Soteriologia: a doutrina da Salvação - parte 1

Soteriologia: a doutrina da Salvação - parte 1


A presente exposição fundamenta-se no modelo soteriológico professado pela Assembleia de Deus no Brasil, conforme estabelecido em seu referencial doutrinário desde 1916 e posteriormente ratificado pela Declaração de Fé, publicada originalmente em 2017. Tal modelo está alinhado à tradição cristã ortodoxa e, sobretudo, solidamente ancorado na autoridade das Escrituras Sagradas como regra de fé e prática.

O artigo tem por objetivo apresentar os principais conceitos da doutrina da salvação, incluindo a definição de seus termos fundamentais, bem como as categorias teológicas de monergismo e sinergismo. Além disso, aborda as principais matrizes soteriológicas desenvolvidas, com especial atenção à Remonstrância e ao Sínodo de Dort, enquanto marcos decisivos no debate entre as correntes soteriológicas.

A finalidade consiste em fundamentar as bases teológicas e doutrinárias do pentecostalismo clássico, destacando sua coerência interna, sua fidelidade às Escrituras e sua inserção histórica no desenvolvimento da teologia cristã. Busca-se, assim, situar as Assembleias de Deus não como um movimento isolado ou meramente experiencial, mas como uma expressão legítima da tradição ortodoxa.

I. DEFINIÇÃO DE TERMOS

1. Salvação

A Declaração de Fé das Assembleias de Deus define a salvação como o ato de “livramento do poder da maldição do pecado, e a restituição do homem à plena comunhão com Deus, a todos os que confessam a Jesus Cristo como seu único Salvador pessoal, precedidos do perdão divino”. (1) Nesse aspecto, destaca-se que o enfoque da salvação recai em dois verbos da língua hebraica no AT: natsal e yasha. O primeiro ocorre 212 vezes e significa “livrar” ou “libertar”. Já o verbo yasha ocorre 354 vezes, com o sentido de “livrar” ou “salvar”. (2) No Novo Testamento, as palavras usadas em grego são sõzõ e sõtêria. A expressão sõzõ significa “salvar”, “preservar” ou “tirar do perigo”. E a expressão sõtêria significa “salvação” e aparece 45 vezes no NT e refere-se à salvação espiritual. (3)

2. Presciência divina

O plano da salvação precede a nossa existência. Antes da fundação do mundo, Deus planejou salvar e capacitar para uma vida nova o povo que de antemão elegeu. O plano divino de redenção da humanidade não surgiu quando Adão e Eva desobedeceram às ordenanças do Criador no Jardim do Éden (Gênesis 3.6-19). Deus não foi e nem nunca será apanhado de surpresa. Ele sempre esteve no controle e já tinha um plano de salvação preestabelecido (Efésios 1.3-5).

Deus é soberano e controla todas as eras, tempos e circunstâncias. Essa verdade ensina-nos que existe um propósito eterno em andamento por trás de todo evento da História. Nessa perspectiva, cremos que o plano divino não foi o resultado de alguma pressão externa, mas foi ocasionado pelo “propósito gracioso” de Deus pelo muito que nos amou (João 3.16). Tudo ocorreu conforme o beneplácito da Sua soberana vontade (Efésios 1.5,9). Eis a posição da Declaração de Fé: “Deus elegeu a Igreja desde a eternidade, antes da fundação do mundo (Efésios 1.4), segundo a sua presciência (1 Pedro 1.2; 2 Tessalonicenses 2.13). O Senhor estabeleceu um plano de salvação para toda a humanidade (Tito 1;2); pois essa é a sua vontade (1 Timóteo 2.3-4)”. (4)

A controvérsia acerca dessa verdade gira em torno dos conceitos dessa tão gloriosa salvação. Por isso, a compreensão da presciência divina é de fundamental importância para a soteriologia. “Presciência” significa “conhecer de antemão”. Paulo faz uso desse termo (do grego proginõskõ) em duas ocasiões: “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Romanos 8.29); e “Deus não rejeitou o seu povo, que antes conheceu” (Romanos 11.2a). O prefixo pro indica a ação de conhecer antes, isto é, “antes da fundação do mundo” (Efésios 1.4; 2 Timóteo 1.9). Desse modo, a presciência é explicada como o conhecimento prévio de Deus, (5) ou seja, Deus sabe de todas as coisas antes de todas as coisas acontecerem sem precisar determinar todas as coisas.

