A presença do Espírito não nega os dogmas e a doutrina, ela a vivifica. Aquilo que poderia se tornar letra morta torna-se Palavra viva quando o Espírito sopra
A presença do Espírito Santo transforma a igreja de uma instituição administrativa em uma comunidade carismática e viva. Cada membro é visto como alguém ungido por Deus para servir com dons, formando uma igreja participativa, onde o clero e o povo compartilham o ministério (1 Coríntios 12.4-11). Além disso, o Espírito levanta profetas, pessoas com discernimento e coragem para denunciar injustiças e proclamar esperança (Isaías 61.1-2). Mas isso pode não ser assim quando o Espírito Santo é “domesticado” pela submissão às “doutrinas” da igreja ou quando Ele é preterido no lugar de outras coisas que são importantes, mas que podem tomar Seu lugar. Este artigo argumenta que a marginalização do Espírito Santo, a partir da Reforma Protestante, gerou uma lacuna Pneumatológica com impactos duradouros na eclesiologia cristã, e propõe sua reintegração como fundamento vital.
Rejeição do movimento do Espírito na história da Igreja
A história da Igreja mostra que os ventos do Espírito muitas
vezes foram confundidos com tempestades de erro, quando, na verdade, sopravam renovação
e fogo vivo. Frank D. Macchia (2006, p. 152) escreveu que Donald Gee expressou
isso como um chamado à Igreja para manter o Espírito como fonte vital e ativa da
fé cristã, não apenas como doutrina. Alguns movimentos na história da Igreja, embora
tidos como heréticos por parte da cristandade em suas épocas, hoje podem ser
vistos sob outra luz e, em muitos casos, revelam rastros legítimos da ação do
Espírito Santo, especialmente à luz de uma teologia pentecostal, que reconhece
a multiformidade e liberdade do Espírito (João 3.8; 1 Coríntios 12.11).
Movimentos Místicos Medievais (séculos 12–14)
Os Movimentos Místicos Medievais foram caracterizados por uma
união mística com Deus, experiências espirituais intensas, revelações, visões e
contemplação. Algumas das figuras desses movimentos foram perseguidas ou
julgadas por heresia. Em sua experiência do Espírito, há elementos que ecoam o clamor
pentecostal por intimidade direta com Deus. Seus principais expoentes foram
Hildegarda de Bingen, Mestre Eckhart, Juliana de Norwich, entre outros.
A Reforma Radical (século 16)
A Reforma Radical, cujos adeptos foram chamados de
“Entusiastas”, foram rechaçados por Martinho Lutero por darem liberdade ao
Espírito Santo nos seus cultos. Foram liderados por André (Bodenstein) Karlstadt
(1486-1541) e Tomás Mü ntzer (1489-1525). Münzer declarou que, naquele tempo,
algumas pessoas piedosas estavam tendo revelações e manifestação de glossolalia
(BLOCH, 1973, pp. 23 e 43).
Os Quakers (século 17)
Os Quakers foram tidos como anárquicos e heréticos por desafiar
a estrutura clerical, negar os sacramentos externos e ensinar que todo ser
humano podia ouvir diretamente a voz de Deus. Muitos historiadores e teólogos
veem os Quakers, liderados por George Fox, como precursores da ênfase
pentecostal na direção do Espírito e na igualdade espiritual de todos os
crentes (cf. Atos 2.17,18).
Os Morávios (século 18)
Embora não formalmente heréticos, foram vistos como
excêntricos e “fanáticos” pelos luteranos tradicionais, por seu misticismo, emoção
e práticas comunitárias incomuns. Hoje são amplamente reconhecidos como um dos movimentos
mais autênticos de avivamento e missionariedade da história cristã.
O Avivamento Metodista (século 18)
Foram acusados de fanatismo religioso por suas reuniões ao
ar livre, gritos, choros, quedas e visões. John Wesley, seu principal líder,
foi expulso de várias igrejas anglicanas. Hoje são reconhecidos como
reformadores avivalistas dentro da Igreja. O metodismo influenciou diretamente o
Movimento de Santidade e, posteriormente, o Pentecostalismo.
