Pela primeira vez, eles não são mais maioria em seu país e o seu poder de decidir eleições diminuiu drasticamente, como provam as eleições deste ano (matéria de 2012)
Em uma das mais disputadas eleições da história dos Estados Unidos,
o presidente democrata Barack Hussein Obama venceu o republicano e ex-governador
Mitt Romney por 303 a 206 nos colégios eleitorais (com vitórias apertadíssimas
nos Estados-chave de Ohio, Virgínia e Flórida) e apenas 2,4 pontos percentuais de
diferença na votação nacional (50,4% contra 48% – 60,6 milhões de votos contra 57,8
milhões de seu adversário). Esse resultado revelou um país profundamente
dividido, como nunca antes em sua história recente, mas mostra também muito mais
do que isso. Talvez seja o “último suspiro” de uma América para a ascendência de
outra América. Isso porque essas eleições revelaram o preocupante fato de que a
chamada “maioria moral” (como foi batizada nos anos de 1980 a maioria cristã conservadora
dos EUA) pela primeira vez não é mais maioria, não tendo mais a força que tinha
nas eleições passadas.
Nesta eleição, não apenas o mais liberal presidente da história
dos EUA foi reeleito – um homem que apoia abertamente o aborto até o nono mês
de gravidez e em qualquer caso, bem como seu financiamento pelo Estado; que é o
primeiro presidente a apoiar o “casamento” gay e o menos pró-Israel da história
do país; que decretou, como primeiro ato como presidente, em 20 de janeiro de
2008, a destruição de embriões para pesquisas; que apoia a criação em seu país das
tais leis contra a “homofobia”, que defende a maior dependência do cidadão em
relação ao Estado etc. Nesta eleição, aconteceu muito mais do que isso: simultaneamente,
o “casamento” gay foi aprovado em plebiscito em quatro Estados (Maine, Minessota,
Maryland e Washington) assim como a legalização da maconha para fins
recreativos em Washington e Colorado. Foi a primeira vez que o consumo de maconha
foi aprovado nos EUA.
E não é que os evangélicos não saíram às urnas desta vez, como
aconteceu em 2008, quando 30 milhões ficaram em casa desmotivados com John McCain,
e Obama terminou vencendo por 10 milhões de votos de diferença. Eles foram às urnas
neste ano, sendo que, agora, seu comparecimento não foi sufi ciente,
diferentemente das eleições de 2004, quando os evangélicos, segundo pesquisas da
época, e para raiva dos analistas liberais de então, foram o determinante não só
para a reeleição do conservador Bush (que naquele período ainda não amargava as
primeiras desilusões do seu país com a guerra no Iraque), mas também para a derrota
do “casamento” gay e da liberação da maconha em plebiscitos em vários Estados.
Mas, por que, mesmo com os evangélicos mais presentes no pleito
presidencial deste ano do que no de 2008, eles não fizeram a diferença? A resposta
foi dada um mês antes das eleições. No início de outubro, saiu uma pesquisa do
Instituto Pew que mostrava que, pela primeira vez na história dos EUA, os
evangélicos não eram mais maioria no país. Em 2004, eles ainda eram 53% dos norte-americanos
e mais da metade do eleitorado. Oito anos depois, são 48% da população e 47% do
eleitorado. É por isso que, mesmo estando, por exemplo, fortemente mais presentes
nas urnas da Virgínia neste ano, os evangélicos não evitaram a vitória de Obama
ali, assim como aconteceu em Ohio e Flórida, onde também compareceram em bom número
e a vitória do democrata também ocorreu, embora apertada. Uma pesquisa de boca
de urna da CNN divulgada na noite do dia da eleição mostrou que 49% dos eleitores
que foram às urnas na Virgínia eram evangélicos. Nas eleições presidenciais de 2008,
apenas 21% dos que foram às urnas naquele Estado eram evangélicos.
Entre 70% a 80% dos evangélicos que foram às urnas em 6 de
novembro votaram em Romney, mas não foi sufi ciente. Quem definiu a eleição deste
ano foram os latinos, que representam 17% da população, e em alguns Estados, como
a Flórida, são quase 25%.
