Marcas das origens do pentecostalismo

Marcas das origens do pentecostalismo


Desde os primórdios da fé cristã, a santidade ocupou lugar central na espiritualidade da Igreja. A exortação neotestamentária “Sem santificação ninguém verá o Senhor” (Hebreus 12.14) impulsionou cristãos de diferentes épocas a buscarem uma vida distinta do mundo e consagrada a Deus. Ao longo da história, essa busca assumiu diferentes expressões. Em alguns momentos, manifestou-se por meio do ascetismo e da renúncia; em outros, por meio da vida comunitária, da disciplina moral, da experiência interior ou da capacitação espiritual para o serviço cristão. Essas diferentes tradições formaram o ambiente histórico e teológico no qual o pentecostalismo moderno emergiu.

Santidade nos primeiros séculos

No período pós-apostólico, Pais da Igreja como Inácio de Antioquia, Clemente de Roma e Policarpo de Esmirna compreendiam a santificação como cumprimento da justiça cristã. A vida santa era uma expressão concreta da obediência a Deus. No segundo século, o montanismo destacou-se pela ênfase rigorosa na separação do mundo, nas experiências extáticas, na liderança feminina e na expectativa iminente da Volta de Cristo. Embora considerado depois sectário, ele revelou forte preocupação com pureza moral e intensidade espiritual.

Com a institucionalização da Igreja, o monasticismo surgiu como resposta ao comodismo da elite eclesiástica. Antônio do Egito tornou-se símbolo dessa reação ao vender seus bens e adotar vida ascética radical. O monasticismo preservou o ideal de santidade, mas produziu consequências problemáticas, ao associar a perfeição cristã à fuga do mundo e favorecer uma espiritualidade individualista.

Agostinho, espirituais, Reforma

Agostinho de Hipona entendia a santidade como sujeição das paixões à razão. Entretanto, não admitia a possibilidade de perfeição cristã plena nesta vida. Para ele, a ideia de uma igreja pura, de um clero puro e de obediência total a Cristo era uma ilusão perigosa. No século XIII, surgiram os chamados “espirituais”, que uniram o ideal ascético de Francisco de Assis ao milenarismo de Joaquim de Fiori. Este último acreditava que a história caminhava para uma terceira dispensação, a do Espírito. A Reforma Protestante reagiu contra a espiritualidade ascética medieval. Ela valorizou o casamento, rejeitou o ideal de pobreza e viu a guerra como instrumento legítimo de contenção social. A Reforma Radical, especialmente entre os anabatistas, buscou mais pureza, rejeitou a guerra e, em alguns grupos, a propriedade privada.

Pietismo, quietismo, quakers

Do luteranismo enrijecido nasceu o pietismo, um dos grandes movimentos de renovação espiritual da história cristã. Em 1675, Philipp Jakob Spener publicou Pia Desideria, que critica a frieza da ortodoxia luterana e a negligência moral. Para ele, não se alcança perfeição de conhecimento, mas se pode buscar perfeição de intenção.

Entre os católicos, Francisco de Sales ensinou uma perfeição marcada pela contemplação e resignação. A partir dele, Miguel de Molinos, Madame Guyon e François Fénelon desenvolveram o quietismo, que entendia a vida cristã como morte do eu e amor desinteressado a Deus.  Na segunda metade do século XVII, George Fox alimentou entre os quakers o ideal de perfeição cristã ainda neste mundo. O quakerismo influenciaria profundamente os movimentos de santidade dos séculos XIX e XX.

Metodismo e a perfeição cristã

John Wesley foi profundamente influenciado por Jeremy Taylor e William Law. De Taylor, recebeu a ênfase no amor perfeito e na pura motivação; de Law, a ênfase no discipulado. A partir delas, desenvolveu a doutrina da perfeição cristã. Para Wesley, Deus havia levantado os metodistas para renovar a nação e espalhar a santidade bíblica. Ele ensinava que a “inteira santificação” era uma segunda obra da graça, subsequente à justificação pela fé. Essa obra era realizada pelo Espírito, que purificava o pecado e enchia de amor a Deus e ao próximo. Entretanto, Wesley não defendia a impecabilidade absoluta. O crente santificado não estaria livre de ignorância, fraquezas, erros ou tentações. A perfeição cristã consistia essencialmente no amor perfeito, isto é, em amar a Deus com todo coração, alma, mente e forças.

