A Doutrina Bíblica das Últimas Coisas na percepção do Pentecostalismo Clássico
Talvez devamos procurar definir exatamente o que é o Pentecostalismo Clássico. Historicamente, o derramamento do Espírito Santo no Dia do Pentecostes, descrito em Atos 2, inicia a Era do Espírito Santo, que também é a Era da Igreja. É bom lembrarmos que os quatro Evangelhos foram escritos (sob a orientação do Espírito Santo) depois desse derramamento, da mesma forma que todos os demais Livros do Novo Testamento. Estes, portanto, são parte integrante dessa nova obra do Espírito Santo. Sempre tenho prazer em pregar em Atos dos Apóstolos e em chamar o Livro de “Manual do Pentecostalismo” a ser posto integralmente em prática hoje – por contraste com as teorias frias tradicionais que o estudam como antiguidades eclesiásticas, sem aplicação ao nosso viver diário em Cristo.
Além disso, porém, devemos considerar a totalidade do Novo
Testamento, um guia autorizado do Pentecostalismo Clássico, e essa categoria
deve ser estendida também ao Velho Testamento, por ter a inspiração plenária do
Espírito Santo. Vários aspectos milagrosos no Velho Testamento podem ser
classificados como dons do Espírito Santo. Ali só falta o dom de línguas e de
interpretação, como defini em Dons do Espírito Santo (Editora Vida, pág. 105).
Portanto, a Bíblia inteira deve ser considerada fonte perene da doutrina
pentecostal e qualquer Movimento Pentecostal deve existir em sujeição a ela e
ser por ela avaliado.
A expressão “Pentecostalismo
Clássico”, como bem define Wayne Grudem (Cessaram..., Prefácio, págs. 11 e 12),
se refere a “qualquer denominação ou grupo que remonta sua origem ao
reavivamento pentecostal que teve seu início nos Estados Unidos em 1901, e que
sustenta as seguintes doutrinas: 1) Todos os dons do Espírito Santo mencionados
no Novo Testamento continuam operantes hoje; 2) o batismo no Espírito Santo é
uma experiência de revestimento de poder, subsequente à conversão, e deve ser
buscado pelos crentes hoje; e 3) quando ocorre o batismo no Espírito Santo, as
pessoas falam em línguas como ‘sinal’ de que receberam essa experiência”. Os
grupos pentecostais geralmente têm estruturas denominacionais distintas e entre
estas constam as Assembleias de Deus, a Igreja de Deus em Cristo e muitas
outras.
À guisa de contraste, Grudem explica que “Carismático” se
refere a quaisquer grupos (ou pessoas) que remontam sua origem histórica ao
Movimento Carismático das décadas de 1960 a 1970 e que procuram praticar todos
os dons espirituais mencionados no Novo Testamento (incluindo o dom de
profecia, cura, milagres, línguas, interpretação e do discernimento de
espíritos). Usualmente, ficam dentro das suas denominações de origem, com o
intuito de ser uma força a favor da renovação dentro das mesmas.
Considerando a obra do Espírito Santo a partir de 1901 como
a “Primeira Onda” renovadora do Espírito Santo na igreja moderna e o movimento
carismático como a “Segunda Onda,” o nome de “Terceira Onda” é dado à renovação
a partir de 1980, que crê nos dons espirituais e nos sinais que acompanham a
pregação. Ensina, no entanto, que o batismo no Espírito Santo acontece com
todos os cristãos na ocasião da conversão.
Definindo o Pentecostalismo Clássico como movimento que
surgiu em 1901, cabe-nos comentar a história e a doutrina envolvidas. O livro Eles
Falam em Outras Línguas (1969; edição revisada: Arte Editorial, 2005)
fornece muitas informações sobre todos esses aspectos.
Em 1900, nos Estados Unidos, um jovem ministro metodista, de
nome Charles F. Parham estava ansioso para entender por que faltava nas igrejas
o poder tão amplamente refletido nos Atos dos Apóstolos, e nas Epístolas de
Paulo. Reuniu outras pessoas interessadas para formar uma Escola Bíblica
gratuita num prédio abandonado, sendo ele mesmo diretor e aluno. O assunto do
estudo era como buscar o Espírito Santo, tão ricamente prometido na Bíblia.
Chegaram à conclusão de que a outorga do Espírito Santo era acompanhada pelo
falar em outras línguas. Foi marcado um dia de oração para receberem o batismo
no Espírito Santo do mesmo modo que é descrito na Bíblia, com o falar em
línguas.
Oraram até sete horas da noite, sem nada acontecer, mas
então uma aluna percebeu que esse batismo era concedido mediante a imposição
das mãos e pediu que Parham assim fizesse com ela. O resultado foi que ela
começou a falar em línguas, como sinal de ter sido batizada no Espírito Santo.
