O espírito como princípio de vida no ser humano, as funções do espírito na Bíblia e os graus de vida
A palavra “espírito” vem da raiz hebraica ruash”, da qual se deriva o vocábulo grego neotestamentário pneuma, que se traduz por “espírito” e denota o movimento dinâmico do ar. Seus derivados têm os seguintes significados:
1) Pneõ, “assoprar” (do vento e do ar em geral, como
também sobre instrumento musical); “respirar” (também no sentido da vida);
“emitir fragrância”. (1)
2) Pneõ como cognato: “respiração” (início da vida em
geral). O significado depende do contexto. Exemplo: “Deixai-vos pois do homem cujo
fôlego está no seu nariz...” (Isaías 2.22a).
3) Ekpneõ, “expiração” (cessar de respirar, término da
vida em geral). Ilustrando: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. E, havendo
dito isto, expirou” (Lucas 23.46b).
No Novo Testamento, pneuma é uma palavra de grande
significado e de infinito alcance. Forma-se da raiz grega esboçada acima com o
sufixo -ma e denota o resultado da ação, a saber, colocar o ar em movimento.
No campo teológico, portanto, isso denota “a existência da vida”, nos termos
físicos e jurídicos.
Quando analisamos o termo em foco do ponto de vista
antropológico, a palavra ocorre por 400 vezes no Antigo Testamento e 385 vezes
no Novo Testamento, referindo-se àquela “parte” do homem que “sabe” (1 Coríntios
2.11), a parte que habita “dentro do corpo” para que o mesmo seja reanimado (Daniel
7.15). Ela foi formada por Deus “dentro do homem” (Zacarias 12.1; Hebreus 4.12;
12.9). Esta parte representa a natureza suprema do seu ser e rege a qualidade do
seu caráter numa posição elevada. Dependendo do significado do pensamento, o espírito
humano é comparado com o lugar santíssimo. A ordem a nós apresentada por Deus é
inconfundível: “...vosso espírito, e alma, e corpo” (1 Tessalonicenses 5.23).
Não é “...vossa alma, e espírito, e corpo”. Nem tampouco é: “...vosso corpo, e
alma, e espírito”. O espírito é a parte proeminente, daí ser mencionada
primeiro; o corpo é a mais inferior, e por isso é mencionada por último; a alma
fica no meio e por isso é mencionada entre os outros dois.
Tendo visto a ordem de Deus, podemos apreciar a sabedoria da
Bíblia ao compararmos o homem a um templo. Podemos observar a perfeita harmonia
existente entre o templo e o homem, tanto no tocante à ordem quanto ao valor. O
espírito humano tem três modos de proceder, dependendo dos três poderes que o caracterizam,
que são: o intelecto, a afeição e a vontade. O intelecto é a parte que lhe
capacita a faculdade de julgar, recordar, imaginar e raciocinar; a afeição é a
parte que lhe capacita a sensibilidade, o sentir dor, prazer, ódio, amor e
outras formas de expressão; e a vontade é a parte lhe capacita para o dever de
escolher, de rejeitar isso e aceitar aquilo, e seguir o seu destino, pondo em prática
as deliberações tomadas. (2)
As funções do espírito
Alguns textos da Bíblia mostram que nosso espírito possui a
função da consciência (não dizemos que o espírito é a consciência), a função da
intuição (ou sentido espiritual) e a função da comunhão (ou adoração). Observemos
agora cada função em ação nas Escrituras:
1) A função da consciência no espírito: “...porquanto
o Senhor teu Deus endurecerá o seu espírito” (Deuteronômio 2.30); “...perto está
o Senhor dos que têm o coração quebrantado, e salva os contritos de espírito”
(Salmos 34.18); “...cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito
reto” (Salmos 51.10); “Jesus, pois, quando a viu chorar, e também chorando os judeus
que com ela vinham, moveu-se muito em espírito” (João 11.33a); “E, enquanto Paulo
os esperava em Atenas, o seu espírito se comovia em si mesmo, vendo a cidade
tão entregue à idolatria” (Atos 17.16) etc.
2) A função da intuição no espírito: “...na verdade,
o espírito está pronto...” (Mateus 26.41); “E Jesus, conhecendo logo em seu
espírito...” (Mc 2.8); “Este era instruído no caminho do Senhor e fervoroso de espírito”
(Atos 18.25); “E agora, eis que, ligado eu pelo espírito, vou para
Jerusalém...” (Atos 20.22).
