprimenta como irmãos, mas vive como irmãos.

Queremos ser uma igreja que crê no sobrenatural, mas que não esquece que Deus nos usa nas coisas simples e naturais do dia a dia. Queremos ser uma igreja que ama como Cristo amou, mesmo que nos custe tempo, dedicação, esforço, perdas ou até a própria vida. Queremos ser uma igreja dependente de Deus e responsável pelo nosso próximo. Queremos ser uma igreja fluente em nossa sociedade sem comprometer a verdade do evangelho com políticas, mentiras, esquemas, disputas, partidarismo ou ódio. Queremos ser uma igreja sem legalismos, mas que faça o melhor para Deus.

por Sérgio Pereira

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