Na aplicação desse conceito, é necessário fugir do equívoco de sustentar a presciência divina em detrimento da liberdade humana ou de sustentar a liberdade humana em detrimento da presciência divina. (6) Certamente Deus conhece o futuro sem precisar causá-lo. Existem fatos que ocorrem pelo desígnio divino e outros que acontecem pela Sua permissão (Atos 2.23).

3. Eleição divina

A Declaração de Fé, ao tratar do tema da salvação, apresenta a seguinte posição da denominação: “A salvação está disponível a todos os que creem (...) sendo condicionada à fé em Cristo Jesus, estando relacionada à presciência de Deus (...) A graça de Deus é manifestada salvadoramente (...) entretanto, não é irresistível (...) Foi Deus quem tomou a iniciativa na salvação (...) É por meio da graça que Deus capacita o ser humano para que ele responda com fé ao chamado do evangelho (...) os seres humanos, influenciados pela graça que habilita a livre escolha, são livres para escolher (...) Não há dúvidas quanto à possibilidade do salvo perder a salvação”. (7)

Percebe-se, em nossa soteriologia, a presença da doutrina da eleição condicional. A Bíblia Sagrada dispõe de dois termos e suas derivações que revelam a escolha que Deus realiza em Sua soberania. A primeira expressão é a eleição e a segunda é a predestinação. O substantivo eleição (grego eklogē) significa “escolha” e predestinação (grego prooridzo) tem o sentido de “determinar antes”. Esses vocábulos ligados entre si explicam que, pela presciência divina, Deus soube quem iria crer e perseverar em Cristo desde a eternidade e elegeu-os conforme a Sua vontade, e, para esses eleitos, determinou propósitos específicos (1 Pedro 1.2). O teólogo Henry Clarence Thiessen menciona três pontos importantes dessa doutrina: “Primeiramente, a eleição é um ‘ato soberano de Deus em graça’. Deus não tem a obrigação de escolher ninguém, visto que todos são igualmente pecadores, merecendo assim a condenação. Em segundo lugar [...] a eleição é cristocêntrica — ‘pelo qual escolheu em Jesus Cristo’. A eleição do indivíduo ocorre somente em união com Jesus Cristo pela fé. Não existe eleição fora de Cristo. Por fim [...] a eleição contempla ‘aqueles que de antemão sabia que O aceitariam’”. (8)

Esse é o entendimento entre a maioria dos cristãos, isto é, cerca de 80% dos evangélicos no mundo (9), e, também do pentecostalismo clássico. (10)

4. Predestinação dos salvos

O termo grego prooridzo, traduzido como predestinação (Efésios 1.5a), é formado pelo vocábulo oridzo, que significa “determinar”, e pela preposição pro que indica algo feito antes; ou seja, predestinação literalmente significa “determinar antes”. O termo aparece seis vezes no Novo Testamento (Atos 4.28; Romanos 8.29-30; 1 Coríntios 2.7; Efésios 1.5,11). É imperioso enfatizar que em nenhuma dessas vezes a expressão faz referência a pecadores sendo destinados à condenação eterna. Conforme anota o teólogo Titillo, “tal observação deveria ser suficiente” para desmontar o erro da “compreensão calvinista da predestinação como a escolha de uns indivíduos para a salvação e de outros para a perdição”. (11)

A Bíblia de Estudo Pentecostal esclarece que a predestinação se aplica aos propósitos de Deus inclusos na eleição, que a eleição é a escolha feita por Deus “em Cristo”, de um povo para si mesmo (Efésios 1.4), e que a predestinação abrange o que acontecerá ao povo escolhido por Deus (Efésios 1.5). (12)

