Para aprender mais sobre o livro de Jó e se aprofundar em questões sobre quem era Jó, seu lamento e sua defesa, e ainda sobre as teologias dos seus amigos, a CPAD traz como tema da revista Lições Bíblicas deste trimestre um estudo sobre o Livro de Jó. O comentarista indicado para esta tarefa é o pastor José Gonçalves. Ele destaca que o Livro de Jó, é um dos livros mais fascinantes e também intrigantes do Antigo Testamento. O pastor frisa ainda que não há em toda literatura veterotestamentária uma outra obra semelhante a ela. “Jó é diferente na sua estrutura, no seu estilo e, sobretudo, no seu conteúdo. Todavia, o Livro de Jó, acima de tudo, demonstra a grandeza de Deus frente à finitude humana”. José Gonçalves é pastor da Assembleia de Deus em Água Branca (PI), escritor, bacharel em Teologia pelo Seminário Batista de Teresina, graduado em Filosofia pela Universidade Federal do Piauí, pós-graduado em Interpretação Bíblica pela Faculdade Batista do Pará e mestre em Teologia por essa mesma instituição. É comentarista de Lições Bíblicas de Adultos da CPAD.
É possível compreendermos todos os propósitos de Deus
para a nossa vida?
Um dos pilares da doutrina bíblica da revelação é que Deus
se deu a conhecer aos homens. Dessa forma, Deus se revelou a Abraão: “O Deus da
glória apareceu a Abraão, nosso pai, quando estava na Mesopotâmia, antes de
habitar em Harã” (Atos 7.2; Gênesis 12.1). Da mesma forma a Moisés no deserto:
“Apareceu-lhe o Anjo do Senhor numa chama de fogo, no meio de uma sarça; Moisés
olhou, e eis que a sarça ardia no fogo e a sarça não se consumia” (Êxodo 3.2).
A revelação máxima de Deus culmina na pessoa bendita de Jesus Cristo: “O Verbo
se fez carne e habitou entre nós” (João 1.18). “Deus estava em Cristo
reconciliando consigo o mundo” (2 Coríntios 5.19). O propósito de Deus,
portanto, só pode ser entendido dentro do contexto da revelação. Todavia, sendo
Deus um Ser majestoso, alto e sublime é compreensível que os humanos, limitados
por sua própria natureza, não contemplem toda a revelação de Deus e
consequentemente ignorem aspectos dos propósitos de Deus para suas vidas (Deuteronômio29.29).
Há propósitos divinos para os homens claramente definidos nas Escrituras;
outros, não. É exatamente isso o que ocorre com Jó. Tanto Jó como seus amigos
conheciam alguns aspectos dos propósitos de Deus a eles revelados, mas
desconheciam outros. Eles sabiam, por exemplo, que Deus recompensa os bons e
pune os maus e que bons prosperam enquanto os maus são punidos. Deus ensina a
Jó e a seus amigos que isso era verdade apenas em parte. Dentro dos propósitos
de Deus, os bons também poderiam passar por sofrimentos sem que isso
significasse uma consequência do pecado ou punição por eles.
Qual a importância de estudarmos o Livro de Jó,
principalmente nos dias de hoje?
O Livro de Jó é de uma atualidade impressionante. Isso não
poderia ser diferente, já que se trata de um texto canônico e inspirado pelo
Espírito Santo (2 Timóteo 3.16). O ensino de Jó se contrapõe com a teologia da
retribuição muito em voga em nossos dias. Esse modismo teológico põe o homem
diante de Deus numa relação de troca. Se você fizer isso, Deus te dará aquilo.
É, portanto, uma teologia de supermercado. Ao demonstrar que o relacionamento
com Deus não obedece, necessariamente, a uma lei de causa e efeito, Jó se ergue
como um verdadeiro monumento em favor da piedade cristã. Não se pode servir a
Deus na expectativa de quantos dividendos isso pode trazer para nós. O servir a
Ele deve vir como um gesto de gratidão, que é uma resposta à sua graça dispensada
a nós.
Todo sofrimento é uma correção divina? Quais as razões do
sofrimento?
