Caminhar seguro

Caminhar seguro


Ensinar os primeiros passos na fé exige dedicação, oração e renúncia

Jesus cumprira o seu ministério terreno, vencera a morte e estava prestes a retornar aos céus. A sua missão redentora consumara-se. Os Evangelhos nos relatam três intensos anos ministeriais de milagres, pregações e ensinamentos. Seus apóstolos já estavam habilitados à continuação da obra por Ele iniciada. Foram discipulados. “Ensinava- lhes muitas coisas ...” (Marcos 4.2). E Mateus finaliza seu Evangelho com as palavras imperativas de Jesus: “Portanto ide, ensinai...” (Mateus 28.19).

Era a vez dos discípulos aplicarem os ensinamentos adquiridos. Essa determinação transcende os dias apostólicos enriquecendo a História da Igreja. E imprescindível para os dias atuais e há de ser dinâmica até que se dê o arrebatamento.

Sabemos que o Brasil é um dos maiores celeiros evangelísticos do mundo. Ano após ano, milhares de pessoas são alcançadas pelo Evangelho através dos púlpitos das igrejas, das grandes cruzadas, dos programas radiofônicos e de televisão, e especialmente através do eficaz evangelismo pessoal, o corpo a corpo.

As igrejas traçam metas e a uma voz proclamam a evangelização. E o “ide” em ação. Somos, sem sombra de dúvida, bons evangelistas, bons pregadores, bons ganhadores de almas. Lançamos bem as redes ao mar e quando as puxamos vemos que estão abarrotadas de peixes de todas as espécies e tamanhos. Bela pescaria! Aliás, toda boa pescaria é feita em alto mar, ou seja, além dos portões da igreja.

Discipular

Mas as vidas preciosas deverão ser trazidas para o cuidado devido. É o discipular. Chegamos até mesmo a computar nomes e endereços para dados estatísticos que hão de compor os relatórios mensais ou anuais da igreja. Feito isso, dizemos: “Missão cumprida!” e paramos por aí.

Entretanto, há lugar para muito mais na Casa de Deus. E a segunda parte do mandamento, o “ensinai”? Será que nosso grande anseio em levar vidas preciosas aos pés do Senhor Jesus não deveria ser acompanhado de maior preocupação em manter o precioso resultado obtido? Não seria o caso de ultrapassarmos os limites das fronteiras daquele sublime momento de uma decisão, acompanhando e cuidando?

Integração

Está em jogo a conservação do novo convertido na Casa do Senhor. Há que se valorizar o imediato momento pós-evangelismo com o útil exercício da integração.

Mas o que é integrar, se não complementar, introduzir, ou seja, levar o recém-convertido a fazer parte da igreja, tomando esta o seu novo lar espiritual? O passo mais importante o pecador já deu. Fez-se ciente da sua condição pecaminosa e levantou-se em direção à liberdade que há em Cristo Jesus, que ele agora confessa ser o seu Salvador. Houve mudança de vida. Pela pregação do Evangelho, Jesus proporcionou-lhe essa alteração do status-quo.

Isso significa que há bebês espirituais na Casa do Senhor. Quem lhes dispensará cuidados? A continuação dessa longa e preciosa jornada dependerá de como eles serão conduzidos em seus primeiros passos na fé. Normalmente, dispensa-lhes a primeira atenção aqueles que o geraram na fé; aqueles que o levaram à igreja e, consequentemente aos pés de Jesus.

Como ficará aquele que, levado pelo extremo de suas necessidades espirituais ou mesmo materiais, muitas vezes amargando solidão, medo, tristeza, adentra à igreja sem convite? Não podemos deixá-los sós.

Atenção especial

Faz-se necessário o apoio da igreja discipuladora através de seus membros treinados para isso. E o momento do envolvimento, da integração que bem pode ter o seu começo com um simpático cumprimento de boas-vindas, o sentar-se ao seu lado proporcionando-lhe condições de cantar e acompanhar a leitura bíblica, e após a mensagem convidá-lo a render-se aos pés de Jesus. Se tal ocorrer, já saudá-lo com a gloriosa “Paz do Senhor”. Ele já é uma nova criatura!

É hora de criar condições para a sua integração. O seu novo caminhar será bem mais seguro, no meio de amigos sinceros que só querem o seu bem-estar, o que lhe proporcionará uma identificação com a sua nova comunidade. Esse lugar é a igreja que ele escolheu para servir a Jesus. Ele necessita de atenção especial, capaz de promover em seu viver a graça e o conhecimento no Filho de Deus. Isso é tão importante quanto levar a pessoa aos pés do Senhor. Isso é integração.

Início imediato

O discipulado deve ter o seu início no momento seguinte à rendição do pecador a Cristo. A formação de discípulos sê faz necessária, a fim de toma-los árvores frondosas e frutíferas. Integrar e discipular, após o resultado evangelístico, é a perfeita trilogia que promove o crescimento da Igreja.

Discipuladores bem treinados darão discípulos fortes e consequentemente uma igreja crescente. Se há novos convertidos, é porque a igreja está crescendo, e se a igreja está crescendo, é porque há novos convertidos. Filhos gerando filhos!

A igreja é a única responsável pelo seu próprio crescimento. Para isso, é necessário empreender esforços e investimentos. Esta não é uma tarefa fácil. Tampouco é atraente ou lucrativa. Pelo contrário, demanda treinamento, tempo, dedicação, oração, renúncia e recursos. É um exclusivo exercício de amor.