Fato histórico dessa volta à presença plenária do Espírito
Santo na igreja é que, ao ser pregada esta verdade renovada, muitas pessoas a
acolhiam fervorosamente como a resposta aos seus anseios, ao passo que outras a
repudiavam com antipatia. Foi a partir daí que surgiu a divisão entre
pentecostais e não-pentecostais. A literatura do século que terminou no ano
1900 refere-se a muitos incidentes que hoje classificaríamos como dons do
Espírito Santo.
Um dos alunos foi o pastor William J. Seymour, que formou
uma igreja pentecostal na Rua Azusa, 312, Los Angeles (EUA). Pessoas de todas
as partes dos Estados Unidos acorriam para lá e também vinham obreiros
canadenses e europeus. Estes, ao voltarem ao seu lugar de origem, iniciaram
trabalhos pentecostais, sendo notável a obra na Suécia. Um livro muito
precioso, da Gospel Publishing House das Assembleias de Deus dos EUA, é With
Signs Follozving (Com os Sinais que se Seguiram), lançado em 1926, e
que descreve a operação pentecostal mundial até àquela data. Os aspectos dessa
obra, que são menos conhecidos no Brasil, envolvem a índia, Sri Lanka, China,
África Central e África do Oeste, e foram selecionados e resumidos como capítulo
no livro A Doutrina do Espírito Santo, ainda no prelo.
Quanto à doutrina, a “marca registrada” do Pentecostalismo
Clássico tem sido o falar em outras línguas ao receber o batismo no Espírito
Santo mediante a imposição das mãos. David J. du Plessis, na sua obra de levar
a fé pentecostal às várias denominações, sempre ressalta a exigência do falar
em outras línguas como sinal do batismo no Espírito Santo e declara que o grupo
pentecostal que abrir mão dessa exigência vai se diluindo, se degenerando (Vai,
disse-me o Espírito, 1973, esgotado).
Quanto às demais
doutrinas, o Dr. Ness, pastor da Igreja Pentecostal do Canadá, disse em 1969,
numa reunião interdenominacional a respeito do pentecostalismo, que a diferença
entre as igrejas pentecostais e as demais é a crença daquelas nos dons do
Espírito Santo. Seja como for, o fato é que os movimentos advindos da Rua Azusa
(ver livro A Rua Azusa, CPAD) mantiveram, em geral, as teologias das
suas igrejas de origem. Quanto à Escatologia, as Assembleias de Deus
consideravam proveitoso o Dispensacionalismo, com o Pré-Milenismo. É essa a
Escatologia Bíblica na Percepção do Pentecostalismo, conforme segue.
Obras importantes
A Teologia define a Escatologia como a Doutrina das Últimas
Coisas ou a Doutrina do Futuro, que tem que ver com as circunstâncias da Volta
de Cristo, do Juízo Final e dos novos Céus e nova Terra. A Escatologia aparece
em todas as teologias sistemáticas como uma das divisões ou capítulos da
Teologia Sistemática. Na fé evangélica mundial, As Institutas de João
Calvino é a primeira grande obra clássica. No Brasil, temos a tradução erudita
feita a partir do latim, comparada com textos em francês, do Dr. Waldir
Carvalho Luz. Minha tradução de um resumo dessa obra, feita por J. P. Wiles,
foi publicada por editora PES em 1984, com o título As Institutas da
Religião Cristã – um Resumo – João Calvino (a obra completa em português
ultrapassa duas mil páginas).
Nos tempos atuais, existem várias Teologias Sistemáticas
(também de volume respeitável) escritas por pentecostais e do ponto de vista do
pentecostalismo clássico. Destas, existem em português vários volumes de vulto.
Em 1996, tive o privilégio de traduzir, a pedido da CPAD, Teologia Sistemática,
uma perspectiva pentecostal, editada por Stanley Horton. Outra obra volumosa de
Teologia Sistemática é a de Wayne Grudem, com 1.046 páginas em português
(Edições Vida Nova), tão pesada que ele mesmo a abreviou com o nome de Manual
de Teologia Sistemática (Editora Vida, 545 páginas). Pessoalmente, dou a Grudem
o crédito de ser pentecostal, pois ao traduzir seu livro Cessaram os Dons
Espirituais? vi que nenhum dos participantes no debate realmente negava a
realidade da existência desses dons, nem sequer o “cessacionista”, cuja posição
era apenas duvidar da obrigatoriedade da existência dos dons na Igreja sem
negar sua existência sobrenatural na Bíblia, nem que Deus tem poder de
continuar a produzi-los.
A parte das tradições em português de obras escritas em
outras situações educacionais, sociais e até mesmo financeiras, surgiu agora
uma novidade no Brasil, a Teologia Sistemática Pentecostal, editor-geral
Antonio Gilberto, escrita por teólogos pentecostais brasileiros das Assembleias
de Deus, publicada em 2008 pela CPAD. Cada teólogo cuida de um capítulo (ou
divisão) da Teologia, e a maravilha é que o livro tem muita matéria boa
compactada num livro que se carrega facilmente na mão. Cada capítulo parece
exaustivo.