Essa doutrina incendiou as primeiras gerações metodistas e produziu grande ímpeto evangelístico. Porém, no século XIX, começou a perder força dentro do metodismo. O fervor diminuiu e o formalismo cresceu.

Movimento de Santidade

Diante do arrefecimento espiritual do metodismo, surgiu o Movimento de Santidade Americano. Phoebe Palmer tornou-se uma de suas principais representantes. Por meio de reuniões semanais, ela buscava recuperar a espiritualidade perdida do antigo metodismo. Para Palmer, expressões como “perfeição cristã”, “perfeito amor”, “inteira santificação” e “segunda bênção” designavam a mesma experiência espiritual, possível de ser recebida nesta vida pela fé.

Também nesse período surgiu o perfeccionismo de Oberlin, associado a Asa Mahan e Charles Finney. Esse movimento ensinava que o novo pacto prometia uma obra do Espírito capaz de conduzir o coração à conformidade com a lei moral. A santificação possuía não apenas dimensão individual, mas também social. A Igreja deveria combater o pecado e o mal onde estivessem. Embora Mahan e Finney professassem certa continuidade com o calvinismo, foram acusados de pelagianismo por enfatizarem fortemente a vontade humana e a possibilidade de obediência radical aos mandamentos divinos.

Keswick e a vida superior

Na segunda metade do século XIX, o movimento de santidade assumiu duas vertentes: a wesleyana, ligada ao metodismo, e a reformada, ligada à Convenção de Keswick, que teve início em 1875, na Inglaterra, influenciada pelo Movimento Vida Superior, de William Boardman. Boardman preferia a expressão “vida superior” à linguagem wesleyana de “perfeição”, tornando a doutrina mais aceitável a cristãos não-metodistas e reformados. A vida superior era vista como experiência de capacitação espiritual para a vida cristã vitoriosa.

Keswick ensinava uma segunda bênção ou segunda crise na experiência cristã, subsequente à justificação. Nessa experiência, o Espírito enchia o crente consagrado e o capacitava para uma vida santa e consistente.  A diferença principal entre Keswick e o movimento wesleyano estava na compreensão do pecado. Os keswickianos defendiam que o pecado era mortificado, mas não eliminado. Já os wesleyanos ensinavam que o coração podia ser purificado da natureza pecaminosa pela intervenção do Espírito. Assim, enquanto Keswick falava em mortificação do pecado, o movimento wesleyano falava em uma espécie de erradicação do pecado.

Moody: revestimento de poder

D. L. Moody foi um dos principais responsáveis por popularizar os ensinos de Keswick nos EUA. Influenciado pelos Irmãos de Plymouth, especialmente por John Nelson Darby, ele adotou forte expectativa da volta iminente de Cristo, o que impulsionou seu esforço evangelístico. Moody também foi influenciado por mulheres metodistas ligadas ao Movimento de Santidade. Segundo seu testemunho, em 1871 recebeu o batismo no Espírito como revestimento de poder. Para os metodistas, essa capacitação estava relacionada à inteira santificação; para Keswick, era compreendida como revestimento de poder do Espírito.

Moody dialogava com diferentes tradições cristãs. Recebeu dos meto distas a ênfase na segunda bênção; de Plymouth, a escatologia iminente; e dos keswickianos, a doutrina da vida profunda no Espírito. Para ele, santidade e poder eram inseparáveis. Vida santa era condição indispensável ao ministério eficaz.

 A. B. Simpson e a ACM

Outro expoente da santidade de Keswick foi A. B. Simpson, fundador da Christian and Missionary Alliance (Associação Cristã Missionária) em 1887. Ele exerceu grande influência no reavivalismo americano e no pentecostalismo emergente. Sua mensagem destacava quatro dimensões do de Cristo: Salvador, Santificador, Curador e Rei Vindouro. Influenciado por The Higher Christian Life de Boardman, ele tornou-se defensor da chamada santidade profunda. Para Simpson, santificar significava separar. Assim como Deus separou luz e trevas na criação, a santificação separa o crente para Deus. Essa compreensão influenciou fortemente movimentos missionários e avivalistas posteriores.