Os evangélicos sabiam que a vitória de Romney não estancaria
o processo de decadência de valores dos EUA, mas apenas o tornaria mais lento, razão
ela qual, mesmo diante do perfil moderado de Romney, e mesmo ele sendo mórmon,
ainda se mobilizaram em seu favor. Entre dois males inevitáveis, escolheram o
menor. Mas, não tiveram peso sufi ciente para fazer valer nacionalmente a sua
escolha.
A pergunta que se faz agora é: O que será dos EUA nos próximos
anos? Não sabemos precisamente, mas os sinais deste pleito não são nada animadores.
Os republicanos, majoritariamente conservadores, mantiveram a maioria na Câmara
dos Representantes. Os conservadores também são fortes na Internet e nas rádios
nos EUA. Mas, o que é isso diante do fato de que os liberais não só detêm o Senado
e têm mais quatro anos na Presidência com seu favorito, como também continuam
dominando esmagadoramente a indústria cultural e do entretenimento nos EUA, a
maioria na imprensa televisiva e impressa no país, e ainda contam com forte apoio
da opinião pública internacional? Além disso, os evangélicos – grande base
conservadora do país – estão diminuindo, enquanto aumenta entre a população uma
cultura de dependência da população em relação ao “papai” Estado, algo
impensável nos EUA de décadas atrás.
Queda vertiginosa
Em 1776, ano da Independência dos EUA, 97,6% da população
eram evangélicos, sendo 34,2% metodistas, 20,5% batistas, 20,4% congregacionais,
19% presbiterianos e 3,5% episcopais. Os católicos eram 1,8% e 0,6% era a soma de
outras religiões e agnósticos. Em 1900, os evangélicos ainda eram 90%. Aí veio
a forte imigração para os EUA no início do século 20. Só de 1900 a 1910, foram
quase 10 milhões de imigrantes que entraram no país, sobretudo irlandeses e
italianos.
Vieram, em seguida, também muitos latinos. Isso fez com que a
porcentagem de católicos aumentasse consideravelmente, o que não afetou tanto o
perfil do país, porque a maioria dos católicos na época era de conservadores. Porém,
logo a maioria católica se tornaria liberal e o próprio liberalismo social (e
teológico) também ganharia força entre muitos evangélicos.
Em 1990, 60% da população eram evangélicos e 26,2%, católicos.
Em 2004, eram 53% a 54% de evangélicos e 29% de católicos. Em 2007, 51,3% de evangélicos
e 24% de católicos. Em 2008, 50% de evangélicos. Em 2012, 48%. Isso significa
dizer que nos primeiros 124 anos de República, os evangélicos diminuíram 7
pontos percentuais; nos 90 anos seguintes, 30 pontos; enquanto nos últimos 22 anos,
só nesse pequeno período, a queda foi de 12 pontos percentuais. Esse dado é
extremamente significativo, e o resultado das urnas neste ano comprovam isso, bem
como pesquisas de maio deste ano que mostraram, pela primeira vez, o apoio ao “casamento”
homossexual sendo maioria no país também.
A intensificação da guerra cultural nos EUA entre conservadores
e liberais, e do confronto entre a cosmovisão cristã e a naturalista, nos últimos
anos, não é à toa. É um sintoma. O país, como um corpo, está com febre. O vírus
do liberalismo social o infectou de vez e os “anticorpos” conservadores estão
tentando resistir a ele, mas o corpo não mostra muita melhora.
Os EUA estão mudando. E, infelizmente, em muitos sentidos, não
para melhor. Pode até se recuperar financeiramente, o que ainda é muito incerto,
mas o que está sendo sedimentado naquele país culturalmente é quase irreversível.
Com isso, a referência de valores no Ocidente parece que
passará a ser, nos próximos anos, definitivamente, a progressista e super social
liberal União Europeia, sintomaticamente eleita neste ano a ganhadora do Prêmio
Nobel da Paz. Há pouco tempo, os EUA ainda mantinham uma boa reserva de
conservadorismo social em contraste com a Europa. Porém, aos poucos, vai se
“europeizando”, se tornando, como dizem os conservadores nos EUA, mais “francesa”:
menos filha da Revolução Americana de 1776 e mais imitadora, implicitamente, da
tresloucada Revolução Francesa de 1789, tão eufemizada e envernizada ideologicamente
pelos historiadores progressistas e estatistas. Obama já havia ganhado o Prêmio
Nobel da Paz em 2008 sem ter feito nada ainda como presidente, apenas pelo que representava
em termos de valores. E a União Europeia, mesmo tremendamente combalida economicamente,
é vista como o grande modelo para o Ocidente hoje. Note: o prêmio não foi para a
Europa, mas para a instituição União Europeia, como grande modelo de organização
para os outros países.