Síntese da percepção Escatologia da Assembleia de Deus
O Pentecostalismo Clássico é melhor representado pela Igreja
Evangélica Assembleia de Deus. Sua Escatologia Bíblica é exposta em várias
obras, e com maior perfeição nos capítulos sobre o assunto nos volumes de
Teologia Sistemática da referida denominação. Portanto, a última palavra sobre
a Escatologia na Perspectiva do Pentecostalismo Clássico é o que encontramos em
Teologia Sistemática Pentecostal (CPAD), páginas 486 a 572. O artigo é
de grande profundidade. Aqui, apresentaremos um breve esboço do assunto.
O pastor Ciro Zibordi, que escreve o capítulo sobre
Escatologia na obra, depois da citação de textos que relembram como nós somos
finitos e Deus, infinito, mormente na questão de desvendar o futuro distante,
nos lembra que a Escatologia precisa ser puramente bíblica. “São muitas as
perguntas quanto ao futuro, mas não podemos perder de vista a base para uma
proveitosa análise das últimas coisas: não ir além do que está escrito na
Bíblia (Deuteronômio 29.29; 1 Coríntios 4.6). E isso não tira o brilho do
estudo escatológico. Embora o ser humano seja obcecado por novidades, os
subsídios extrabíblicos, como divagações filosóficas, supostas divinas
revelações etc., só confundem o estudioso da Bíblia Sagrada” (p. 487).
Ficam definidos assim os principais eventos escatológicos:
1) O Arrebatamento da Igreja – Nos ares; antes da
Grande Tribulação (1 Tessalonicense 4.16,17; 1.10). Esse rapto dos salvos
desencadeará uma série de eventos.
2) O Tribunal de Cristo – Ainda nos ares (Apocalipse
22.12 e 1 Pedro 5.4).
3) A Grande Tribulação – Na Terra, por sete anos (Deuteronômio
9.25-27); e as Bodas do Cordeiro, no Céu (Apocalipse 19.1-9).
4) A Vinda de Jesus à Terra – Em poder e glória, para
a Batalha do Armagedom (Zacarias 14.1-4; Joel 3.2; Apocalipse 16.13-16; 17.14).
5) O Fim do Império do Anticristo (Joel 3.12-14 e Mateus
25.31-46).
6) O Julgamento das Nações (Joel 3.12-14 e Mateus
25.31-46).
7) O Milênio - Após a prisão de Satanás (Apocalipse
20.1-6).
8) A Revolta do Diabo de seu Julgamento – Após o
Milênio, o Inimigo será solto por pouco tempo, pois logo ele – em última
instância – e suas hostes serão julgados (Apocalipse 20.7-10; Joel 16.8-11 e Romanos
16.20).
9) O Juízo Final (Apocalipse 20.11-15).
10) Novos Céus e Nova Terra (Apocalipse 21-22 e 2 Pedro
3.7).
Esse esquema escatológico é sempre pressuposto nos escritos
dos teólogos pentecostais de alcance internacional Myer Pearlman, O. S. Boyer e
Donald Stamps, cujas obras circulam fartamente entre nós em português. A
Coleção Myer Pearlman de comentários bíblicos (CPAD), bem como Conhecendo as
Doutrinas da Bíblia e Através da Bíblia, Livro por Livro (aqui temos
antigas edições da Emprevan) são do primeiro desses autores. O. S. Boyer
produziu vários comentários bíblicos (posteriormente juntados em dois volumes
de Espada Cortante) publicados pelo próprio autor. Seu discernimento do
sentido espiritual dos textos bíblicos é de um pentecostalismo sólido, com mais
conteúdo real do que se pode achar em volumes de tamanho várias vezes maior.
Sozinho, ele compilou a Pequena Enciclopédia Bíblica, essencial como
obra de consulta para todos que amam a Bíblia. A grandiosa obra de Donald
Stamps é a Bíblia de Estudo Pentecostal (CPAD), de ampla divulgação
entre nós.
O próprio Jesus nos ensina como nos comportar diante desse
desenrolar dos eventos apocalípticos: “E olhai por vós, para que não aconteça
que o vosso coração se carregue de glutonaria, de embriaguez, e dos cuidados da
vida, e venha sobre vós de improviso aquele dia. Porque virá como um laço sobre
todos os que habitam na face de toda a terra, vigiai, pois, em todo o tempo,
orando, para que sejais havidos por dignos de evitar todas essas coisas que hão
de acontecer e de estar em pé diante do Filho do Homem” (Lucas 21.34-36; cf. Mateus
24.36-44; Marcos 13.33-37).
por Gordon Chown
Compartilhe este artigo. Obrigado.

Postar um comentário
Seu comentário é muito importante