Tanto o pregador quanto o ouvinte precisam exercer grande cuidado para não reduzir a pregação genuinamente bíblica a mero espetáculo. Sabemos que as Escrituras exigem que a mensagem proclamada seja fiel à revelação de Deus (2 Timóteo 4.2). Além disso, grandes eruditos da História da Igreja e as principais obras de homilética reconhecem que o verdadeiro sermão é aquele extraído do texto sagrado, explicado em seu contexto e aplicado com fidelidade. Logo, é correto e necessário confrontar as falsas pregações, especialmente as que promovem heresias, humanizando Deus e divinizando o homem (Romanos 1.25; Gálatas 1.6-9). Contudo, o problema que destacamos aqui, neste artigo, não é a pregação bíblica em si, mas o modo como ela tem sido tratada: como mero espetáculo. Um espetáculo que cria ouvintes, mas não praticantes (Tiago 1.22).
O cerne desse problema é que muitos perderam o interesse de
viver aquilo que as Escrituras exigem do povo de Deus. Isso é perceptível tanto
da parte de quem prega quanto da parte de quem ouve. Os inúmeros escândalos e
imoralidades praticados por alguns que se dizem cristãos evidenciam essa realidade.
Há ouvintes que apreciam uma pregação fiel, admiram sua profundidade teológica,
mas jamais se tornam praticantes. Há também pregadores comprometidos com a
ortodoxia, mas que, tragicamente, caem em pecados graves, revelando uma desconexão
entre o púlpito e a vida (Mateus 23.3).
Nesse cenário, muitos ouvintes tornam-se meros espectadores,
ansiosos por ouvir verdades profundas, não para obedecê-las, mas para admirar a
capacidade intelectual e a habilidade homilética de quem prega. A exposição fiel
do texto passa a ser apreciada apenas como exercício lógico e retórico, e não
como Palavra viva que confronta e transforma (Hebreus 4.12). O mesmo ocorre com
pregadores que transformam o púlpito em palco. Embora realizem uma exegese
correta, o coração pode estar dominado pelo ego, pelo desejo de reconhecimento
e pela vaidade ministerial. Nesses casos, o pregador corre o risco de se tornar
apenas um “profissional de púlpito”, esquecendo-se de que é servo e despenseiro
dos mistérios de Deus (1 Coríntios 4.1,2).
Os escândalos recorrentes no meio das igrejas reforçam a
ideia de que a pregação bíblica se tornou, para muitos, apenas espetáculo. Os altos
índices de imoralidade sexual e corrupção não ocorrem por falta de pregação
fiel, pois alguns desses casos surgem em ministérios que professam doutrina
ortodoxa e séria. O problema reside no fato de que a Palavra é admirada, comentada
e compartilhada, mas não obedecida. Falta arrependimento genuíno e
quebrantamento diante de Deus (Joel 2.12,13). Nunca houve tantas conferências,
congressos e eventos - especialmente voltados para jovens - com pregadores renomados
e bíblicos. Contudo, observa-se pouca transformação real. Para muitos, a
pregação se limita a uma análise lógica e homilética que impressiona o
intelecto, mas não alcança o coração. Ano após ano, permanecem como espectadores
de grandes exposições bíblicas, sem permitir que a Palavra transforme seus
pensamentos e atitudes (Romanos 12.2).
A ausência de avivamento espiritual também revela esse
problema. Muitos associam avivamento a manifestações externas, como gritos e
emoções intensas. Entretanto, o verdadeiro avivamento, produzido por uma
pregação genuinamente bíblica manifesta-se em arrependimento, santidade e obediência
prática à Palavra (2 Crônicas 7.14). Quando uma igreja ouve e pratica a
verdade, o avivamento se estende à sociedade, influenciando áreas a ética, a
educação e até a política. Onde a Palavra é pregada e obedecida, a
transformação é inevitável (Mateus 5.13-16).
Outro fator que contribui para a espetacularização da
pregação é a tendência de enxergar só os pecados alheios. Muitos utilizam
trechos de sermões para postar nas redes sociais com o intuito de “atingir” o
próximo, como se a mensagem não fosse dirigida a elas mesmas. Desejam que
outros pratiquem a Palavra, enquanto, para si, ela serve apenas como algo
admirável (Mateus 7.3-5). No que diz respeito aos pregadores, há ainda o
problema dos “fã-clubes”. É verdade que há pregadores cujo desejo genuíno é ver
vidas transformadas pela Palavra. Como afirmou John D. Woodbridge, ao comentar
sobre Billy Graham, o segredo de seu ministério estava nas Escrituras. Ele
reconhecia que as pessoas não vinham para ouvir sua oratória ou opiniões
pessoais, mas porque estavam famintas por ouvir o que Deus tinha a dizer por meio
de Sua Palavra. Ele via a Bíblia como espada que fere a consciência e conduz os
homens à rendição diante de Deus (Hebreus 4.12). Graham compreendia que seus
sermões tinham um propósito muito maior do que conquistar admiradores. Sua
intenção era conduzir pessoas à conversão, fundamentada na autoridade das
Escrituras (Romanos 10.17).
As mídias sociais também têm contribuído significativamente
para que a pregação seja tratada como espetáculo. Muitos pregadores parecem
mais preocupados com engajamento, visualizações e seguidores do que com a
glória de Deus e a edificação da igreja. O pregador corre o risco de se tornar gestor
de conteúdo digital em vez de embaixador do Reino (2 Coríntios 5.20).
Pregadores e ouvintes precisam refletir seriamente sobre
essa realidade. O fato de um sermão ser genuinamente bíblico não significa, automaticamente,
que esteja glorificando a Deus. O pregador deve lembrar-se de que não é o astro
da exposição, mas um instrumento. Sua preocupação principal não deve ser se o
sermão foi bem avaliado, mas se foi proclamado com o propósito de transformar
vidas (1 Coríntios 2.1-5). E o ouvinte não deve apenas ouvir, mas praticar o
que ouve (Tiago 1.22). Não basta admirar uma exposição fiel. A Palavra não deve
só impressionar a mente, mas transformar o coração, ser guardada nele para não
pecarmos: “Guardei a tua palavra no meu coração para não pecar contra ti” (Salmo
119.11).
por Natanael Diogo
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