Ao que parece, neste ano, o tabuleiro do final dos tempos experimentou
mais um significativo movimento.
Reação dos líderes evangélicos nos EUA
A reação da liderança evangélica norte-americana ao resultado
das eleições deste ano foi, como era esperado, de frustração e muita preocupação
com os destinos do país. O reverendo Franklin Graham, filho do famoso
evangelista Billy Graham, afirmou, em entrevista à CNN, que acredita que os EUA
estão “em um caminho de destruição” devido aos resultados eleitorais de 6 de
novembro. Graham explicou ainda que o caminho a que ele estava se referindo envolvia,
entre outras coisas, a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, e
arrematou: “Se estamos autorizados a ir por este caminho a que este presidente
quer que a gente desça, eu acho que vai ser para a nossa conta e risco e para a
destruição desta nação”.
Em maio, Franklin Graham já divulgara um comunicado em resposta
ao anúncio do presidente em favor do casamento homossexual, afirmando que Obama
havia “balançado o punho contra Deus, que criou e definiu o casamento”. E em outubro,
em entrevista a Piers Morgan, na CNN, Franklin asseverou ainda que “O presidente
apoia algo que é contra a posição de Deus, e este é um grande problema”.
Joseph Farrah, fundador e editor de um dos maiores jornais eletrônicos
evangélicos dos EUA, o World Net Daily, foi igualmente contundente em artigo publicado
um dia após o pleito: “Obama representa para mim o julgamento de Deus sobre um povo
que se afastou dEle, de Seus caminhos e de tudo pelo qual nossos fundadores
[dos EUA] sacrificaram suas vidas, suas fortunas e sua sagrada honra”.
O pastor Albert Mohler, presidente do Seminário Teológico Batista
do Sul dos EUA e um dos mais proeminentes evangélicos do país, mostrou-se
também preocupado com os destinos do país após as eleições: “Devemos orar para
que Deus mude o coração do presidente Obama sobre uma série de questões, desde a
santidade da vida por nascer até a integridade do casamento. Devemos também nos
opor à sua lei sobre contracepção, que pisa na liberdade religiosa”, asseverou Mohler,
referindo-se a uma das imposições do Obama-care (o plano de saúde público do governo
Obama) no qual o governo norte-americano força todas as universidades, mesmo religiosas,
a fornecerem formas contraceptivas a seus alunos (pílulas, camisinha etc.), que
serão fornecidas com dinheiro público. “Dada a trajetória de seu primeiro mandato
no cargo, estamos grandemente preocupados com o seu segundo mandato, ainda mais
que agora o presidente se sentirá mais livre, pois nunca mais vai enfrentar o
eleitorado”, lembra Mohler.
De forma geral, os pastores norte-americanos conclamaram o
povo a orar e jejuar pelos destinos do país daqui para frente. Nesse tom, o presidente
do Concílio Geral das Assembleias de Deus nos EUA, pastor George Wood, escreveu
uma nota aos assembleianos sobre as eleições deste ano, ressaltando quais as
atitudes que os assembleianos no seu país deveriam tomar após o resultado das
eleições. Abaixo, seguem os trechos principais:
“No final do sexto século a.C., quando Judá enfrentou graves
desafios nacionais e internacionais, Deus deu uma palavra através do profeta Jeremias
que é relevante para nós hoje. Jeremias escreveu uma carta aos líderes políticos
de sua nação, a quem o rei Nabucodonosor havia exilado na Mesopotâmia. Essa
carta continha esta diretiva divina: ‘Busque a paz e a prosperidade da cidade para
a qual Eu carrego vocês para o exílio. Orem ao Senhor por ela, porque se ela
prosperar, vocês também irão prosperar’ (Jeremias 29.7)”.
