Blindando as crianças dos palavrões

Blindando as crianças dos palavrões


Eu tive o privilégio de nascer em um lar evangélico, e isto me possibilitou ser protegida contra influências externas na minha primeira infância. Cresci indo todos os dias à igreja para reuniões de oração, cultos públicos e de doutrina, e para ensaios, pois meu pai regia o coral principal enquanto minha mãe, que tocava violino, auxiliava na condução da orquestra. Além disso, de forma a obedecer às regras da época, em nossa casa não havia televisão e não ouvíamos músicas seculares.

Eram tempos diferentes, mas, mesmo cercada por uma redoma de proteção, aos seis anos, quando fui para escola, aprendi palavrões com os amigos do colégio. Lembro-me até hoje que, ao chegar em casa e repetir um dos que havia aprendido, minha mãe colocou uma barra de sabão de coco na minha boca enquanto me explicava, mais uma vez, que minha boca devia ser limpa, e que minha linguagem não poderia ser construída por sentimentos ruins ou palavras torpes. E por mais que minha história possa parecer chocante para você, sou grata a Deus por ela todos os dias!

A construção da linguagem

A linguagem é a principal ferramenta humana para a tomada de decisão, bem como para comunicar pensamentos e sentimentos. A partir da linguagem, conseguimos produzir frases, apreendendo significados e analisando verbalmente comportamentos e ações. Nosso cérebro, desde o útero, inicia o processo de produção da linguagem de forma progressiva, inicialmente permitindo que o bebê reconheça sons, vozes e ritmos da língua ouvida. Ao nascer, com a prática da imitação e da interação social, os filhos começam a assimilar os sons, construindo a fonética e acumulando o vocabulário da língua que está sendo construída. As crianças captam o estilo gramatical de todos à sua volta, inclusive da mídia a que têm acesso, como filmes e desenhos. Começam associando palavras a pessoas, objetos, ações e acontecimentos, e vão desenvolvendo estruturas gramaticais cada vez mais complexas. São capazes de criar códigos de linguagem com significados diferenciados com irmãos e amigos, e facilmente assimilam a semântica de frases como “Estou morrendo de fome”, “Ela está nas nuvens”, “Estou morto de sono”, “Estou com o coração partido”, “Ele ficou de boca aberta” e “O tempo voa”.

A linguagem, portanto, inicia como descritiva, sendo utilizada para nomear coisas, situações e pessoas – é como se a criança estivesse dizendo: “Quero saber/falar sobre o que está ao meu redor”. Entretanto, enquanto permanece assimilando vocabulário, em um momento posterior, a criança adquire uma linguagem com uma abordagem mais expressiva, seja por meio de ouvir/contar histórias, conversar ou brincar, seja quando visa interagir, expressar desejos, sentimentos e relações sociais. E é exatamente nesta fase que os palavrões aparecem na linguagem infantil. Palavras torpes Grande parte dos palavrões é construída regionalmente. O que é considerado palavrão em Portugal ou nos Estados Unidos pode ser diferente do que consideramos no Brasil, por exemplo. Contudo, em todas as civilizações e culturas, há expressões rudes, chulas, com conotação sexual, ou que visam diminuir, oprimir, envergonhar, segmentar, irritar ou angustiar o próximo. A criança, tal como uma esponja, internaliza tudo o que ouve. Portanto, pais e cuidadores são aqueles que precisam, inicialmente, observar as palavras que os filhos usam, mas cuidar especialmente do que eles ouvem dentro de casa, na escola, entre amigos, nas redes sociais e, principalmente, dos próprios pais. Se preciso for, pode ser importante cortar relações com alguns amigos, evitar casas de parentes, assistir séries e desenhos para permitir ou proibir, e até mesmo mudar hábitos da casa.

Não basta apenas dizer “Não fale isto”. Inicialmente pode ser que a criança nem compreenda o real significado do palavrão que está ouvindo ou repetindo. Portanto, pergunte calmamente: Onde você ouviu essa palavra? Você sabe o que ela significa? Por que você falou isso? Quem usa esta palavra perto de você?

Lembre-se que as pessoas e a mídia, por meio de filmes, desenhos e jogos infantis, bem como de aplicativos de celulares, usam palavrões de forma usual, como se esses fossem normais ou engraçados. Isto faz com que eles pareçam interessantes, mesmo quando ofensivos ou imorais – e, por isso, respeitando a idade dos filhos, devemos explicar devidamente o significado dos palavrões. Em Efésios 4.29, Paulo adverte: “Nenhuma palavra torpe saia da boca de vocês, mas apenas a que for útil para edificar os outros, conforme a necessidade, para que transmita graça aos que a ouvem”. Assim sendo, a começar em nós, precisamos aprender a selecionar as palavras que utilizamos e ensinar nossos filhos a escolher palavras que não inferiorizem pessoas, que não machuquem, ou que não firam os outros ou a santidade divina.

Há ainda outro ponto importantíssimo: palavrões são usados frequentemente como ferramentas emocionais para demonstrar desafetos. Palavrões estão associados a explosões de raiva, descontentamentos ou ao desejo de machucar a autoestima alheia. A verdade é que mesmo os que são adultos e se rotulam crentes precisam vigiar quando batem com o dedinho no pé da cama, são fechados por outro carro no trânsito, discutem com seus cônjuges ou são caluniados, confrontados, desafiados, injustiçados ou contrariados. A Bíblia é clara: “A boca fala do que está cheio o coração” (Mateus 12.34).

O uso de palavrões, especialmente por crianças que já compreendem o real significado deles, aponta para o distanciamento dos ensinos bíblicos e evidencia maus exemplos no meio próximo e afetivo. Certamente podem sinalizar necessidade de aceitação pelos amigos, descontentamento, raiva contida, urgência de apoio afetivo ou profunda dor emocional. Assim sendo, mais do que só proibir, é fundamental conversar sobre as causas e compreender os motivos da raiva, da inadequação, da angústia ou da agressão verbal. A partir de então, mesmo estabelecendo regras claras, precisamos cobrir nossas crianças com afeto, amor, compreensão e segurança emocional, ajudando-as a desenvolver uma autoestima que não se utiliza de palavras sujas ou infames para se expressar.

por Elaine Cruz

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