O Movimento da Rua Azusa (1906–1915)
Foi visto como um movimento “bárbaro”, emocionalmente
instável e doutrinariamente problemático. Muitas denominações protestantes condenaram
o movimento e seus frutos. Hoje é considerado o berço do Pentecostalismo moderno,
que impacta mais de 650 milhões de pessoas no mundo. A ênfase era o batismo no Espírito
Santo com evidência de línguas, cura divina, unidade racial e de gênero, e adoração
espontânea. A história da Igreja mostra que, muitas vezes, o novo de Deus é confundido
com erro. Em cada um desses movimentos, ainda que imperfeitos, vemos um esforço
legítimo de se abrir ao mover do Espírito. Donald Gee (1943, p. 89), ao tentar
equilibrar a manifestação do Espírito com a teologia eclesiástica, disse que não
rejeitava os excessos carismáticos sem antes defender que o maior problema seria
uma igreja sem fogo algum. Ele afirmou: “Apesar de tudo isso, precisamos ter cuidado
para não extinguir a manifestação do Espírito, para não desprezarmos algo que o
Espírito Santo está se esforçando para revelar e restaurar, por mais imperfeitos
e corrompidos que sejam os canais”.
Os Cinco Solas e a exclusão do Espírito
Os três primeiros Solas apareceram no início da Reforma: Sola
Scriptura no discurso de Lutero na Dieta de Worms (1521), e Sola Gratia
e Sola Fide na Confissão de Augsburgo (1530), escrita por Felipe Melanchthon.
Solus Christus surgiu nas Institutas da Religião Cristã (1559) de João Calvino.
Soli Deo Gloria, embora presente na tradição reformada e em João
Calvino, especialmente em sua teologia da soberania divina, foi incorporado
mais tarde como o quinto Sola. Foi o teólogo Emil Brunner, a partir de 1943, que
mencionou de forma mais organizada os Solas. Mais tarde eles foram amplamente
debatidos na Declaração de Cambridge em 1996, a qual nem sequer cita o Espírito
Santo.
O que quero enfatizar com esta breve apresentação dos
“Solas” é que a pessoa do Espírito Santo foi colocada de lado quando criaram os
pilares da Reforma Protestante, como que concordando com o lugar subalterno que
o Espírito Santo foi posto nos principais documentos da igreja cristã, embora
impulsionados por Ele, não sendo percebido como “vinho novo” nem como Aquele que
“sopra onde quer”. Antes, Sua atuação foi percebida com temor daquilo que o
livre agir do Espírito poderia trazer e pelo medo da perda de controle.
A mesma preocupação e a rejeição das autoridades religiosas
com a pregação e o ensino de Jesus se verificam em relação à liberdade para a atuação
do Espírito Santo, pelas estruturas religiosas na história da Igreja. Isso fez
com que, na cristalização dos “Solas”, o Espírito Santo não fosse
considerado, muito embora reconheçamos que em vários momentos a ruptura com
estruturas ultrapassadas foi possível graças à Reforma Protestante. Tal questão
se percebe pela ausência dEle nos escritos, na dinâmica expansionista e espiritual,
na rejeição histórica aos movimentos do Espírito, na sua classificação como
heréticos e na sua quase ausência nos tratados teológicos (CARVALHO, 2022, pp.
26 e 332).
O desenvolvimento da Reforma Protestante se deu, obviamente,
pela atuação do Espírito, mas muito mais sujeito ao espírito da época com suas
crises profundas que impulsionaram a adesão à reforma, que eram: uma saturação com
a ignorância da fé e o pesado fardo meritório que estava imposto sobre os
fiéis. Já os movimentos do Espírito, embora possam se beneficiar de questões
sociais, econômicas e políticas, são impulsionados por uma força interior que
provém diretamente do Espírito sobre o ser humano, como no surgimento do pentecostalismo
no início do século 20.
A ausência do Espírito Santo na declaração dos “Solas”
atesta o enrijecimento dos dogmas e das doutrinas que, quando não abertos ao Espírito
Santo, sepultam a espiritualidade. Ao me contrapor à estrutura dogmática que prescinde
do Espírito, não estou afirmando que a dogmática seja algo negativo. Graças a
ela a Igreja tem sustentado uma ortodoxia coerente com o Evangelho em muitos
aspectos; porém, o que afirmo é que a substituição da livre operação do
Espírito Santo pela rigidez dogmática tem sido fonte de morte ao invés de vida.
Onde o dogma toma o lugar do Espírito, como nas igrejas reformadas, a
vivacidade e o crescimento orgânico e numérico estarão comprometidos.