3) A função da comunhão no espírito: “E o meu
espírito se alegra em Deus meu Salvador” (Lucas 1.47); “Mas a hora vem, e agora
é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade”
(João 4.23); “Porque Deus, a quem sirvo em meu espírito...” (Romanos 1.9);
“...mas recebestes o espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba,
Pai” (Romanos 8.15b); “...o meu espírito ora bem...” (1 Coríntios 14.14).
Ora, todas estas funções são e devem ser exercidas através
do espírito. Elas têm conotação com a vida religiosa, mas, evidentemente, nelas
a ação da alma está também presente. (3)
No que diz respeito à vida, o espírito é responsável pela vida
consciente do homem desde seu ponto de partida (sua formação e nascimento) até a
sua chegada final (pela morte), com a primeira começando com uma “respiração”
(sopro de vida – Gênesis 25.8; Lucas 23.46). Como se depreende, a alma é de uma
substância espiritual e, de igual modo, deduzimos que o espírito o é também,
pois a Bíblia afirma que “...um espírito não tem carne nem ossos” (Lucas
24.39a). Mas isso não afasta a possibilidade de o espírito ter “um corpo de
ordem espiritual”. Na passagem de Jó 4.15, lemos: “Então um espírito passou por
diante de mim; fez-me arrepiar os cabelos da minha carne. Parou ele, mas não
conheci a sua feição; um vulto estava diante dos meus olhos” (Jó 4.15,16).
É afirmado na Bíblia que o homem é possuidor de duas partes
imortais: a alma e o espírito, isto é, psychê e pneuma, que nossas
versões correntes em português traduzem por “alma” e “espírito”. Estas duas
substâncias, interligadas, designam um “conjunto psicofísico” correspondendo a
um ser vivente especial e suas diferentes formas de expressão. (4)
Os graus de vida
Distinguem-se três graus de vida em sentido lato: a vida
vegetativa (das plantas), a vida sensitiva (dos animais) e a vida racional (do homem).
Evidentemente, se este homem (ou mulher) são cristãos, adiciona-se mais um grau
de vida a eles: a vida espiritual (na alma e no espírito). O homem tem por princípio
as formas de vida vegetativa, sensitiva e racional. O homem, natureza
intelectual, não possui três almas, mas possui tanto as potências vegetativas,
quanto as sensitivas e a racional,5 por cuja razão o escritor sagrado diz:
“Porque o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos
animais; a mesma coisa lhes sucede: como morre um, assim morre o outro, todos
têm o mesmo fôlego” (Eclesiastes 3.19,20).
Ora, isso não significa que a alma humana (racional) seja da
mesma substância da alma sensitiva (o fôlego) e sim que a alma superior (psychê)
assume as funções dos graus de vida inferiores. Isso significa, sim, que a alma
humana é, ao mesmo tempo, vegetativa (como se vê no estado de coma), sensitiva
e racional.
Do ponto de vista divino de observação, a vida humana teve início
nas palavras do Criador, quando disse: “Façamos o homem...” (Gênesis 1.26); e do
ponto de vista legal, em Gênesis 2.7: “E formou o Senhor Deus o homem do pó da
terra, e soprou em seus narizes o fôlego de vida...”. Filosoficamente falando, a
questão da vida pertence normalmente à Psicologia ou ao estudo da alma e suas
operações. (6) A vida, com efeito, é a presença da alma vegetativa, sensitiva e
racional. Podemos, todavia, como se faz comumente, limitar a Psicologia ao
estudo do homem e acrescentar a Cosmologia ao estudo da vida em geral. Mas
isso, do ponto de vista divino, não combina com o argumento e a natureza
principal.
Segundo os estudiosos, a vida pode ser definida como movimento
imanente. A vida é uma realidade muito simples para que a possamos definir.
Pode-se apenas descrevê-la em sua manifestação pelo movimento espontâneo e imanente,
quer dizer, por um movimento que o ser vivo produz por si mesmo, por seus próprios
recursos e que tem seu termo imediato no próprio ser vivo – movimento, aqui, não
apenas no sentido de movimento local, mas de toda passagem da potência ao ato e
mesmo de operação. Assim, o ser vivo se move, enquanto que o não-vivente é
movido. (7) Quando se diz que o ser vivo se move por si mesmo, não se quer dizer
que ele seja absolutamente o primeiro do movimento. Universalmente, tudo o que
se move é movido por um outro ser, isto é, depende de um outro ser no exercício
de sua atividade. O ser humano se move (vive) devido à ação de Deus. O apóstolo
Paulo depreende isso até dos próprios filósofos (epicureus e estóicos) em Atos
17.28: “Porque nele [em Deus] vivemos, e nos movemos, e existimos...”.
