O Estreito de Ormuz: uma porta sob o controle de Deus

O Estreito de Ormuz: uma porta sob o controle de Deus


Costumeiramente, vemos o mapa mundial como uma coleção de várias grandes extensões de terra, divididas por mares imensos e internamente repartidas entre nações. Tudo parece vasto e grandioso, perfeitamente conectado por caminhos terrestres, marítimos e, por pressuposto, aéreos. Num primeiro momento, não cogitamos sobre a realidade de que muitas dessas rotas são difíceis de transpor e, até mesmo, impossíveis, dependendo do volume de pessoas ou cargas que quiséssemos deslocar. Na verdade, grande parte do trânsito mundial de pessoas e bens passa por caminhos relativamente pequenos, estratégicos e imprescindíveis. Trata-se de verdadeiras portas, acessos cuja inexistência seria, nos dias de hoje, impensável.

Ligando o Oceano Atlântico e o Oceano Pacífico, os 82 km do Canal do Panamá permitem às embarcações evitarem as águas perigosas do Atlântico Norte ou a longa navegação pelo sul do continente americano; o Estreito de Málaca, com seus 900 km de comprimento, no Continente Asiático, permitindo a passagem de 40 por cento do comércio mundial, conectando a China, a Coréia e o Japão, o que corresponde ao trânsito de mais de 100 mil navios por ano; os mais de 193 km do Canal de Suez ligando os mares Mediterrâneo e Vermelho, atravessando o Egito e franqueando a comunicação marítima entre a Europa e a Ásia, sem a necessidade de contornar o Continente Africano; o Estreito de Gibraltar, por sua vez, separando a África e a Europa, unindo o Mar Mediterrâneo ao Oceano Atlântico, tendo 15 km de extensão, oscilando entre as profundidades de 30 a 100 m, e permitindo o trânsito de cerca de 1 embarcação a cada 6 minutos – são portas para o fluxo de vida e riquezas. Os estudos de Logística Internacional, ferramenta para a expansão do comércio exterior em todo o mundo, reconhecem ainda, com uma das rotas comerciais mais importantes na atualidade, uma passagem marítima que conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Mar Arábico – trata-se do Estreito de Ormuz.

Há três hipóteses defendidas para explicar a origem de seu nome. Alguns defendem a ligação com o Ahura Mazda, o Hormoz, divindade suprema do zoroastrismo, cujo nome significa ‘senhor sábio’. Outros atribuem o nome ao persa Hur-mogu, ou seja, ‘tamareira’, árvore abundante naquela região. Para outros, foram os gregos que cunharam o termo Ormos, que significa ‘enseada’ ou ‘baía estreita’. Para entendermos sua localização, precisamos ter em mente a geografia da Península Arábica, maior península do mundo, situada ao Sudoeste da Ásia, englobando os seguintes países: Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Omã, Iêmen, Katar, Bahrein e Huwait, além de abrigar as cidades de Meca e Medina, berços e centros sagrados do Islamismo. A península faz fronteira com a Jordânia, ao norte, e com o Iraque; está ladeada pelo Mar Vermelho, ao Oeste, pelo Golfo de Adén e pelo Mar Arábico ao Sul e pelo Golfo Pérsico e Golfo de Aman a Leste. É justamente a Leste, a partir da foz dos rios Tigre e Eufrates, entre as águas do Pérsico e de Aman que está situada uma das rotas comerciais mais importantes para a economia mundial, por onde trafegam os grandes navios petroleiros que abastecem as principais potências de energia fóssil. Os países vizinhos ao Estreito são Bahrein, a Arábia Saudita, o Katar, maior produtor e fornecedor de gás liquefeito (GNL), os Emirados Árabes e Omã, além do vizinho exclusivo ao norte, o Irã. Em seu ponto mais estreito, a passagem apenas permite 6 km de trecho navegável, 3 km em cada direção, com profundidade de até 200 m, o que a torna segura, mesmo para os grandes petroleiros, e faz dela rota energética vital, por onde cerca de 20 por cento de todo o petróleo bruto e todo o gás liquefeito consumido navegam. O Irã controla a maior parte do lado norte do Estreito e possui soberania sobre ilhas da região, além de possuir poder de monitoramento e de intervenção sobre os navios circulantes, lembrando que o país expandiu seu mar territorial no ano de 1959 para 12 milhas náuticas (22 km), e que Omã fez o mesmo em 1972, o que, na verdade, faz com que se transite em águas iranianas e omani. Pelas disposições da UNCLOS – Convenção das Nações Unidas sobre o Direito ao Mar, a região permitiria a ‘passagem inocente’ (contínua e rápida) de embarcações, sendo proibidas as manobras militares, pesquisas, buscas de informações, levantamentos hidrográficos e atos de propaganda. A realidade, no entanto, é bem diversa. Navios equipados com armamentos, radares em ilhas próximas, centros de observação, minas subterrâneas, dispositivos de mísseis a partir do Irã (em quantidade suficiente para exaurir qualquer sistema de defesa antiaérea, em ataques por esgotamento), além do uso de drones marcam o clima tenso das águas do Estreito.

