Israel e Ismael em mútua proteção

Israel e Ismael em mútua proteção


O primeiro-ministro de Israel, Benyamin Netanyahu, fez recentemente a declaração de que seu país tem “profunda aliança fraternal” com o povo druso, guardando “laços familiares e históricos” que obrigam ao compromisso em “evitar danos” a esse povo em território sírio. O premier referia-se à origem ismaelita dos milhares moradores das montanhas do Oriente Médio.

A história drusa retrocede ao Egito, durante o século XI, portanto, alguns séculos depois do surgimento do islamismo. Sua adesão às orientações de Maomé, no entanto, sempre os diferiu dos demais muçulmanos. Os drusos seguem uma religião abraâmica, portanto, monoteísta, creem na eternidade da alma, consideram profetas tanto Moisés, quanto Jesus e Maomé. Como figura de destaque e elevada honra, veneram Jetro. A comunidade manifesta em sua religião elementos do cristianismo, gnosticismo e islamismo. Foram fortemente influenciados pela filosofia grega, sendo considerados sincréticos em suas crenças. A religião drusa tem características esotéricas, com práticas veladas, exclusivas de seus adeptos. Os drusos não são proselitistas, creem na reencarnação, falam árabe e, embora sejam classificados como “uma vertente esotérica do islamismo”, diferenciam-se a tal modo que costumam ser repudiados pelos muçulmanos tradicionais.

Há drusos habitando nas montanhas do Líbano, Síria, Turquia e Jordânia. A opção pelos montes deveu-se às constantes perseguições sofridas. Em Israel, seu número chega a 200 mil, sendo 20 mil somente nas Colinas de Golã. A população teve sua identidade e especificidade reconhecida pelo Estado Judeu desde a sua fundação. Em resposta, são cidadãos com plenos direitos e deveres, prestam serviço militar e vivem de forma pacífica e integrada com os judeus. Quanto à participação política, têm pleno acesso, o que ficou patente no ano de 2007, quando Israel foi presidido, interinamente, por um parlamentar druso, Majalli Wahabi - exatamente – Israel já foi presidido por um ismaelita.

Em território sírio, o quadro muda inteiramente. Após a queda de Bashar Al- Assad, Ahmed Al-Sharaa, também chamado de AAl-Jolani, prometeu proteger as minorias locais das forças extremistas e incluí-las no processo de construção de um governo nacional. O ocorrido, de fato, é que os rebeldes continuam com os atos de perseguição aos grupos independentes. A explicação para isso pode estar nas palavras de Amichai Chikli, ministro para Assuntos da Diáspora e Controle ao Antissemitismo em Israel. Para ele, Al-Jolani não passa de um “terrorista e assassino bárbaro”, tendo passado pelo grupo jihadista Al-Qaeda e ainda seguidor de sua ideologia: “Não devemos ficar de braços cruzados diante do regime terrorista islâmico-nazista da Al-Qaeda, de terno e gravata. Quem pensa que Ahmed Al-Sharaa é um líder legítimo está profundamente enganado. Ele é um terrorista, um assassino bárbaro que deve ser eliminado imediatamente”.

Excluídos do processo político e constantemente perseguidos e humilhados, os drusos têm sido cruelmente atacados em dias mais recentes pelo exército sírio. A bem da verdade, o chamado “exército sírio” ainda não está composto de forma homogênea e organizada, mas trata-se de uma colcha de retalhos que inclui forças rebeldes, grupos de guerrilha, opositores radicais aos não sunitas, agindo, na maioria das vezes, de maneira desconectada do governo central, sediado em Damasco.

Ataques recentes à população drusa do sul da Síria (cidade de Suwayda) levou ao ataque do dia 16 de julho, quarta-feira, à sede do Ministério da Defesa da Síria, onde estava em curso o planejamento das próximas violentas ações contra a comunidade. A escolha israelense atingiu a pretensão de ser objetiva quanto ao alvo desejado, mas devemos considerar o esforço realizado, num momento em que Israel ainda está ocupado em identificar e destruir túneis em Gaza, ao mesmo tempo em que atende à sofrida população local, assolada por anos de autoritarismo por parte do Hamas, além de ter de estar em constante vigilância com relação ao Irã. As ações conjuntas afetam a economia israelense, gera instabilidade, aumenta impostos, afugenta turistas... Mas, diante da necessidade do irmão, as mãos não podem ficar encolhidas. Israel não desamparará os ismaelitas drusos.

A comunidade drusa também não está inerte - o que tem gerado outros problemas. Drusos residentes em Israel atravessam a fronteira com a Síria para ajudar seus irmãos perseguidos em território sírio. Para protegê-los, soldados israelenses atravessaram a fronteira síria, o que provocou justa reação do governo local. A tentativa das Forças de Defesa de Israel não obteve o resultado desejado. Nada convence a comunidade drusa a não se arriscar. Eles prosseguirão agindo para dar apoio e proteção aos demais irmãos drusos. Drusos não desampararão drusos.

Observadores externos, por vezes, desconhecem a tecidura diversificada e específica que cobre as terras do Oriente Médio. Habita ali uma família, composta por irmãos que disputam, discutem, divergem, convergem, odeiam-se e amam-se. No interior de suas tendas, persiste a bênção proferida por seu pai, Noah: “Habite o Senhor nas tendas de Sem”. Esse Deus que habita contempla seus desvios, divergências, dureza e distorções quanto à fé. Ele também orienta, corrige e pune, ao mesmo tempo em que jamais esquecerá das bênçãos que Ele mesmo proferiu sobre o filho de Hagar e sobre o filho de Sara - isso para não mencionar os filhos de Quetura e muitos outros povos.

São povos que não abandonam a mídia sem assunto que os inclua, ao menos uma vez a cada dia. Tristemente, pelos mais variados motivos, estão envolvidos em confrontos destrutivos que afetam a todos. Desde domingo, apenas no recente conflito na Síria, são contabilizados 300 mortos. Ainda que o líder interino do país tenha declarado que “proteger os drusos é sua prioridade absoluta”, sua palavra não transmite confiança ou tranquilidade. Lamentável.

Os drusos têm a seu favor despertarem uma certa simpatia em grande parte da população mundial. É difícil identificar e, mais ainda, explicar o porquê. Nem mesmo sua clara aliança com Israel é suficiente para alimentar antagonismo. Talvez o motivo seja sua fama de isolacionistas, não belicosos a menos que sejam provocados, ou o fato de serem um grupo minoritário e muito específico em suas características, talvez. Vê-los discutindo amigavelmente, com gestos largos, voz alta e expressões enfáticas sempre dá ao observador a impressão de uma briga, quando se trata apenas de uma calorosa discussão. O mesmo quadro, porém, pode ser visto numa reunião amigável de outros árabes, de judeus, de libaneses, de sírios... Em situações de paz, misture-os. Acrescente os amharas e os tigrinhos da Etiópia, também povos semitas, e termos uma festa muito semelhante à um conflito, sendo apenas uma reunião familiar.

Quem é o pai desses irmãos: O Pai, que os contempla, vigia sobre eles e já tem preparado seu futuro e restauração. Uma certeza quanto a esse futuro reafirma-se cada vez que um deles é alcançado pela salvação em Jesus Cristo, o Messias, como um sinal: no coração de cada semita que se rende ao Senhor é restaurado o amor por seus irmãos, a compreensão sobre o papel de Israel como herdeiro da promessa e a bênção de serem coerdeiros da graça derramada pelo Pai.

por Sara Alice Cavalcanti

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