“Em primeiro lugar, oração. Durante um ano de eleições, os cristãos,
por vezes, confundem o resultado das eleições com o Reino de Deus. Se o
resultado da eleição não é como queríamos, somos tentados a pensar que os propósitos
de Deus foram derrotados. Não há dúvida de que os exilados se sentiam assim.
Onde estava Deus? Por que Ele os abandonou? Mas a perspectiva de Deus foi
diferente: ‘Eu tenho carregado vocês para o exílio’. Ele tinha seus propósitos no
exílio de Judá. Assim, ore ao Senhor. Deus estava pedindo a eles para orarem pela
paz e a prosperidade de seus inimigos. Esta diretiva lembra-nos o caráter
missionário do povo de Deus. Deus enviou Judá para o exílio para abençoar Babilônia.
Da mesma forma, Ele nos colocou na América para abençoar aqueles que não O conhecem.
Devemos orar por sua paz, prosperidade e, o mais importante, sua salvação”.
“Juntamente com os outros líderes das Assembleias de Deus, peço-lhes
hoje para começarem uma rotina de oração fervorosa pela nossa nação, pelos seus
líderes e, especialmente, pelos perdidos. Aqui, no Centro de Liderança e
Recursos Nacionais, começamos a oração às 7h14, em uma referência a 2 Crônicas
7.14. Convidamos os membros das Assembleias de Deus para orar por avivamento duas
vezes ao dia, às 7h14 e às 19h14, e para jejuar e orar pelo mesmo propósito cada
sexta-feira. Vamos promover essa iniciativa em nível nacional”.
“Em segundo lugar, evangelismo. A política é importante, especialmente
em um ano eleitoral, mas a política não é o mais importante. A missão da Igreja
é ‘fazer discípulos de todas as nações’ (Mateus 28.19). [...] Em terceiro lugar,
ação. Um compromisso com a oração e com o evangelismo não impede a defesa de
causas sociais ou o engajar-se em campanhas políticas. [...] Em quarto lugar, civilidade.
Na minha opinião, a campanha presidencial de 2012 atingiu novos níveis de
incivilidade, vulgaridade e desonestidade. Não importa o lado que começou e era
o pior, importa que o discurso cristão deve ser sempre civilizado. Os cristãos
devem ser conhecidos por ‘falar a verdade em amor’ (Efésios 4.15). Como cristãos
nos EUA, Deus nos comissiona a falar profeticamente sobre questões como o
‘casamento’ homossexual, aborto, imigração, pobreza e violência. Mas, Ele nos comissiona
a falar verdades duras de uma forma suave. Nós sempre dizemos a verdade, mesmo
quando é impopular? E nós sempre dizemos as verdades impopulares com um espírito
amoroso e de uma forma amorosa?” “Em quinto lugar, exemplo. Não é apenas a
forma como falamos o que importa, mas como nós agimos. Eu me pergunto o que os babilônios
pensavam dos judeus exilados. Eles foram usados para conquista de outras nações
e seus líderes foram exilados. Na maioria dos casos, eu imagino que os exilados
de outras nações se ressentiam dos seus conquistadores, resistiam à sua
autoridade e procuravam por vingança. Eu me pergunto se os babilônios não se maravilharam
com os judeus, que buscavam a paz com e para seus vizinhos”.
“Os cristãos são frequentemente tentados a colocar a política
partidária acima de Cristo. Amigos, a nossa pátria está nos Céus e o nosso
líder é o Senhor Jesus Cristo, e Ele não está acima só de quatro em quatro
anos, mas reina para sempre e sempre! O nosso partido é a Igreja, e a nossa
plataforma é o amor de Cristo. Se fizermos isso, nosso exemplo terá uma influência
mais abrangente do que os nossos votos jamais puderam ter”.
“Que o nosso presidente e a nossa nação busquem o Senhor com
todo o coração, sabendo que a justiça exalta uma nação, mas o pecado é o opróbrio
dos povos. Que haja nos próximos dias uma grande despertar espiritual através
de nossa terra e que reverbere em todo o mundo”.
Compartilhe este artigo. Obrigado.

Postar um comentário
Seu comentário é muito importante