A inclusão do Espírito Santo nas declarações eclesiais
(SOARES, 2017) é a garantia de que a igreja de Cristo seguirá triunfante e
guiada pela dinamicidade do Espírito, mas somente a inclusão por questões
dogmáticas pentecostais não seria suficiente, pois novamente se incorreria no erro
da tradição reformada: enrijecer a letra em detrimento da liberdade do
Espírito.
Com a pouca ênfase ao Espírito Santo em muitos tratados teológicos,
houve uma tendência de exaltar a Escritura em si, em detrimento da atuação
contínua de seu inspirador. Isso não significa desvalorizar a Bíblia — de forma
alguma! Afirmamos sua inspiração, autoridade e centralidade na vida da Igreja. No
entanto, é preciso lembrar: a Escritura é Palavra viva porque foi soprada pelo Espírito.
Ele é Deus; a Escritura é Sua obra. Logo, não pode haver separação entre o
texto e a ação do Espírito que o vivifica. Quando o Espírito sopra, até a letra
respira.
Implicações da ausência do Espírito Santo
O esquecimento do Espírito Santo, não só como Pessoa da Trindade,
mas como presença viva, dinâmica e relacional de Deus na comunidade de fé, tem
implicações profundas para a eclesiologia, a espiritualidade, a missão e a
ética da igreja, especialmente na estigmatização das igrejas do Espírito
(pentecostais) sob a alegação de que relativizam a interpretação bíblica; assim,
reduziu-se o Espírito à letra da Escritura. (TERRA, OLIVEIRA, 2017, p. 50). Mesmo
teólogos reformados contemporâneos, como Vanhoozer (2016) e Frame (2012),
reafirmam que a Sola Scriptura pressupõe a ação iluminadora do Espírito Santo,
evitando, assim, uma leitura meramente racionalista.
A ausência do Espírito Santo leva a uma fé centrada em doutrinas
abstratas e não na vivência do Deus vivo. Quando o Espírito é negligenciado, a
fé se torna uma teologia sem vida. Uma teologia que não contempla o Espírito
Santo como fundamento da vida cristã corre o risco de tornar-se racionalista e
desencarnada. No contexto pentecostal, onde a fé é marcada pela experiência do
“vento impetuoso” de Atos 2, isso representa um esvaziamento da dimensão relacional
e vivificante da fé. Sem a presença renovadora do Espírito, a igreja tende a cair
no ativismo religioso, na rotina vazia e na institucionalização da fé. O
Espírito é quem guia, corrige, levanta profetas e santifica a igreja.
O princípio Sola Scriptura, quando desligado da
inspiração e iluminação do Espírito, pode favorecer uma leitura puramente
crítica, acadêmica e desespiritualizada da Bíblia, ou ainda levar à veneração do
livro, enquanto objeto de culto, quando ambas as suposições levam ao
esvaziamento do sentido do texto vivo. Os “Solas” exaltam Cristo, mas frequentemente
o separam da unção do Espírito que continua agindo na Igreja (Lucas 4.18). Como
Cristo mesmo afirmou: “É melhor para vocês que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador
não virá para vocês; mas, se eu for, eu o enviarei a vocês” (João 16.7).
A ausência do Espírito compromete a missão da igreja, pois ela
é missio Spiritus, e não apenas uma estratégia institucional. O Espírito
é quem envia, capacita e convence o mundo do pecado, da justiça e do juízo (João
16.8). Se o Espírito é o “Senhor e doador da vida”, como professa o Credo Niceno,
negligenciá-lo é sufocar a própria vitalidade da igreja. É possível ter
Escritura, Cristo, fé e graça, mas, ainda assim, uma igreja vazia do Espírito.
Precisamos de uma Reforma Pneumatológica que complete os “Solas” com o sopro do
Espírito.
Implicações da presença do Espírito Santo
A presença do Espírito não nega os dogmas e a doutrina, ela
a vivifica. Aquilo que poderia se tornar letra morta torna-se Palavra viva quando
o Espírito sopra. “A presença do Espírito é a presença da própria vida divina em
nós” (CHAN, 1998, p. 120). Na comunidade pentecostal, isso se traduz em cultos
marcados por alegria, lágrimas, cânticos espontâneos e dons espirituais, como
sinais visíveis de uma fé pulsante.
O Espírito Santo, nesse contexto, não substitui a fé, a
Palavra, a graça ou Cristo, ou a glória de Deus, mas atua em estreita correlação
com eles. Sua ação é considerada fundante, pois a eficácia e o proveito dos demais
“Solas” (como o Sola Scriptura ou o Solus Christus) dependem da
explicação e atualização proporcionadas pelo Espírito Santo, contribuindo significativamente
para uma igreja vivificada e para uma teologia que transcende a mera formalidade.