A comunidade internacional monitora a região, com o objetivo de fazer valer as liberdades marítimas e garantir o abastecimento de combustível, evitando um colapso geral. O Irã e os Emirados Árabes, por sua vez, reivindicam as ilhas de Abu Musa, Tunb Maior e Tunb Menor como possessão, numa disputa fronteiriça em que cada metro quadrado conquistado é garantia de proteção de seus interesses econômicos. O Irã possui, hoje, o poder para fechar o Estreito, o que levaria a uma tempestade financeira sem precedentes em poucos dias – exatamente, em poucos dias – o que faz do Ormuz sua mais importante e estratégica arma de guerra.

Enquanto a comunidade internacional pressiona o Irã e questiona as intenções daquele país em seu programa nuclear, o Irã responde com ameaças: o fechamento do Estreito através de unidades navais e mísseis de médio alcance, como forma de retaliação. O bloqueio é geograficamente possível, uma vez que o Estreito percorre longos quilómetros da costa iraniana. É do conhecimento geral que as rotas alternativas, ou seja, o gasoduto dos Emirados Árabes, ligando Abu Dhabi ao Golfo de Omã (evitando o Estreito na parte Sul) e o oleoduto da Arábia Saudita, caminho que leva o petróleo do Golfo Pérsico ao Mar Vermelho, não são suficientes para suprir o abastecimento requerido pela Europa e pela Ásia. No entanto, apesar de possível, a decisão pelo bloqueio traria prejuízos à nação persa, pela escassez e prejuízos provocados a parceiros comerciais como a China e o Japão, compradores e dependentes diários do petróleo árabe, o que resultaria na perda de importantes aliados, risco perigoso para Teerã.

Que razões haveria, então, para insistir na ameaça de fechamento do Estreito? O uso de um trunfo político de tal magnitude, com o possível fechamento comercial de uma rota estratégica, da qual dependem muitas nações, somente encontra justificativa ideológica, uma vez que não se justifica comercialmente. O Irã quer manter-se armado e não desiste de seu nada pacífico programa nuclear. A comunidade internacional reage através de sanções. Os EUA reforçam as sanções e ameaças caso o programa armamentista não seja contido. O Irã ameaça sufocar a vida comercial do mundo, mesmo que com perdas pessoais, o que dá a dimensão de seu interesse particular – produzir armas, afiar espadas, polir escudos e encontrar-se preparado para algum futuro combate, além de alcançar poder e prestígio dentro da cena geopolítica, alterando, talvez, a dinâmica atual dos poderes.

Cada um dos estreitos caminhos pelos quais transitam os bens das nações é considerado uma porta. Sejam elas portas de bênçãos, de socorro aos aflitos, de combate à escassez e à fome. Sejam elas passagens para a Mensagem de salvação e interação entre os povos. Fechar uma porta e impedir a passagem de um bem equivale a fazer o mal. Que tal não suceda. Quanto a Israel, presumivelmente objeto do ódio que move grande parte (ou a maioria) das estratégias e intenções referidas, mergulha e medita nas águas consoladoras da promessa que embala a nação desde seu registro, no livro de Gênesis (22.17,18), em palavras promovedoras de descanso e paz: “a tua semente possuirá a porta de seus inimigos”.

por Sara Alice Cavalcanti

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