Por conseguinte, nossa Declaração de Fé ensina que a predestinação dos salvos é precedida pelo conhecimento prévio de Deus daqueles que, diante do chamamento do evangelho, recebem a Cristo como o seu Salvador pessoal e perseveram até o fim (Romanos 8.29,30). (13) Esse conceito ratifica que a predestinação não se refere à escolha de alguns para a salvação e de outros para a perdição. Não significa que Deus predestinou alguns para amá-lO e outros para desprezá-lO, ou, na melhor das hipóteses, a ser indiferente a Ele. (14) O ensino onde Deus aleatoriamente salva uns e condena os demais não é coerente com o testemunho bíblico. Nas Escrituras, a salvação é um chamado universal a toda a humanidade (Isaías 45.21ss; João 7.37ss; Apocalipse 22.17). Não se trata de uma dádiva concedida arbitrariamente para alguns e negada a outros. A salvação é uma bênção disponível a todos que cumprirem a condição de crer em Cristo (Marcos 16.16; João 17.20; Romanos 9.33; 10.11; Filipenses 1.29; 1 Timóteo 1.16; 1 Pedro 2.6). Isso indica que Cristo morreu por todos e por cada um, todavia nem todos serão salvos, não por um ato arbitrário de Deus, mas por não preencherem as condições divinamente estabelecidas. Deus concedeu ao ser humano o livre-arbítrio, logo a oferta da salvação pode ser recusada (João 7.16,17).

Apesar de sobejarem textos bíblicos acerca dessa verdade, João Calvino tem uma interpretação particular na sua obra A Instituição da Religião Cristã, conhecida como Institutas. Ele define predestinação de forma absolutamente determinista: “Chamamos predestinação ao decreto eterno de Deus pelo qual determinou o que fazer de cada um dos homens. Porque Ele não os cria com a mesma condição, mas antes ordena a uns para a vida eterna, e a outros, para a condenação perpétua. Portanto, segundo o fim para o qual o homem é criado, dizemos que está predestinado à vida ou à morte”. (15) Ao contrário da teologia de Calvino, (16) nas Escrituras a predestinação não abrange a condenação eterna de ninguém (2 Pedro 3.9). Conquanto eleição e predestinação sejam intrinsecamente ligadas, elas não são a mesma coisa. Outro equívoco da teologia determinista é tratar a predestinação como sendo dupla, isto é, com dois lados: salvação e condenação. Reiteramos que a Bíblia somente se refere à predestinação em relação aos salvos em Cristo.

John Wesley, na sua obra Predestinação Calmamente Considerada, faz objeção à ideia de Calvino da predestinação arbitrária de alguns para a perdição: “A respeito daquele que, sendo capaz de livrar milhões da morte apenas com um sopro de sua boca, se recusasse a salvar mais do que um dentre cem e dissesse: ‘Eu não faço porque não o quero’, como exaltaremos a misericórdia de Deus se lhe atribuirmos tal procedimento?”. (17) Como Deus pode ser considerado um justo juiz se Ele condena o réu previamente? Como pode ser considerado benigno se Ele julga com parcialidade, permitindo que, pelo mesmo erro, uns sejam absolvidos e outros condenados? Assim, se existe uma predestinação para condenação, então de que adianta a pregação?

Nesse sistema, os que não são escolhidos estão fadados à danação, quer a Palavra seja pregada, quer não. A única resposta plausível, em conformidade com os atributos divinos, está em perceber o equívoco na interpretação de João Calvino e considerar a presença de equidade e igualdade no julgamento dos pecadores. (18)

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

(1) CGADB, 2017, p. 109.

(2) VINE, 2002, p. 123.

(3) VINE, 2002, p. 543.

(4) CGADB, 2017, p. 121.

(5) REID (Org.), 2017, p. 1000.

(6) DANIEL, 2017, p. 391.

(7) CGADB, 2017, p. 109.

(8) THIESSEN, 1987, p. 261.

(9) OLIVEIRA, 2018, p. 13.

(10) O pentecostalismo clássico é considerado academicamente como sendo o da primeira onda, isto é, aquele que se desenvolveu no Brasil de 1910 até 1950, situação em que se enquadra as Assembleia de Deus (FRESTON, 1994, p. 70).

(11) TITILLO, 2015, p. 19.

(12) STAMPS, 1995, p. 1808.

(13) CGADB, 2017, p. 110.

(14) SHANK, 2015, p. 168.

(15) CALVINO, 2009, Tomo 2, p. 380.

(16) Para melhor compreender a refutação à teologia calvinista, recomenda-se a leitura das Obras de Armínio, editadas em três volumes pela CPAD.

(17) OLIVEIRA, 2018, p. 50.

(18) DANIEL, 2017, p. 426.

por Douglas Roberto de Almeida Baptista

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