Para os pentecostais, a pneumatologia é cristológica e, reciprocamente, a
cristologia é pneumatológica, indicando uma circularidade essencial para a
teologia que busca resgatar a dimensão do Espírito Santo em todas as esferas da
vida, da teologia e da igreja (OLIVEIRA, 2017, pp. 548-551).
O Espírito nos faz participar da vida de Cristo (Romanos
8.9-11), não apenas admirá-lO de forma descompromissada. A ética sem o Espírito
torna-se moralismo. Ele forma o caráter de Cristo em nós (Gálatas 5.22-23). A
Bíblia não é apenas estudada, mas ouvida como Palavra viva que fala hoje (Tiago
1.22,25). Isso implica numa hermenêutica do Espírito: a Escritura lida com devoção,
oração e abertura à voz divina (POMMERENING, 2024). Se foi o Espírito que inspirou
a escrita da Bíblia, então o melhor entendimento se dá a partir de sua
inspiração para a compreensão. Mas o Espírito vai além disso, Ele leva o crente
a digerir o seu conteúdo, tornando-se a Palavra parte integrante do seu ser (Apocalipse
10.9).
A presença do Espírito gera koinonia, comunhão
verdadeira. O Espírito quebra barreiras de etnia, de classe e de gênero (Gálatas
3.28), e constrói uma comunidade reconciliada. A presença do Espírito Santo é
Deus entre nós, em nós e através de nós (Colossenses 1.27). O Espírito Santo na
Igreja é a garantia de que Ele guia em toda verdade (João 16.13), lembra das palavras
de Jesus e ensina o que é necessário (João 14.26), consola amorosamente (João
14.16), intercede com gemidos inexprimíveis (Romanos 8.26), concede os dons para
o ministério (1 Coríntios 12.7-8), renova todas as coisas (Salmos 104.30) e mantém
a comunhão (Romanos 5.5). Solus Spiritus Sanctus! Sem Ele, a Bíblia se torna
letra morta, Cristo é apenas personagem histórico; mas, com Ele, tudo revive: a
letra da Palavra arde nos corações, Cristo caminha conosco, a fé inspira, a
graça basta e a glória volta a ser de Deus.
REFERÊNCIAS
BLOCH, Ernst. Thomas Münzer: teólogo da revolução.
Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1973.
CARVALHO, César Moisés; CARVALHO, Céfora. Teologia
sistemático-carismática. Vol.1 e 2. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2022.
CHAN,
Simon. Spiritual theology: a systematic study of the Christian life. Downers
Grove: InterVarsity Press, 1998.
FRAME, John M. A Doutrina da Palavra de Deus. São
Paulo: Cultura Cristã, 2012.
GEE, Donald. All with One Accord. Springfield, MO: Gospel Publishing House, 1943.
INSTITUTO GENEBRA DE ESTUDOS REFORMADOS. A Declaração de
Cambridge: a sistematização dos Cinco Solas. 31 out. 2017. Disponível em: https://institutogenebra.com/2017/10/31/a-declaracao-de-cambridge-asistematizacao-dos-cinco-solas/.
Acesso em: 14 jun. 2025.
MACCHIA,
Frank D. Baptized in the Spirit: A Global Pentecostal Theology. Grand
Rapids, MI: Zondervan, 2006.
MOLTMANN, Jürgen. O Espírito da Vida: uma pneumatologia
integral. São Leopoldo: Sinodal, 1992.
OLIVEIRA, David Mesquiati de. Os Pentecostais, o Espírito
Santo e a Reforma. Revista Pistis & Praxis, Curitiba, v. 9, n. 2,
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POMMERENING, Claiton Ivan. Teologia da Experiência.
Rio de Janeiro: CPAD, 2024.
SOARES, Esequias (Org.). Declaração de fé das Assembleias
de Deus. Rio de Janeiro: CPAD/CGADB, 2017.
TERRA, Kenner Roger Cazotto; OLIVEIRA, David Mesquiati de. Hermenêutica
do Espírito: A Leitura Bíblica na Reforma Radical. Estudos Teológicos, São
Leopoldo, v. 57 n. 1 p. 46-59 jan./jun. 2017.
VANHOOZER, Kevin J. O Drama da Doutrina. São Paulo:
Vida Nova, 2016.
por Claiton Ivan Pommerening
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