Em 1 e 2 Reis, encontramos as histórias de dois profetas não literários: Elias e Eliseu. O primeiro exerceu um ministério mais ascético, buscando quase sempre o isolamento social. Quando estava nas cidades, sua mensagem era de confrontação, desafiando reis e levantando a bandeira do culto a Jeová em um contexto de idolatria institucionalizada (1 Reis 16.29-33). O ministério de Eliseu, sucessor de Elias, era de maior proximidade com a sociedade. Ele convivia muito mais entre o povo do que seu mestre.
Um dos episódios mais marcantes da trajetória do profeta Eliseu
está em 2 Reis 6. O texto informa que o rei da Síria, Bem-Hadade II, intentava
várias emboscadas contra o rei de Israel. Entretanto, ao contrário dos falsos deuses,
“que tem olhos, mas não veem” (Salmos 115.5), o Senhor, nosso Deus, tudo vê (Salmos
139.1-4). É por conta da onisciência de Deus que o profeta sempre alertava Jorão,
rei de Israel, o qual dava ouvidos e ia por outro caminho. Esse alerta ocorreu
várias vezes (2Rs 6.9,10), de maneira que o rei sírio chegou a desconfiar que
havia um traidor em seu exército que passava informações privilegiadas ao
monarca israelita (2 Reis 6.11). Porém, um dos servos de Bem-Hadade revelou-lhe
a realidade: “Não, ó rei, meu senhor; mas o profeta Eliseu, que está em Israel,
faz saber ao rei de Israel as palavras que tu falas na tua câmara de dormir” (2
Reis 6.12). Após isso, o rei envia um exército para capturar Eliseu (2 Reis
6.13).
Quando o moço de Eliseu vê as tropas sírias, se espanta e
diz “Que faremos?” (2 Reis 6.15). Aqui, Eliseu assume, de modo alegórico, a
figura da geração que está cumprindo com êxito e fidelidade seu ministério,
legando às gerações futuras uma herança espiritual de fé, comprometimento e
lealdade; e seu moço, metaforicamente, assume o lugar da nova geração: inexperiente,
imediatista, que precisa beber nas mesmas fontes das quais os grandes vultos da
história beberam. A nova geração não sabe o que fazer, ainda não aprendeu que é
no forno das provações que ministérios autênticos são forjados. Desespera-se
diante dos desafios da caminhada, porque não foi treinada para adversidade.
Essa geração quer glória sem dor, quer coroa sem passar pelo caminho da cruz;
almeja o “domingo da ressurreição”, mas não quer trafegar pela “sexta-feira do calvário”.
O conselho do apóstolo Paulo atravessa os séculos e brada
aos nossos ouvidos: “Sofre, pois, comigo, as aflições, como bom soldado de Jesus
Cristo” (2 Timóteo 2.3). O moço não sabia como proceder, mas reconheceu sua
ignorância. “A geração do moço” precisa aprender que não tem como ensinar a
quem acha que sabe. O sábio se coloca na posição de aprendiz (Provérbios 9.9). Elizeu
tranquiliza o rapaz: “E ele disse: Não temas; porque mais são os que estão
conosco do que os que estão com eles” (2 Reis 6.16). Essa é a voz da
experiência, de quem anda com Deus. Diante das batalhas mais renhidas, sabe que
o Senhor está a seu lado (Sl 46.7). A geração de Eliseu afirma com convicção
“Não temas!” e ensina à nova geração uma verdade muito relevante: para ser
profeta, chamado e vocacionado para exercer o sagrado ministério, é preciso
conhecer o Deus a quem servimos - não apenas de forma teórica, mas experiencial
(Jó 42.5).
Uma das grandes tragédias do nosso tempo é a separação de obreiros
não chamados para o ministério. Sem generalizar, alguns são bons oradores,
possuem considerável base hermenêutica, são performáticos, mas não passaram
pela “sarça do chamamento”, não conhecem o Deus da Bíblia, o Dono da Obra. O
jovem olhou com os olhos naturais e viu só a desvantagem numérica, mas Elizeu o
tranquilizou: “Mais são os que estão conosco”. A juventude quer vencer as
batalhas da fé com as estratégias humanas, mas a herança da espiritualidade
deixada por nossos pais nos ensina que “as armas da nossa milícia não são
carnais” (2 Coríntios 10.4).
Em seguida, o relato bíblico diz que o profeta ora: “Senhor,
peço-te que lhe abras os olhos, para que veja. E o Senhor abriu os olhos do
moço, e viu; e eis que o monte estava cheio de cavalos e carros de fogo, em
redor de Eliseu” (2 Reis 6.17). A geração do homem de Deus acredita no poder da
oração e, por isso, cultiva uma vida de constante intimidade com Deus. A
prática da oração tem caído em obsolescência em muitos redutos cristãos. A ação
de Eliseu é uma reverberação em favor do hábito indispensável da oração.
Observamos que o profeta intercede pelo moço. Vivenciamos uma transição geracional
no Brasil. A geração de Eliseu está findando os dias do seu ministério (Lucas
1.23). No entanto, a geração do moço necessita da mentoria, do discipulado e da
intercessão da geração que está passando o bastão ministerial a seus sucessores.
O sucesso da geração futura depende de uma sucessão bem feita entre “os
profetas” e “os moços” contemporâneos.
Eliseu orou e os olhos do moço foram abertos. Como ocorreu
entre Moisés e Josué, que os jovens obreiros hodiernos estejam à sombra de seus
líderes para serem devidamente preparados para dar continuidade à obra do
ministério. Da mesma maneira que Deus operou na geração de nossos pioneiros,
Ele seja com a nossa, pois precisamos honrar o legado pentecostal semeado em
solo brasileiro com lágrimas, sangue e suor.
por Geovane Leite
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