Todo corpo vivo é vivo pela presença de uma alma, distinta
da matéria corporal. O corpo, enquanto matéria, não é capaz de se mover. Como é
enfatizado por Tiago, “o corpo sem o espírito está morto” (Tiago 2.26), pois o seu
movimento provém, de forma substancial, daquilo que, nos seres vivos, recebe o nome
de alma e espírito – daí, às vezes, a frase “espírito de vida”, que se liga
também com o mundo animal (Gênesis 7.22). É, pois, forçoso rejeitar a teoria
físico-química materialista segundo a qual a vida se explicaria adequadamente
por combinações de forças físico-químicas e seria, por conseguinte, redutível a
uma propriedade da matéria. Do ponto de vista racional, isso é impossível de
ser alcançado. A matéria é passiva; o ser vivo é ativo. A matéria se expande do
exterior, por adição de elementos homogêneos; já o ser vivo se expande do
interior e depois se reproduz, o que não acontece com a matéria.
O espírito como princípio de vida no ser humano
Usada principalmente no Antigo Testamento e no Novo
Testamento para falar do vento – como em Gênesis 8.1, Números 11.31, Hebreus
1.7 (se diz dos anjos: “...o que de seus anjos faz vento...”) – e frequentemente
usada ao falar de hálito, como em Jó 12.10 (“Que está na sua mão [de Deus] a
alma [fôlego] de tudo quanto vive, e o espírito [hálito] de toda a carne humana?”),
o espírito como princípio da vida no homem tem diversos sentidos e aplicações. Nem
sempre acontece, mas, em uma vez ou outra, está em foco a diferença de “fôlego”
para a alma e de “hálito” para o espírito. Porém, quando isso se consubstancia,
às vezes é usada a expressão para indicar uma aparição de algo que partia do mundo
espiritual: “...assustaram-se, dizendo: É um fantasma [espírito]. E gritaram com
medo”. E em Lucas 24.37, há semelhante ideia na imaginação dos discípulos: “E
eles, espantados e atemorizados, pensavam que viam algum espírito”.
Como já dissemos, o espírito humano representa a natureza suprema
do homem, e nessa peculiaridade rege a qualidade de seu ser e caráter. Aquilo
que domina o espírito torna-se o atributo de seu caráter. Por exemplo: se o
homem permitir que o orgulho o domine, ele tem um “espírito altivo” (Provérbios
16.18). Assim, a Bíblia fala de “um espírito perverso” (Isaías 19.14), “um espírito
rebelde” (Salmos 106.33), “um espírito impaciente” (Provérbios 14.29) e “um
espírito perturbado” (Gênesis 41.18). O homem pode estar dominado por um “espírito
de servidão” (Romanos 8.15) ou ser impelido pelo “espírito de inveja” (Números
5.14) – ou, conforme diz o original, “um espírito de ciúmes”.
Os pecadores, por exemplo, podem ser tomados de “...um
espírito de covardia” (2 Timóteo 1.7); “um espírito de profundo sono” (Romanos
11.8); e “um espírito de prostituição” (Oséias 4.12). (8) Porém, é evidente
que, aqueles que como Daniel, têm “um espírito excelente” (Daniel 6.3) devem
ter “um espírito de brandura” (Gálatas 6.1), “um espírito reavivado” (Gênesis
45.27), “um espírito quebrantado” (Salmos 51.17) e “um espírito novo” (Ezequiel
11.19). Quando assim acontece, então o homem passa a possuir “um espírito
humilde” (Mateus 5.3).
Avançamos mais um passo quando entendemos que o espírito
humano se relaciona com o Espírito de Deus, pois o ser humano não passa de uma criatura
à qual foi transmitida a vida pelo Espírito de Deus, sendo a vida que ele tem
um resultado do hálito de Deus. Assim, a vida e a morte foram realisticamente
descritas como uma concessão ou uma retirada do sopro de Deus. O espírito pode
ser, assim ou “esmorecido” (Salmos 143) ou “abatido” (Provérbios 15.13), que é
o lado negativo; ou, numa operação por parte de Deus, “reviver” (Juízes 15.19),
que é o lado positivo.
Notas bibliográficas
(1) Dicionário Internacional de Teologia do Novo
Testamento, volume 2, 1985, p. 122
(2) LANGSTON, A. B. Esboço de Teologia Sistemática,
1977, p. 130. 1977
(3) NEE, Watchman. O Homem Espiritual, volume 1,
1986, p. 33.
(4) Curso de Filosofia, Rio de Janeiro, 1984.
(5) Curso de Filosofia, Rio de Janeiro, 1984.
(6) op. cit., 1984
(7) Idem, 1984
(8) SILVA, Severino Pedro da. Daniel Versículo por
Versículo, Rio de Janeiro: CPAD, 1986, p.110.
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