O chamado e a obediência de Jeremias - parte 2

O chamado e a obediência de Jeremias - parte 2


Em sequência ao artigo publicado na edição passada do Mensageiro da Paz, concluímos aqui nossa reflexão a respeito do chamado e da obediência do profeta Jeremias.

O chamado divino a grande obra pretérito ao nascimento

Em Jeremias 1.4,5, o Senhor vai ao encontro de Jeremias, que até então era um aspirante ao sacerdócio, e lhe transmite Sua Palavra, dizendo que o conhecia, o havia santificado (separado) e lhe deu o ofício de profeta. Semelhante chamado podemos perceber em Saulo de Tarso. Ele se preparou a vida toda para ser um fariseu mestre da Lei: aprendeu aos pés de Gamaliel e este, aos pés de Hilel. Durante o percurso desse ofício, Saulo é surpreendido pelo próprio Jesus, que muda o rumo de sua chamada, de perseguidor a perseguido, de fariseu à apóstolo e implantador de igrejas locais.

Moisés, de igual modo, até seus 40 anos de idade, se preparara em toda ciência egípcia para seguir na casta governante e servir em alguma alta função social. Dos 40 aos 80 anos, trabalhou como um pecuarista de gado miúdo, aos pés de um sacerdote. Aprendeu o ofício de esposo, pai e chefe de família provedor. Com seus 80 anos, recebeu, através do Próprio Deus, uma ordem: ser o libertador do povo e posterior legislador.

A um Deus chamou criança, a outro já com quase 80 anos, e a outro na casa dos 40 ou 50 anos, como Paulo. Os discípulos de Jesus foram ainda muito jovens. Mas o modus operandi é o mesmo: Deus vai ao encontro do homem e faz-lhe o convite, um pouco diferente do que imaginamos. Nosso Deus tem um plano para cada um, plano esse pretérito ao nosso nascimento, basta aguardarmos a hora dEle se manifestar a nós.

A análise introspectiva

Como leigo no chamado profético, Jeremias expõem suas debilidades e condições incapacitantes à realização da obra a qual Ele o havia chamado: “Eu não sei falar e sou uma criança”. Jeremias se sentia incapaz de ser aquele instrumento para Deus cumprir Sua vontade. Moisés faz a mesma análise introspectiva no ato de sua chamada: “sou pesado de língua”. João Batista se sente indigno de batizar Jesus. Muitos outros na Bíblia Sagrada se mostraram despreparados ao fazerem a análise introspectiva no ato de sua chamada. Meu caro irmão e minha cara irmã, é normal, em meio à nossa análise introspectiva, nos sentirmos tão desafiados a ponto de considerarmo-nos não aptos, mas lembrem-se que Deus é quem nos capacita a realizar Sua Obra.

Capacitação divina para desenvolver o ministério

Após ouvir a sentença de penúria e autocomiseração de Jeremias, Deus adverte-o a não enxergar pela perspectiva humana, não observar sua pouca idade ou incapacidade de falar. Toca em seus lábios (instrumento de trabalho do profeta) e, num ato miraculoso, cheio de significado e representatividade teológica, transmite a Jeremias Sua mensagem, Suas palavras. Vemos ato simbólico semelhante na passagem ministerial de Elias e Eliseu, com a capa de Elias. Mas, para que esse ato surtisse efeito, deveria haver a aceitação por parte do convidado, Jeremias. Sua obediência em realizar a tarefa foi fundamental. Assim é na vida do obreiro que aceita sua vocação e, num gesto de humildade e reverência, aceita de bom grado sua lida.

A capacitação divina e a obediência humana estão intrinsecamente unidas, e quando há esse entrelace, a obra de Deus é realizada e Seu propósito, alcançado.

A consciência de si no Reino de Deus

Ao reconhecermos nossa condição de pecador e confessarmos publicamente que Jesus Cristo é nosso Salvador, iniciamos nossa trajetória na caminha cristã, que, sob a ótica sacerdotal no Tabernáculo, equivale à entrada no átrio através da cortina de 4 cores e passando pelo altar do sacrifício de bronze, com suas 4 pontas (ou chifres) e sangue sobre elas, sacrifício do cordeiro imolado e fissurado, e gordura queimando. Ou seja, a primeira chamada é à conversão.

Seguindo adiante, o neófito passa por uma escola discipuladora para o batismo nas águas e, ao mesmo tempo, a partir de sua conversão, a busca pelo batismo no Espírito Santo. Nesse estágio, o fogo do altar do holocausto ou sacrifício pode acender o coração do crente, e o mesmo receber o batismo com Espírito Santo e com fogo. O crente sai do altar de bronze e segue para a pia de bronze, a fim de iniciar seu ofício como sacerdote (“Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real...”, 1 Pedro 2.9). O batismo nas águas nos dá a condição de preparo para o ofício. Jesus, antes de ser tentado, foi batizado por João Batista, para que a Escritura fosse cumprida. O crente se achega à pia de bronze e se lava para purificação. O batismo é a obediência e aceitação do chamado. A segunda chamada é o batismo nas águas.

Após ser batizado, o crente recebe a oportunidade de comungar com a igreja na Santa Ceia do Senhor, equivalente tipológico aos pães da proposição na mesa de madeira do lado direito do Lugar Santo. O crente deve fazer suas orações, que sobem como cheiro suave às narinas de Deus, equivalente tipológico ao altar do incenso de ouro. Deve ler e meditar na Palavra, que é luz para nosso caminho e lâmpada para nossos pés, tipologicamente o candeeiro de ouro no lado esquerdo do Lugar Santo. No pós-batismo, o crente percebe mais claramente sua chamada sendo consolidada. Qual serviço no Reino de Deus estarei realizando? Qual o meu papel no Reino de Deus? Para que fui chamado?

Análise introspectiva

Quando o próprio Deus, através do Seu Espírito Santo, nos revela qual o nosso chamado, tendemos a realizar uma análise introspectiva. Sentimo-nos como crianças, despreparadas para o serviço, diminutos, sem condições teológicas, sem eloquência, sem poder para curar, sem aptidão para liderar ou sem estilo para ser obreiro da casa de Deus. Essa análise é normal e comum de acontecer em cada crente, uma hora ou outra, seja mais jovem ou ancião. Após a nossa análise introspectiva, vem a resposta do Senhor, assim como foi com Jeremias.

A capacitação divina

Depois da análise sobre nós mesmos, o Senhor se manifesta. Esse é um modus operandi de Deus que vemos nos textos bíblicos. Vale ressaltar que o batismo com Espírito Santo nos reveste de poder e é uma capacitação divina para realizar qualquer obra no Reino de Deus. Se sua chamada for para usar os lábios, o Senhor tocará neles e transmitirá Sua mensagem com poder; se for com as mãos, as ungirá para o serviço; se for com os pés, calçará os mesmos para pisar onde quer que fores. A finalidade do serviço é glorificar o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Por fim, ressaltamos que a obediência ao chamado é fundamental para que sejamos Seu instrumento aqui na Terra. E o esmero em se aperfeiçoar faz com que o leigo se torne um obreiro de valor a serviço do Mestre.

por Filipe Abreu de Oliveira

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