Considerando os fatores externos da batalha entre Davi e o gigante, só conseguimos conceber mentalmente o jovem pastor girar sua funda e atirar a pedra na testa de Golias. Depois de vê-lo atordoado no chão, sem condições de reagir, Davi toma do gigante sua própria espada e arranca fora a cabeça do valentão. Pois bem. Mas quais foram as iniciativas que levaram o futuro grande rei de Israel a alcançar a tão sonhada vitória?
Vamos considerar alguns fatores que precederam esse quadro,
baseados no texto de 1 Samuel 17.45-47.
Davi venceu seus próprios temores
Ter medo é um mal que todo ser humano carrega. A criança já
nasce chorando, provavelmente temendo o novo mundo que terá pela frente. Até os
maiores guerreiros da BÃblia já demonstraram medo em alguma circunstância:
Abraão no Monte Moriá; Moisés diante do Mar Vermelho; Sansão, o homem mais forte
que este mundo já viu, temeu os filisteus. Paulo, o gigante espiritual do Novo Testamento,
declarou aos irmãos da cidade de Corinto sua situação interna e externa quando
lá chegou pela primeira vez para pregar-lhes o Evangelho: “Eu estive convosco
em fraqueza, e em temor e em grande tremor” (1 CorÃntios 2.3). Elias, um dos
mais destacados profetas do Antigo Testamento fugiu para uma caverna, porque
temia perder o pescoço.
Perceba que, em nenhum momento o Senhor discriminou os heróis
citados simplesmente pelo fato de terem demonstrado medo. E então? Não fique se
lamentando, porque é normal ter medo.
Mas, o que fez Davi com seus temores?
Observe. Ele poderia ter fixado na sua mente os “prós e os contras”
da situação. Os “contras” eram mais reais e fortes, por exemplo: O filisteu
está muito bem armado, e eu só tenho uma funda; ele tem um escudeiro e eu ...;
ele tem experiência de grandes combates, mas eu....; ele é conhecido como homem
de guerra, e eu pastoreio ovelhas no deserto ...
Bem, o certo é que ele não ficou prostrado diante de um
quadro novo, mas totalmente contrário, porque se ficasse questionando ele seria
derrotado ali mesmo. Sequer sairia do lugar.
Ele tirou proveito do seu próprio medo, como um bêbado que caiu
numa cova de cemitério. Tentou fazer pequenos buracos com seu canivete para
colocar os pés, mas sem sucesso. Cansado de tanto tentar acabou dormindo. Pela manhã
passou um conhecido pelo cemitério e perguntou-lhe por que dormia no cemitério?
O susto de acordar dentro de um cemitério levou o bêbado a sair da cova de um
salto só!
Não adianta lutar para acabar com o medo. Ele faz parte da
natureza humana. Mas é possÃvel dominá-lo. A busca de segurança total é engano.
A vida é aventura, por isso é cheia de riscos e perigos.
Davi não deu ouvidos para mensagens contrárias
Primeiro seu irmão mais velho, Eliabe, tentou desestruturá-lo
emocionalmente, esbravejando contra o jovem aventureiro: “Por que desceste
aqui? E a quem deixastes aquelas poucas ovelhas no deserto? Bem conheço a tua
presunção e a maldade do teu coração, que desceste para ver a peleja” (1 Samuel
17.28). Na cultura patriarcal, o irmão mais velho assumia o lugar do pai diante
dos irmãos mais novos na ausência deste. Seria um ato de desobediência Davi
deixar de ouvir Eliabe.
Segundo, o rei Saul não acreditou no jovem e o proibiu de
enfrentar o filisteu incircunciso: “Contra este filisteu não poderás ir para
pelejar com ele; pois tu ainda és moço, e ele, homem de guerra desde a sua
mocidade” (1 Samuel 17.33). Contrariar o chefe maior do exército de Israel foi,
talvez, a mais imprudente das atitudes de Davi. Mas ele argumentou e o rei não teve
alternativa, até pelo fato de que não haver outro candidato.
Lembre-se: as mesmas pessoas que mandaram Bartimeu não
incomodar o Mestre voltaram depois e disseram: “Levanta-te que o Mestre te chama”.