O livro de Jó deixa bem claro que nem todo sofrimento é uma
correção divina e não vem, necessariamente, por conta de um pecado cometido. Os
três primeiros amigos de Jó: Elifaz, Bildade e Zofar, pensavam que todo
sofrimento era uma prova da correção divina por conta de um pecado cometido. O
que era, evidentemente, um equívoco. Por outro lado, Jó mostra com clareza que
há também sofrimento com propósito pedagógico. É somente com Eliú, um dos
personagens protagonistas do livro de Jó, que o sofrimento é apresentado de uma
outra perspectiva, que há propósito pedagógico nele.
O fato de Jó ter amaldiçoado o dia de seu nascimento significa
que ele desejava cometer suicídio?
O capítulo 3 do livro de Jó mostra de forma dramática o seu
dilema. Fica evidente que Jó desejou morrer. Todavia, querer morrer é muito
diferente de querer se matar ou cometer suicídio. Jó queria que Deus pusesse um
fim ao seu sofrimento e não ele mesmo. Nesse aspecto, ele desejou nem mesmo ter
nascido; ter nascido morto ou ainda que Deus pusesse fim ao seu sofrimento
pondo fim a sua vida. Por saber que Deus é a causa primária de todas as coisas,
Jó acreditava que o Criador estaria por trás das calamidades que lhes
sobrevieram. Embora o leitor fique sabendo da atuação de Satanás nos bastidores
da tentação, Jó de nada sabia. Na sua forma de pensar, Deus e não ele poderia pôr
um ponto final no seu dilema. Jó lutou contra seus amigos, consigo mesmo e com
Deus em busca da razão de sua existência. Encontrou. Deus se revelou a Jó de
uma forma maravilhosa, de forma que todas as suas perguntas tiveram uma
resposta. Jó, portanto, em vez de fazer uma apologia ao suicídio, depõe contra
essa prática.
Como podemos conjugar o sofrimento dos justos com a
existência de um Deus misericordioso?
A ideia de que os justos não sofriam e que se passavam por
revezes era porque estavam em pecado é mais presente no contexto do Antigo
Testamento, especialmente nos livros sapienciais. O livro de Jó é uma exceção e
se levanta contra essa teologia. No contexto do Novo Testamento, a teologia da
retribuição ainda estava presente, mas tanto Jesus como seus apóstolos vão se
contrapor a ela. Um caso emblemático é revelado na cura de um cego de nascença
(João 9). Quando Jesus curou o cego, os seus discípulos perguntaram: “Quem
pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?” (João 9.2). Em resposta,
Jesus disse: “Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi para que se manifestasse
nele as obras de Deus” (João 9.3). Ao responder dessa forma, Jesus está
confirmando um princípio ensinado no livro de Jó – há outras razões ou causas
para o sofrimento humano. Muitas vezes desconhecidas para nós. O sofrimento
humano, portanto, não depõe contra a existência de um Deus bom. Ele existe por
conta da entrada do pecado no mundo, mas, mesmo assim Deus pode usá-lo de forma
que seus propósitos, que são inteiramente bons, sejam cumpridos. O cristão não
deve se desesperar no sofrimento, mas confiar em Deus que sabe a razão de todas
as coisas.
Por que Deus imputa ao justo o sofrimento?
Há textos no Novo Testamento que mostram que em casos específicos,
o sofrimento atende a um propósito divino e atua com fim pedagógico. Um deles é
emblemático. Temos a questão do “espinho na carne” do apóstolo Paulo (2 Coríntios
12.1-10). Paulo diz que esse espinho era um “mensageiro de Satanás” para lhe
“esbofetear” (v.7). Sem nos determos em questiúnculas exegéticas, o texto é bem
claro em mostrar esse “mensageiro do diabo” (gr. anjo), como uma força do mal,
que causou muito sofrimento ao apóstolo. Aqui a situação do apóstolo Paulo se
parece muito com a do patriarca Jó. A diferença é que Paulo sabia que havia uma
causa secundária trabalhando nos bastidores, Satanás, enquanto Jó só tinha
conhecimento da causa primária, Deus. Em ambos os casos, tanto Jó como Paulo
foram educados pelo sofrimento que experimentaram. O que fica em evidência nas
duas histórias, tanto de Jó como de Paulo, é que Deus pode permitir o “mal”
para dele extrair um bem. Em palavras mais simples, Deus pode usar situações
adversas para o cristão com o fim de ensinar-lhe princípios espirituais maiores
ou para mantê-lo sob disciplina espiritual.
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