Os batistas suecos

O Movimento de Santidade também despertou interesse entre os batistas suecos. O jornal Nya Wecko-posten publicou, entre janeiro e março de 1906, uma série de artigos intitulada “Movimento de Santidade”, que analisavam esse movimento em suas vertentes wesleyana e reformada, posicionando-se favoravelmente à perspectiva reformada. O periódico reconhecia que a santificação sempre fora uma doutrina importante no cristianismo, embora nem sempre compreendida da mesma maneira. A Reforma destacou a justificação pela fé, a morte vicária e a ressurreição de Cristo. Posteriormente, o pietismo reacendeu a religião do coração, enfatizando a atuação do Espírito Santo na santificação diária. Entretanto, o jornal criticava o pietismo quando este deixava de ser cristocêntrico e passava a enfatizar demasiadamente o Espírito Santo e Suas obras. Também via com reservas a doutrina wesleyana da santificação como segunda obra da graça, pois entendia que o cristão continua necessitando de perdão e que a Escritura não permite afirmar uma perfeição sem pecado nesta vida.

Ao tratar de Finney, Mahan e Boardman, o periódico reconhecia que eles ensinaram a santificação como segunda experiência da graça. Também observava que Boardman mantinha a doutrina da justiça imputada de Cristo e reconhecia a permanência da corrupção pecaminosa na natureza do crente. A perspectiva batista sueca entendia a santificação como processo contínuo: mortificar o velho homem e vivificar o novo. O crente está crucificado com Cristo, mas deve crescer continuamente pela ação do Espírito. Por isso, o jornal rejeitava a ideia de santificação instantânea como completa libertação do pecado nesta vida. Apesar das críticas, o Nya Wecko-posten reconhecia os frutos positivos do Movimento de Santidade: fé plena na Escritura, salvação pela graça em Cristo, devoção total ao Senhor e submissão à direção do Espírito. Concluía que o movimento representava um reavivamento, fortalecendo a fé, a espiritualidade, o zelo e o serviço cristão.

Conclusão

O Movimento Pentecostal surgiu em um contexto marcado por intensa busca de santidade e poder espiritual. Antes dele, diferentes tradições cristãs haviam desenvolvido compreensões diversas sobre santificação: o monasticismo enfatizou a separação do mundo; o pietismo, a religião do coração; o metodismo ensinou a inteira santificação; Oberlin relacionou santidade e transformação social; Keswick enfatizou vida superior e revestimento de poder; e os batistas suecos defenderam a santificação progressiva, reformada e cristocêntrica. Essas tradições possuíam um núcleo comum: a convicção de que a vida cristã exige uma profunda ação do Espírito, mas divergiam quanto ao modo como essa ação se realiza. Uns defendiam a purificação instantânea do coração; outros, a mortificação contínua do pecado; outros ainda, o revestimento de poder para o serviço.

Esse ambiente explica as convergências e divergências teológicas presentes no pentecostalismo nascente. Embora as igrejas pentecostais compartilhem a ênfase na santidade e no poder do Espírito, elas herdaram tradições distintas quanto ao processo da santificação. Assim, debaixo do mesmo manto do Espírito, desenvolveram diferentes interpretações sobre vida santa, vitória sobre o pecado e revestimento de poder para o testemunho cristão.

REFERÊNCIAS

BOARDMAN, W. E. The Higher Christian Life. 1858; BRYANT, Barry E. In: RUESDALE, Al. Global Wesleyan Dictionary of Theology. Kansas City: Beacon Hill Press, 2013;

DAYTON, Wilbert. “Perfección Cristiana”. In: TAYLOR, Richard S. Diccionario Teológico Beacon. Lenexa: CNP, 1984; DIETER, Melvin E. In: TAYLOR, Richard S. Diccionario Teológico Beacon. Lenexa: CNP, 1984;

FLETCHER, John. Letters of John Fletcher. 1785; KOSTLEVY, William. The A to Z of the Holiness Movement. Lanham: Scarecrow Press, 2009; MAHAN, Asa. Christian Perfection. 1875; MOODY, D. L. Great Joy. 1877;

PALMER, Phoebe. Entire Devotion to God. 1857; SIMPSON, A. B. The Life and Works of A. B. Simpson. 1893; TORREY, R. A. Por que Deus Usou D. L. Moody. 1923.; e Nya Wecko-posten. Série “Movimento de Santidade”, 30 jan.–13 mar. 1906.

por José Gonçalves

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