Um plano de paz sob ataque em Gaza

Um plano de paz sob ataque em Gaza


“Então seus irmãos desceram, e toda a casa de seu pai, e tomaram-no, e subiram com ele, e sepultaram-no entre Zorá e Estaol, no túmulo de Manoá, seu pai” (Juízes 16.31).

Escrever a respeito da conflitante situação entre Israel e o Hamas é arriscar-se a uma certa desatualização. Entre o dia em que escrevo e os dois ou três dias que antecederam, muitas circunstâncias já foram alteradas.

Expectadores oscilaram entre as efusivas festividades, devido ao retorno de reféns vivos ou à soltura de terroristas, com sua devolução aos núcleos de onde partiram com propósitos claramente destrutivos, e a frustração ao perceber que nem todos os itens do acordo foram cumpridos, mesmo nessa primeira etapa.

Em outra ocasião, deixamos claro que, culturalmente, receber os reféns, mesmo mortos, era questão fundamental para o povo judeu, devido à importância do cumprimento dos cuidados necessários para com os corpos, considerados os verdadeiros atos de misericórdia. O Hamas permitiu que tal devolução fi casse assegurada na construção do acordo, mesmo sabendo que não teria condições para cumprir tal exigência. Não houve expressão ou pretensão de verdade quando o compromisso foi firmado, apenas prevaleceu a necessidade de um princípio de solução que acalmasse as pressões internacionais, tanto para o grupo terrorista quanto para Israel, depois das repercussões do ataque israelense ao Catar, numa ofensiva que visava lideranças do Hamas reunidas em Doha. Acalmar os ânimos dos poderosos negociadores parece ter produzido o efeito de uma concordância a pulso com um primeiro momento de paz.

A fragilidade dessa trégua fica evidenciada no fato de que já se comenta sobre uma segunda etapa, sendo que as partes envolvidas ainda discutem e discordam sobre a primeira. Além da prometida devolução dos corpos, persiste a não resolvida questão do desarmamento do Hamas – algo impensável, se considerarmos a própria essência do grupo desde sua formação, que envolve ataques e resistência armada, com o uso de força e táticas em total desrespeito às convenções estabelecidas para a preservação da mínima dignidade humana em situações de guerra. Faz-se necessário lembrar que o Hamas não representa uma nação, mas trata-se de um grupo terrorista, que tem feito da população de Gaza seus mais numerosos e sofridos reféns.

Enquanto especialistas procuram soluções para o conflito e alguns desejem os lauréis por tudo o que, porventura, resultar de modo positivo das negociações, fica nossa sugestão de que seja consultado o homem que se tornou o maior especialista na região de Gaza, no antigo reduto dos filisteus: seu nome é Sansão, homem nazireu, um dos valorosos juízes de Israel, cuja vida foi derramada ali, debaixo dos escombros de uma construção filisteia, tendo o corpo removido por seus irmãos, que o sepultaram no sepulcro de seu pai Manoá.

Ainda que os atuais moradores de Gaza não descendam dos antigos filisteus, não sendo, portanto, os ‘philistinos’ originais, parece haver naquela região uma mesma forma de proceder, como um conjunto de ações que se assemelham e, guardado o cuidado devido, tendem a se repetir. Por exemplo, quando o coração do filho de Manoá é incitado contra o povo local, o jovem inicia um processo de aproximação, envolvimento, provocações que, de certa forma, justificam alguns ataques. Lembramos que os tempos eram de relativa calma entre os judeus e os filisteus, após a vitória dos últimos, o confisco da Arca da Aliança, a enfermidade que acometeu os vitoriosos e a devolução do móvel sagrado. Uma tensão respeitosa manteve os dois lados em suspensão. Inimigos, com severas questões não resolvidas, mas sem realizarem nenhum ataque direto. No jogo de poderes, os filisteus prevaleciam. Quando o Senhor desperta Sansão, direciona-o a Gaza. Gaza era, portanto, questão ainda não resolvida aos olhos de Deus.

A luta do jovem juiz parece ser, por um bom tempo, uma luta solitária. Ele mexeu e provocou turbulência em uma questão que estava, aparentemente, quieta – não resolvida, mas quieta. Aqui há uma clara diferença entre Sansão e outros guerreiros das Escrituras. Quando Abrão lutou para libertar seu sobrinho Ló, contou com 318 homens nascidos e criados em sua casa. Dirigindo um exército pequeno, mas inteiramente comprometido e sob suas ordens, o patriarca obteve vitória e resgatou seu amado sobrinho e sua família, tornando-se suserano sobre nove reis; suserania que, aliás, desprezou, preferindo receber, no Vale de Savé, a bênção ministrada por Melquizedeque em nome de El Elion, o Deus Altíssimo. Também Gideão, em sua desequilibrada peleja, contou ao menos com 300 valentes, após a desqualificação de 12.000 (doze mil) homens por serem medrosos, e de 9.700 (nove mil e setecentos) por beberem água de forma inadequada para qualquer homem em vigilância diante de um possível ataque do inimigo. Para o solitário Sansão, no entanto, não havia 318 fi éis companheiros, nem mesmo 300 provados. Na ausência desses, o valente pôde contar com a ação, certamente irregular e assustada, de 300 raposas sobre os campos. Na verdade, uma só raposa rubra é necessária para demonstrar que aqueles campos ainda não estão em paz.

Sansão classificaria Gaza como um local de atração, de sedução, de segredos revelados, de traição, de demonstração desmedida de forças, de satisfação carnal, de pactos violados, de força aniquilada, de cegueira, de trabalho árduo, de vergonha, de escárnio e de dor – sobretudo daquela dor que atinge o guerreiro atacado em suas fragilidades, esquecido de sua unção e da origem de sua força, esquecido da razão primeira de sua existência.

Pessoas celebraram a paz, esquecendo-se de que o anúncio de um acordo dessa natureza deve provocar em nós um alerta escatológico, especialmente se a promessa for de paz e segurança – sobrevirá, então, repentina destruição. Isso não significa que não desejemos ou oremos pela paz, além de aguardarmos um futuro melhor, nossa bendita esperança. Quanto àquela região especificamente, ela pertence à tribo de Judá, e o cabeça dessa tribo bem saberá pacificá-la – somente Ele. Outros tentarão, alguma solução temporária poderá acontecer, mas a paz efetiva e definitiva somente será promovida pelo Príncipe da Paz.

Os irmãos de Sansão transportaram seus restos mortais para o túmulo do pai. Israel tentará, ainda, resgatar os corpos dos reféns. Outra solução seria estabelecer o sepulcro dos israelenses por meio da construção de um memorial dentro de uma Gaza restaurada, reconstruída, pacificada, livre de armamentos e de temores. Trata-se de um desejo – quase um delírio. Por hora, ainda há raposas flamejantes sobre as plantações locais. Aguardemos em oração, e que o exemplo do nazireu ajude-nos a manter viva a lembrança de nosso chamado.

por Sara Alice Cavalcanti

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