Todos os dias ouvimos centenas de mensagens boas e más. Já observou que as mensagens
más fazem mais impacto que as boas? As marcas que elas deixam geralmente são mais
duradouras. Apagá-las do coração leva tempo. As boas mensagens nem sempre são
bem aproveitadas.
Mas, o que fez Davi com as palavras que ouviu?
Ele não ficou impressionado, mas soube filtrar as palavras.
Só deixou se impressionar com o que interessava no momento. E o que era mais interessante
naquele momento? Era a vitória sobre o gigante e a recompensa do rei (veja 1 Samuel
17.25, 27 e 30).
Davi não se omitiu
A guerra era do exército de Israel e do próprio rei Saul.
Davi não era soldado, sequer havia sido convocado. Mas como cidadão sentiu-se
ofendido com as ameaças do incircunciso filisteu. Osvaldo, um baiano de Salvador
(BA), operador de retroescavadeira foi convocado por um oficial de justiça para
derrubar um barraco construÃdo indevidamente em propriedade particular. A
senhora dona do barraco, acompanhada de vários filhos pequenos, implorava que não
destruÃsse seu lar, porque não tinha aonde acomodá-los. Osvaldo ficou sensibilizado
com as lágrimas daquela mãe e recusou-se obedecer ao mandado judicial. Recebeu
voz de prisão e foi autuado no distrito policial. Sua atitude foi manchete nos maiores
jornais do paÃs, porque vários canais de televisão acompanhavam o episódio ao vivo.
Três dias depois foi homenageado pelo governador do Estado do EspÃrito Santo
que lhe presenteou uma linda casa. Na semana seguinte foi recebido pelo
presidente da república. Osvaldo não se omitiu.
A maioria das pessoas não quer comprometimento, para manter
a “polÃtica da boa vizinhança”. O princÃpio defendido pela “bacia da omissão de
Pilatos” continua ativo até hoje. São os passos largos do levita e do sacerdote
em relação ao homem assaltado, relatado na parábola do Bom Samaritano.
É comum ouvir reclamação e crÃtica de pessoas que não
deveriam estar onde estão; que outras pessoas mais preparadas é que deveriam
assumir melhores posições, tanto na polÃtica eclesiástica quanto na secular. Em
Ezequiel 7.14 tem uma lamentação que esclarece muito bem esse quadro: “Tocaram
a trombeta e tudo prepararam, mas não há quem vá à peleja”. O que isto
significa? As pessoas preparadas, convocadas que deveriam lutar não se
apresentaram. Daà houve um vazio. Entende?
Ele confiou em Deus, mas confiou em si próprio
Sua fé não foi vã. Ele não creu à toa. Ele não perdeu seu
tempo por crer em Deus. Enquanto Sócrates, o famoso filósofo grego baseava sua cultura
sobre a dúvida, sobre o vazio, quando afirmava: “Só sei que nada sei”, o
apóstolo dos gentios afirmava com todas as letras sua fé no Senhor Jesus: “Eu
sei em quem tenho crido” (1 Timóteo 1.12).
Mas tarde Davi declarou: “Porque contigo entrei pelo meio de
um exército e com o meu Deus saltei uma muralha” (Salmo 18.29); “No nome do
Senhor arvoraremos pendões. Uns confiam em carros, outros em cavalos, mas nós faremos
menção do nome do Senhor, nosso Deus, Uns encurvam-se e caem, mas nós nos
levantamos e estamos de pé” (Salmo 20. 5-8).
Ele era a pessoa certa, no momento certo, para a coisa
certa. Era ele ou o filisteu; ou Israel ou o inimigo; ou o Senhor ou Baal; Ele
não ficou se auto-desvalorizando em baixa estima, como: “Não consigo; não dou
conta; não vai dar certo comigo; sou muito fraco; já tentei outra vez e não consegui”.
Por esta razão Paulo afirmou: “Não que sejamos capazes, por nós, de pensar
alguma coisa, como de nós mesmos, mas a nossa capacidade vem de Deus” (2 CorÃntios
3.5).
Portanto, avalie os gigantes que ameaçaram sua famÃlia,
ministério, profissão, carreira... Veja se eles são fortes suficientes para afrontar
alguém que confia no Senhor.
por Cyro Melo
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