Dias desses ouvi um pregador dizer que convenção de pastores não é igreja. Depois de uns rodeios verbais, esse tal pregoeiro fez uma pausa, e arrematou: “Para mim, convenção não passa de uma mera entidade paraeclesiástica”.
Confesso que essa declaração me deixou bastante preocupado.
Se convenção não é igreja, o que é então? Um sindicato? Um grêmio? Ou um clube?
Eu sei muito bem que, juridicamente, há diferenças entre igreja e convenção.
Teologicamente, contudo, a igreja faz-se presente, todas as vezes que dois, ou
três, congregam-se em o nome do Nazareno. E, pelo que tenho visto, numa convenção
não se reúnem apenas dois ou três, mas centenas e, às vezes, milhares de
obreiros. Logo, como não é igreja se tantos pastores, evangelistas e até
teólogos encontram-se congraçados em o nome do Filho de Deus?
Afinal, se convenção não é igreja, é o quê? Tomara não venha
a transformar-se numa agremiação partidária, com todos os vícios (e quase nenhuma
virtude) da política secular. Se isso acontecer, deixaremos de ser igreja para nos
fazermos povo. No Pentecostes, o povo fez-se igreja e admirava a todos por sua
santidade, comunhão e serviço. Problemas? Havia-os e não eram poucos. Entretanto,
cada dificuldade era dirimida sob a orientação do Espírito Santo.
Em Atos dos Apóstolos, registra Lucas a ocorrência de três concílios.
No primeiro, os discípulos concentraram-se a fim de escolher o substituto de Judas
Iscariotes. Observe-se que a decisão do colégio apostólico foi precedida por uma
reflexão teológica e por uma fervorosa súplica (Atos 1.26). O sorteio foi apenas
um detalhe naquele clima de concórdia e temor a Deus. No segundo concílio, os apóstolos
convocaram a comunidade dos discípulos, para resolver uma emergência social: o socorro
às viúvas dos judeus helenistas (Atos 6.1-6). Encerrada a reunião, ganhava a
igreja o diaconato. Quanto ao terceiro concílio, o que podemos dizer? Apesar da
nevralgia do tema, a reunião é concluída com uma declaração que ressalta a unidade
e madureza da Igreja Apostólica: “Pois pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não
vos impor maior encargo além destas coisas essenciais: que vos abstenhais das
coisas sacrificadas a ídolos, bem como do sangue, da carne de animais sufocados
e das relações sexuais ilícitas; destas coisas fareis bem se vos guardardes.
Saúde” (Atos 15.28.29).
Concílio ou Convenção?
Visando a conciliar os bispos de todas as regiões do Império
Romano, o imperador Constantino (272-337) convocou os, em 325, a uma reunião em
Niceia. A cidade, localizada na atual Iznik, região hoje pertencente à Turquia,
era de fácil acesso à maioria dos pastores. A esse encontro deu-se o nome de Primeiro
Concílio Ecumênico da Igreja Cristã, pois todas as congregações deveriam estar
ali representadas. Segundo Atanásio, 318 dignitários fi zeram-se presentes. Já
o historiador Eusébio só conseguiu contar 250.
À semelhança dos concílios realizados em Jerusalém sob a liderança
dos santos apóstolos, o objetivo de Niceia era também conciliar agendas e ânimos.
Infelizmente, teve de ser supervisionado por um imperador, cuja fé, até hoje, não
foi devidamente explicada. Seja como for, os bispos saíram daquela reunião razoavelmente
conciliados. Pelo menos levaram na bagagem um credo e uma cristologia bem definida.
Concílio! Gosto muito dessa palavra. Se lhe formos procurar o
étimo, descobriremos: tanto o verbo conciliar quanto o substantivo concílio
têm, em latim, uma procedência comum. Seja-me permitido, por conseguinte, dizer:
o objetivo de um concílio não pode ser outro senão harmonizar, buscar acordos entre
partes conflitantes e irmanar antagonismos. É claro que jamais devemos negociar
a verdade bíblica nem apequenar a soberania de Cristo sobre a Sua Igreja. Mas
sempre que possível, busquemos a paz.
Algumas denominações ainda fazem uso desse termo. Outras preferem
um mais adequado às suas demandas administrativas: convenção. Não vá pensar
esteja eu sugerindo que se convoque uma assembleia para deliberar sobre a
palavra mais apropriada. Concílio? Ou convenção? Afinal, ambas são tomadas, às
vezes, como sinônimos. Atentemos, então, à etimologia do segundo vocábulo.
Oriundo do substantivo latino coventionem, este termo significa não somente
reunião, mas ainda ajuste, acordo. Por conseguinte, quando nos reunimos em
convenção, objetivamos convencionar temas e pautas, buscando sempre a conciliação.
No entanto, ressalvamos: a supremacia das Escrituras Sagradas não pode ser
negociada.
Afinal, convenção é igreja, ou não?
Para se formar uma sinagoga são necessários pelo menos dez varões
judeus. Mas para se convocar a Igreja de Cristo, bastam duas ou três pessoas predisporem-se
a se reunir em Seu nome. É o próprio Senhor quem no-lo promete: “Porque, onde estiverem
dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles” (Mateus 18.20). Não
importa se aí estão um homem, uma mulher e um menino. Ou três simples crianças.
Se forem três pastores, melhor. Afinal, são três ministros do Senhor, que têm por
hábito invocar constantemente o Cordeiro.
Suponhamos, então, estejam reunidos num mesmo lugar três mil
pastores.
Nesse caso, é o céu na terra. O monte transfigura-se e a roupa
de todos resplandece. Pelo menos é o que deveria acontecer. Infelizmente, esquecendo-nos
de que convenção também é igreja, ao invés de nos congregarmos em nome de
Cristo, segregamo-nos partidariamente em torno de outros nomes. Este é de Paulo.
Aquele, de Apolo. E aqueloutro, de Cefas. Não podemos deixar de fora os que
declaram pertencer apenas a Cristo. Estes são os piores.
De repente, passamos a nos comportar como se estivéssemos
numa agremiação política. Gritamos, ofendemos nossos pares, desrespeitamos os que
presidem e acabamos por escandalizar a todos. Às vezes, até palavras de calão proferimos.
Em algumas ocasiões, usamos a truculência e a força bruta.
Nessas ocasiões, esquecemo-nos de que há sempre um celular gravando-nos
os excessos e uma filmadora nada discreta captando-nos cada um dos impropérios.
No instante seguinte, está tudo na internet. Todo o nosso destempero vai para a
rede. Que espetáculo deprimente! Em minutos, fiéis e infiéis ajuntam-se para
nos caçoar a insensatez. Até os nossos lábios são lidos, dando eco àquele
palavrão que não conseguimos calar.
O que estamos legando às novas gerações? Uma coleção de postagens
na internet, expondo-nos o mau testemunho e a postura nada exemplar? Sim, o que
estamos deixando aos que nos sucederão nos púlpitos e nas cátedras? Nossos filhos
e netos carecem de referências morais e espirituais. Se não lhes dermos, onde
as buscarão? Nesse mundo que jaz no maligno?
Sim, convenção também é igreja. Logo, não pode ser uma mera democracia.
Embora usemos o voto para escolher o que nos presidem, jamais será uma democracia:
seu governo é cristocrático. Conclui-se, pois, que Jesus é a cabeça não apenas da
congregaçãozinha que se reúne ao pé do morro, como também da convenção que se instala
no espaçoso e confortável auditório. Por isso, quer nos achemos num concílio, ou
numa convenção, lembremo-nos de que estamos congregados em o nome de Jesus. Sim,
convenção também é igreja. E pastor também é crente.
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