O discipulador

É um importante agente integrador do novo crente-igreja. Necessariamente, deve ser um salvo convicto, com experiências espirituais, de forma a poder auxiliar o novo crente em questões também espirituais. Seu correto proceder social e devocional deve transmitir convicção que demonstre ser ele pessoa cumpridora de suas obrigações, dentro e fora da igreja, ou seja, que vive o que ensina.

A responsabilidade, a constância, a fidelidade, a liderança, a pontualidade, a assiduidade, a paciência e a disciplina são virtudes que influenciam positivamente seus liderados. Todo o seu viver deve estar sob o senhorio de Cristo. Some-se a isso o conhecimento das Escrituras, sem o que será inapto e desqualificado para discipular.

Estratégias

Como manter o novo convertido na Casa do Senhor? Não existe receita pré-elaborada, mas destacamos estratégias que, bem usadas, trarão excelentes resultados.

·         O amor evidenciado é a chave-mestra que abre as portas do discipulado desde o primeiro momento. É tão bom sentir-se amado. Aliás, amar não é favor nenhum. Pelo contrário, é o nosso dever maior;

·         A visita ao lar do novo convertido é importante e imprescindível. E nessa atitude que demonstramos o interesse da igreja em mantê-lo em nossa congregação, fazendo-o sentir-se valorizado;

·         Deve ser integrado a grupos já existentes na igreja que poderão ajuda-lo no exercício da fé;

·         Deve ser conduzido a uma vida de oração;

·         Deve ser orientado a amar a igreja e conscientizado de que ali é a Casa de Deus, lugar de adoração, e que os dízimos e ofertas são destinados à manutenção da obra do Senhor;

·         Deve ser realçado o valor da pessoa do pastor, como anjo da igreja e ungido do Senhor, levantado por Deus para sua orientação espiritual e doutrinária, a quem se deve obediência, respeito e honra (Hebreus 13.17);

·         Ao novo convertido deve ser ensinado frutificar e gerar outras ovelhas;

·         A Escola Dominical é o departamento indicado para esse fim. Ali receberá ensinamentos em todos os rudimentos da fé. Ele vai entrar num processo de aprendizado e desenvolvimento onde terá a compreensão, dentre outras, da necessidade de:

a)      amar e cultuar a Deus;

b)     caminhar com alegria para a Casa do Senhor;

c)      manusear bem a Palavra. Certamente ele passará a se interessar em conhecer mais detalhadamente a Bíblia, aprender a amá-la e desfrutar de seu alimento diariamente. Caso contrário, crescerá fraco e será presa fácil dos ventos de falsas doutrinas;

d)     ser e fazer parte do Corpo de Cristo através do batismo nas águas;

e)      buscar o poder do alto através do qual será vitorioso contra as ciladas do inimigo.

Nessa Escola tão singular, as doutrinas e princípios bíblicos serão o genuíno leite espiritual de que tanto precisa. O discipulado será ministrado como um curso compacto que lhe dará a visão do todo. Ele vai amar essa Escola e nela vai adquirir consistência e maturidade espiritual de forma que procurará prosseguir conhecendo o seu Senhor (Hebreus 5.13).

Uma boa preparação discipular imuniza o novo convertido contra heresias e fanatismos, uma vez que saberá qual é a fonte da verdade, a Palavra.

Abc da Palavra

Imaginemos um aluno de 1º grau de uma escola secular tendo que assistir a aulas em uma classe de nível universitário. Como ele entenderá assuntos tão elevados à sua maturidade intelectual? Da mesma forma, o neófito não entenderá relevantes assuntos espirituais se não passar pelo abc da Palavra. A Escola Dominical, através do discipulado, o auxiliará nesse trânsito.

A distinção desse aprendizado faz-se necessária devido ao seu conteúdo programático acessível ao nível espiritual do principiante. Ele é um iniciante nas coisas espirituais e só com o tempo e no momento certo aprenderá e compreenderá as doutrinas básicas sobre Deus, Jesus Cristo, Espírito Santo, Igreja, anjos, pecado e salvação.

No currículo normal das classes já existentes, muitas vezes a lição do trimestre vem tratando de assuntos profundos e difíceis até mesmo para os que se dizem maduros na fé. O que dizer, por exemplo, dos assuntos escatológicos? Daí a necessidade de uma classe à parte para assistir os novos na fé.

Temos em Barnabé o exemplo típico de integrador e discipulador quando tão bem posicionou Paulo entre os apóstolos. Este, por sua vez, posicionou a Timóteo e Filemom.

Também não podemos deixar de mencionar a feliz atuação de Filipe, o evangelista, quando socorreu o eunuco da rainha de Candace esclarecendo-lhe sobre as Escrituras. Seu ensinamento foi tão eficaz que resultou na formação de um discípulo convicto (Atos 8.26-38).

Sob a orientação do Espírito Santo, a igreja, através da Escola Dominical, deve empreender atuação no sentido de criar a classe dos novos convertidos. E se ela já existir, aperfeiçoá-la de forma a contribuir para o seu crescimento quantitativo e qualitativo. Assim estaremos cumprindo não apenas o “ide”, mas também o “ensinai” que Jesus determinou.

por Eva Maria Leão de Mello Costa

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